COMA

Naquela noite, antes de iniciar minha primeira rodada de estudos, subi os degraus de madeira atenta aos desenhos que as sombras criavam nas paredes, e segui em direção ao quarto de Isabel. Porém, quando estava há poucos metros da entrada percebi que a porta estava fechada, estranhei aquilo, afinal o protocolo dizia que o quarto devia permanecer sempre aberto e a plantonista do dia nunca cometia aquele tipo de deslize. Talvez tenha sido o vento, pensei, enquanto girava a maçaneta abrindo a porta. De dentro do cômodo veio o cheiro forte e característico que nenhum produto de limpeza conseguia tirar, uma mistura de medicamentos e um leve odor de alfazema além de e uma nota indecifrável que eu acreditava ser o cheiro da própria morte vagando pelo quarto solitário. O ruído entrecortado dos equipamentos hospitalares que ocupavam quase todo o espaço era o único som que se ouvia ali dentro. Caminhei em direção à cama e ao me aproximar, notei que naquela noite Isabel tinha os olhos abertos — isso acontecia algumas vezes, eram olhos grandes e azuis, sem brilho e que apesar de cegos pareciam observar o que acontecia ao redor — e o seu peito subia e descia de forma mecânica, impulsionado pelo ar que era empurrado para dentro de seus pulmões artificialmente. Olhei para o corpo inerte por alguns minutos me perguntando se ela tinha alguma ideia do que acontecia naquele quarto, se sabia que depois de sua tentativa frustrada de suicídio, o marido tinha deixado a casa para viajar o mundo com a amante sem qualquer sinal de arrependimento até morrer tranquilamente, vários anos depois, numa cama de hotel nas Bahamas. A ideia de ficar presa dentro do meu próprio corpo por tantos anos sempre me causa uma forte sensação de claustrofobia. De repente, senti que fazia bastante frio ali, muito mais do que no resto da casa, peguei uma manta ao estender sobre o corpo minúsculo e ereto vi que um fluido espeço cor de caramelo escorria da boca semiaberta de Isabel. Com um lenço umedecido comecei a limpar os lábios ressecados tomada pela desconcertante sensação de estar sendo observada. Até que senti um violento golpe na lateral do meu corpo. Gritei e me afastei até bater as costas na parede. Demorou alguns segundos para eu entender que tinha sido acertada pelo braço de Isabel, num de seus constantes momentos de espasmo muscular, recobrei a presença de espírito e terminei o que tinha que fazer o mais rápido que pude. Sai do quarto me sentindo uma boba por ter gritado e mais ainda por continuar com as pernas bambas. O vento gelado corria pelos corredores da casa assobiando baixinho e agitando as cortinas de organdi branco. Antes de subir para conferir como ela estava, fechei as janelas, desliguei as luzes deixando apenas os abajures acesos e preparei uma garrafa de café forte. Cuidar de idosos com certeza não era o que eu queria para minha vida, mas como minha bolsa de estudos cobria apenas parte dos meus gastos eu precisava de outra fonte de grana pelo menos para arcar com os livros e, eventualmente, comer, então aceitei o emprego. Logo percebi que não chegava a ser ruim, afinal eu passava o dia entre as aulas e as pesquisas na biblioteca da universidade e à noite cuidava de Isabel, uma mulher de noventa anos presa à cama há quarenta, desde o dia em que havia tentado se matar. Após descobrir a traição, Isabel simplesmente parou de comer numa tentativa chamar a atenção do marido, mas quando o tempo passou sem que a estratégia desse resultado, tomou uma mistura de veneno de rato e psicotrópicos que corroeu seu sistema digestivo e a deixou em estado vegetativo. E desde então ela vivia graças à UTI instalada em seu quarto. O marido e a amante já haviam morrido há muito tempo, mas Isabel continuava ali, respirando com ajuda de aparelhos, se alimentando por meio de uma sonda e expelindo seus excrementos pastosos em uma bolsa acoplada à cama. Meu trabalho era simples, bastava ficar