É PRECISO ESTAR ATENTO E FORTE ...


Agora já se passaram muitos anos. Ainda lembro de vários fatos daquela época. As palavras de ordem, as bandeiras e os meus olhos perdidos naquela imensidão de gente que compunha a passeata ainda estão presentes em mim. Muita coisa ficou esmaecida pelo tempo, mas sempre sobra uns segundos em meu cotidiano para lembrar de algum fato daquela época em que eu estava saindo para o mundo.


Ao contrário do que você possa estar pensando eu não estou tendo um ataque saudosista. Gosto de lembrar das coisas que já vivi, algumas lembro até com um sorriso sarcástico nos lábios, outras com um certo ar de descompasso.


Por onde começo? Coisas de quase quarenta anos atrás às vezes não são muito interessantes para essa geração de hoje que prima pela velocidade e fugacidade das coisas. Interessante que esta acusação também era feita para a minha geração...


Será que não estou agindo como aqueles velhos ranzinzas que vivem falando coisas do tipo “no meu tempo não era assim” ou ainda “não entendo esses jovens de hoje”?


Não sei dizer por que tudo isso está vindo agora... Lembrar de algo tão antigo. Por que tenho que recordar coisas que já ficaram perdidas na poeira dos tempos?


“Meia-passagem agora, diretas já. Fora, fora, fora a ditadura militar”. Eu adorava esse grito que entoávamos, ficava empolgado com o sincronismo dos estudantes ao pronunciarem essa frase. Quando chegava em casa e ia tomar banho eu ficava cantarolando a palavra de ordem, depois de um tempo ela virava um grande sucesso internacional na minha cabeça.


Lembro que saiamos da universidade empolgados, uma massa de estudantes emponderados em um nível do tipo conquistaremos-o-mundo-com-uma-flor-na-mão-e-um-livro-na-outra. E lá íamos nós marchando, gritando palavras de ordem e dispostos a tomar o mundo.


Eu ali no meio da passeata, garganta a plenos pulmões, conversas e risadas com os camaradas da plebe e olhos que vasculhavam tudo. Em uma dessas varreduras quem eu encontro? Aquela que fazia meu corpo adolescente vibrar de desejo e fantasia. Calça jeans surrada, cabelos ao vento, um sorriso bonito e aquele jeito de andar que eu adorava. Ah...agora a passeata já estava muito mais interessante!


Em meio à multidão eu fazia questão de estar com ela sempre ao alcance dos meus olhos. O sol na cabeça e uma alegria indizível por saber que ela e eu compartilhávamos daquele momento. Ela sequer sabia que eu existia, meu encantamento por ela flertava com uma paixão platônica.


A estudantada marchava e eu ali com ela perto dos olhos e do coração. Gritávamos “você aí parado também é explorado” para as pessoas que observavam a passeata nas calcadas e nas janelas dos prédios. Volta e meia ficava olhando com admiração o jeito como ela andava e os sorrisos que dividia com suas amigas de caminhada. Que vontade de estar juntinho dela ...


Em algum canto da avenida Presidente Vargas os soldados da PM que acompanhavam nossa passeata começaram a jogar bombas de gás lacrimogênio. Quem já sentiu o efeito de uma bomba desse tipo sabe do que estou falando. Em meio a fumaça, cassetetes, gritos, correrias e uma ardência terrível nos olhos eu perdi de vista a minha musa.


Passados todos esses anos ainda penso na menina da passeata. Nunca mais a vi depois daquele dia. Vasculhei a universidade de cima a baixo, mas ela sumiu.


Os anos passaram e o rosto da moça da passeata congelou no olhar daquele garoto de dezoito anos.


Em algum lugar deste mundo quem sabe não tornarei a encontrá-la?



· O título deste pequeno conto é uma referência a música Divino Maravilhoso, composta em 1968 por Caetano Veloso & Gilberto Gil e cantada por Gal Costa.

0 visualização

© 2019 porandubarana. Orgulhosamente criado com Wix.com