• Elisa Ribeiro

À distância do abraço


Ao ver que a mulher não havia acessado ainda a mensagem de texto, chamou-a por voz no Whatsapp


— Querida, já cheguei, estou aqui embaixo.


— Acabei de ver sua mensagem. Desço já.


A mulher vestiu o macacão de proteção, a touca, as luvas, a máscara, os óculos e, por último pró-pés cobre os calçados. Pegou um roupão de banho limpo no armário, um saco de lixo de 20 litros e desceu para a garagem. O marido a esperava à porta do carro já despido da cintura para cima, a camisa e o casaco sobre as pernas. Vestiu o roupão, por baixo dele despiu a calça e cueca e depositou tudo no fundo do saco de lixo trazido pela mulher. Os sapatos e as meias, descalçou-os na porta do apartamento. A mulher, já descalçada dos próprios por-pés, lhe estendeu os chinelos de usar dentro de casa.


As crianças acenaram de longe, o cachorro no colo da mais velha abanou o rabo, assim como as crianças, impedido de se aproximar.


— Seria bem mais prático se você pudesse tomar banho no banheirinho dos funcionários lá embaixo. Vou perguntar novamente ao síndico se ele libera.


— Esquece isso, querida. Você aí toda cheia de escrúpulos e querendo terceirizar o seu risco. Aqui em casa, o problema é eu contaminar você ou os meninos. Lá embaixo são quatro porteiros, o zelador e os dois da limpeza. Não tem cabimento — falou já entrando no banheiro de serviço enquanto a mulher punha a roupa dele na máquina de lavar.


— Querido, você esqueceu de colocar a máscara — disse ela ao vê-lo sair do banheiro com o nariz e a boca descobertos.


— Amor, olha o meu rosto — apontou a marca ao redor do nariz e da boca — passei dia inteiro de máscara. Foi um dia terrível no hospital. Três óbitos nas últimas duas horas.


— Querido, eu já pedi para você não contar óbitos aqui em casa. E sobre a máscara, nós combinamos, lembra? Que você sempre usaria aqui dentro de casa.


— Eu sei. Você está certa. Vou direto pro quarto, são menos de dez passos. Vou relaxar um pouco — deu-lhe as costas. — Quando o jantar estiver pronto você me chama e eu coloco máscara, bem?


No quarto do filho mais novo, ocupado por ele em tempos de pandemia, abandonou-se na cama ouvindo sua playlist predileta. Uma música que ele nunca tinha ouvido o fez mergulhar em um sono denso e opaco.


Acordou ouvindo as batidas na porta, depois a voz e então o rosto sorridente da mulher pela porta entreaberta.


— Querido, o jantar está na mesa.


Não reconheceu o quarto do filho, Em vez da cama exígua onde seus ossos mal se acomodavam, sob seu corpo lasso estava a larga e macia cama King Size onde há mais de um mês não se deitava. Procurou a máscara na cabeceira. Não estava. Olhou para o rosto meigo da mulher que continuava a lhe sorrir da porta.


— Preciso de uma máscara.


— Máscara? Como assim? — ela se aproximou e beijou-lhe a testa

— Ei... você estava sonhando?


Ela o conduziu pela mão até a mesa posta para o jantar, o cachorro, cujo pelo pareceu-lhe estranhamente azulado, dando pulos à sua passagem. Os quatro pratos estavam arrumados bem juntos no mesmo canto da mesa longa de oito lugares. Não mais um prato para ele em uma cabeceira, a mulher e os filhos bem distantes, amontoados no outro extremo da mesa, ao pé da janela aberta para ventilar a sala.


Sentou-se no lugar indicado pela mulher, ao lado dela, e sentiu os lábios tremerem antes de as lágrimas alagarem seus olhos ao ver os dois filhos à distância do abraço que ele não iria evitar.


Alucinação, sonho, universo paralelo? Não saberia explicar. Pouco importava. Levantou-se e contornou a mesa. As crianças retribuíram o abraço como se estivessem com tanta saudade dele quanto ele estava delas.

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