atenta aos sinais vitais da paciente, aplicar a dieta integral a cada quatro horas e trocar a bolsa de excrementos duas vezes durante a madrugada. Em caso de emergência, deveria ligar para os responsáveis pelo home care e aguardar que a equipe médica chegasse em menos de cinco minutos, conforme prometia o contrato. Era como cuidar de um bebê sem o inconveniente do choro e das fraldas, além disso, o turno da noite pagava bem e eu podia aproveitar o tempo para estudar naquela casa onde o silêncio era tão completo que se podia contar as horas ouvindo as badaladas do antigo relógio cuco que ficava no primeiro andar. Desci para a sala de estar onde o café e os livros me esperavam ainda com o coração acelerado. Desde meu primeiro de trabalho, sentia-me muito à vontade naquela casa — a noite e a solidão sempre me agradaram —, mas naquela noite um estranhamento tomava conta de mim e eu sabia que não era só pelo incidente bobo que havia acabado de acontecer. Comecei minha leitura um pouco dispersa, mas algum tempo depois, a complexidade do texto me fez esquecer aquela sensação. Eu já estava lendo há bastante tempo quando o sono começou me vencer, meus olhos ardiam e era cada vez mais difícil mantê-los abertos. Enchi a xícara com o que restava do café já morno e tomei-o todo de uma, vez sentido o líquido viscoso escorrer por minha língua, rasgar minha garganta até explodir em meu estomago e decidi fechar os olhos para descansar por cinco minutos. Acordei com o rosto numa poça de saliva que manchava a página em que havia parado a leitura. Minha boca tinha um gosto forte e amargo e eu me sentia ausente. Quando consegui ficar atenta novamente percebi que havia algo destoando daquele ambiente já tão familiar e demorei vários segundos para me dar conta de que havia um tilintar de pratos e panelas na cozinha. Intrigada, levantei-me depressa demais e aquilo fez com que eu me sentisse atordoada, como se meu espirito tivesse se desprendido de meu corpo e depois de flutuar para longe, tivesse sido trazido de volta com violência. Imaginei que havia um intruso na casa e a única coisa que eu podia fazer era chamar a polícia, para isso eu teria que ir até o hall de entrada, era lá que ficava o único telefone da casa. Eu tinha que tomar cuidado, pois para chegar ao aparelho eu teria que passar pela porta da cozinha e se o intruso me visse antes que eu pudesse pedir socorro, eu colocaria minha vida — e a vida de Isabel — em risco. Caminhei lentamente como em um sonho, consciente de cada passo que dava e, exatamente quando eu passava pela porta da cozinha, ouvi o estalo do interruptor e o cômodo se encheu de uma luz opaca que se refletiu nos azulejos brancos me cegando por breves instantes. Paralisada pelo susto, olhei para dentro e quando minhas pupilas se acostumaram àquela claridade intensa a vi em pé, junto ao fogão. O corpo magro e pálido de costas para mim estava completamente nu, as nádegas brancas e murchas expostas, o torço encurvado, o cabelo não mais que uma penugem rala. Não consegui esboçar qualquer reação, acreditando que aquilo era um pesadelo ou uma alucinação até que, percebendo eu que estava ali e a observava, ela lentamente visou-se em minha direção e eu pude ver que em suas mãos enrugadas e sujas de sangue havia uma faca de cozinha. Por um breve instante nos encaramos, então Isabel arreganhou os lábios numa sinistra tentativa de sorriso deixando à mostra as gengivas nuas onde mais sangue coagulava. Com uma voz débil e sibilante como o chiado de uma cobra, ela tentou dizer algo que soou como “eu estava com fome”. Então percebi que Isabel segurava sua própria língua numa das mãos e, sem qualquer cerimônia, voltou-se novamente em direção ao fogão e lançou o pedaço de carne sangrento na panela com óleo fumegante que borbulhou enchendo a cozinha de um cheiro rançoso e adocicado de carne humana queimando.





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