Fome




Sentada em sua cama sobre o lençol surrado, ela sentia nos ossos o frio brutal que dominava o pequeno quarto. A luz mortiça que entrava pelas frestas da janela fechada há muitos dias iluminava as minúsculas partículas de poeira, que dançavam no ar hipnotizando-a, até que um gemido baixo e constante vindo de longe foi aumentando de intensidade até atingi-la como um golpe, tirando-a do transe.


Olhou para o lado e se deparou com o corpo pequeno e frágil estendido ao seu lado na cama. Não compreendeu de imediato o que aquela criança fazia em seu quarto ou como tinha ido parar ali e demorou vários minutos para se dar conta de que a criatura pequena e indefesa era seu filho.


Não se lembrava de qual o nome havia escolhido para ele, não sabia sequer quem era o pai do bebê. Tivera tantos homens nos últimos tempos. No começo, se deitava com aqueles que podiam lhe pagar, nos quartos sujos das espeluncas que infestavam aquele canto esquecido do mundo, com o tempo, porém, passou a fazer qualquer coisa, em qualquer lugar, por qualquer trocado que lhe permitisse saciar seu vício mesmo que por alguns poucos minutos, até perder qualquer respeito por si mesma e por seu corpo.


Vivia tão completamente entorpecida que não percebeu que estava grávida até ser surpreendida pelas primeiras dores. Estava em meio a um programa, num beco sujo. O homem se assustou quando ela caiu no chão gemendo e, temendo que ela estivesse tendo uma overdose e que acabasse morrendo em sua companhia, fugiu dali deixando-a para trás.


Ao menos teve a decência de ligar para o socorro.


Contrariando todas as probabilidades, o parto foi tranquilo e a criança nasceu saudável. Quando ela viu aqueles olhinhos pela primeira vez, decidiu que mudaria de vida e não aceitou entregar o filho para o Conselho Tutelar.


As funcionárias da maternidade compraram roupinhas, fraldas e os artigos de primeira necessidade para o bebê e ela voltou para seu quartinho disposta a fazer tudo pelo bem de seu filho.


Não tinha ideia do quanto seria difícil para alguém como ela encontrar um caminho que a levasse para longe da vida difícil que levava e, depois de algumas semanas repletas de frustração e medo, voltou a se prostituir, afinal, não havia outro meio de arranjar dinheiro e ela precisava se alimentar para poder matar a fome do filho.


Nas primeiras noites se manteve fiel à sua promessa e usou todo o dinheiro que ganhou para se alimentar. Mas logo a dureza daquela vida lhe pesou demais. Ela precisava escapar da realidade por alguns minutos. Não era por ela que faria aquilo, era pelo bebê, era para poder continuar até conseguir coisa melhor. Seria apenas um tapa, o necessário para ela se desligar por alguns minutos do nojo que sentia de si mesma após o dia de trabalho.


Não sabia dizer por quanto tempo tinha estado longe em seu devaneio, mas quando recobrou a consciência, o primeiro pensamento que lhe veio à mente foi de que de que o bebê devia estar com fome, então pegou-o nos braços e o aproximou dos seios flácidos. A criança não esboçou reação, o corpinho frio e inerte não produziu som algum.


A densa escuridão que agora ocupava o seu redor não permitia que ela o visse com clareza, então ela aproximou-o mais de seus olhos. Só então percebeu que de seu rostinho grandes nacos de carne haviam sido arrancados.


Tomada pelo desespero, lançou o corpo sobre a cama e acendeu as luzes a tempo de ver uma enorme ratazana se esgueirando rápida pelo chão em direção ao seu ninho e levando na boca o pedaço de carne vermelha e sangrenta para alimentar suas crias.




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