• Elisa Ribeiro

Ela




para Jeff A. Silva



A tímida luz crepuscular apenas se insinuava por trás das delicadas cortinas de voile lilás. Logo o despertador do celular a traria de volta de seu sono de princesa, lânguido sob a coberta cor-de-rosa macia e peluda que transbordava da cama como uma calda de morango cremosa se misturando às almofadas e aos bichinhos de pelúcia espalhados pelo chão do quarto.


Primeiro um tato muito suave alisou seu tornozelo. No peito do pé, provocou-lhe uma ligeira sensação de cócegas que a fez esticar as pernas como se escalasse uma falsa montanha desenhada sobre os lençóis. Virou-se de lado.


O afago, interrompido pelo movimento brusco ao reacomodar-se, reiniciou no calcanhar deslizando em seguida pelo tornozelo e daí à pele mais fina na parte interna da perna. Passou pelo joelho e subindo pela coxa fez surgir, depois de um murmúrio — hummmm — um sorriso úmido nos lábios entreabertos. Aquele deslizar lento puxava o fio de seus sonhos por caminhos mágicos.


Por um instante suspensas, o tempo de percorrer o shortinho do baby-doll todo embolado, as carícias voltaram na pele lisa do abdômen elástico. A mão esquerda desceu em direção à trilha percorrida pelos afagos em sua barriga, mas acabou desviando-se para a púbis morna ao mesmo tempo em que as carícias se dirigiram para o punho do outro braço.


Deslocavam-se os carinhos rumo ao ombro quando um raio de luz atingiu seus olhos semicerrados. Naquele atordoamento típico do primeiro instante ao despertar, achou que ainda sonhava ao sentir que os ternos dedos continuavam subindo pelo seu braço.


Viu primeiro as antenas tremendo.


No ombro, uma barata cascuda enorme, lustrosa, as pernas peludas, as asas membranosas, a olhava.


Um grito acordou a casa inteira. Depois, um salto. Passado um tempo, porém, sem que ela se desse conta, sua relação com tais insetos repugnantes tornou-se bem mais complexa do que um simples nojo ancestral mal fundamentado.




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