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No pátio, os negros entoam suas cantorias acompanhados pelo batuque animado. Na varanda, duas pessoas discutem numa língua desconhecida. No quarto, a velha costura e o som ensurdecedor da máquina se espalha por todos os cantos. Pela porta da frente, uma procissão se arrasta com suas rezas numa cacofonia disforme. A mãe lamenta o filho natimorto. Há passos cansados e pesados de um lado para o outro. Na sala, o homem saúda o Estado Novo. Pelos corredores escuros, a moça chora a morte do marido que foi tomar a Itália e nunca mais voltou. A voz magnética do rádio anuncia, para o homem que chora baixinho, o tiro no peito do presidente. O moço ralha com as crianças que correm descalças por todos os lados e da janela alguém agradece pela chuva que molha o campo ensolarado lá fora.

No quarto, o menino ouve todos aqueles ecos do passado que se repetem e se misturam dia após dia, mas ninguém acredita no que ele diz.









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