• Elisa Ribeiro

Otto




Ainda de olhos fechados, pensei estar sonhando as vozes que haviam me despertado.


Estendi a mão em direção ao copo d´água sobre a mesa de cabeceira, mas não encontrei nada. Abri os olhos. As vozes continuaram.


O copo estava no chão, a água derramada. Lembrei-me de tê-lo derrubado na tentativa do primeiro gole, logo após ter deitado. Com a boca seca, levantei da cama disposta a ir até a cozinha, no piso térreo da casa. Mesmo de pé, continuei ouvindo as vozes.


Olhei a cama ao lado, minha irmã não estava. Abri a porta do quarto. Além das vozes, uma luz fraca e um cheiro forte de incenso vinham do andar de baixo. Esgueirei-me pelo corredor, depois desci pela escada apenas o suficiente para ver o que se passava na sala.


Éramos sete na família. Meu pai, minha mãe, dois irmãos mais velhos, eu – a filha do meio – minha irmã, quatro anos mais nova, e o caçula, de oito anos. Havia também o Otto, o cachorro, um pastor-belga negro, grande e bravo, com olhos amarelos, cor de mel, como os do meu pai. Surgira do nada, ainda filhote, na rua onde morávamos, anos atrás. Minha irmã, a caçula na época, esperneou até que o trouxéssemos para dentro de casa. Ele, o cão, nunca foi com a minha cara.


Do alto da escada, avistei a família toda, exceto meu pai, reunida ao redor de uma figura que usava um manto roxo e um chapéu, tipo mitra papal, também roxo, com uns desenhos vermelhos bordados. Parecia um padre, mas quando ele se virou de lado vi que era o Otto. Estava sentado numa poltrona alta – uma espécie de trono – altivo, com as patas dianteiras pousadas nos braços da cadeira. Minha mãe, de pé à sua esquerda, dava a mão ao meu irmão caçula. Os mais velhos estavam do outro lado, e minha irmã, vestindo uma camisolinha azul, estava ajoelhada em frente ao Otto.


O cachorro falava com voz firme e grave numa língua que não consegui identificar. Minha mãe respondia com palavras igualmente incompreensíveis e meus irmãos repetiam em seguida o que ela havia dito. Usavam uma entonação monótona, como se estivessem num transe, e mantinham os olhos fechados.

Por algum motivo, eu não estava convidada para participar do que quer que fosse aquilo. O mais prudente, pensei, era me comportar como se não houvesse visto nada.


Voltei ao quarto. Rezei debaixo das cobertas apertando entre as mãos o crucifixo esquecido na gaveta da cabeceira desde a missa do meu décimo quinto aniversário. Depois de um tempo, minha irmã entrou, caiu na cama e apagou imediatamente, como se estivesse dopada.


Passei o resto da noite acordada. Levantei às seis e meia, meu horário habitual. Tomei banho, me aprontei para o colégio e desci para o café.


Otto estava deitado no quintal. Levantou a cabeça quando me viu, deu uma rosnadinha e mostrou os caninos, quase tão amarelos quanto os olhos.


Desde filhotinho ele me odiava. Depois de adulto, sempre que não havia ninguém por perto, me ameaçava com rosnados e latidos. Às vezes colocava as patas nos meus ombros, me intimidando com o bafo fedido, o focinho úmido encostado na pele fina do meu pescoço.


Coloquei água para ferver. Era assim que funcionava lá em casa, quem acordava primeiro preparava o café para os demais.


Estava sem apetite, o estômago embrulhado por causa da madrugada em claro. Mesmo assim fiz um sanduiche e empurrei para dentro enquanto examinava o ambiente em busca de algum vestígio do que havia acontecido de madrugada. Tudo impecavelmente arrumado, não havia sequer um pelo do Otto no sofá ou no tapete da sala.


Logo começaram a descer os outros. Meu pai foi o último a se juntar a nós. Avaliei se valia a pena comentar com ele o episódio da madrugada. Meu medo era parecer uma doida narrando que o Otto falava e se comportava como gente durante um ritual bizarro.


Decidi arriscar.


“Pai, você pode me dar carona hoje?”


“Claro que sim, filha.”


A reposta foi surpreendentemente amável. Ele normalmente era muito seco. Eu não gostava de pegar carona com meu pai por causa disso. Ficava incomodada porque ele praticamente não trocava nenhuma palavra comigo durante todo o itinerário.

Já do lado de fora, comentei, um pouco ansiosa:


“Pai, aconteceram umas coisas estranhas ontem à noite.”


“É? Coisas estranhas à noite? De que tipo?”


Então, ele bateu com as mãos nos bolsos do paletó, como para checar se havia esquecido algo.


“Ih, minha filha. Espera aqui um minutinho.”


Percebi um cochicho entre meu pai e minha mãe antes de ele desaparecer dentro de casa. Logo em seguida, ela saiu, um sorriso forçado no rosto, me abraçou e me beijou com a boca seca e gelada.

“Você está com umas olheiras... Os pesadelos voltaram, filhinha?”


O contato com minha mãe sempre me causava uma espécie de constrangimento.


“Não, mãe. Só estou um pouco cansada.”


“Você precisa ir pra cama mais cedo. Hoje à noite vou preparar um chazinho. Você vai ficar mais relaxada.”


Devolvi um sorriso sem graça.


“Tá bom, mãe. Obrigada.”


“Vamos, filha?”


Era meu pai que voltava.


No carro, esperei avançarmos um pouco antes de começar a falar.


Não dava para contar tudo – por exemplo, que tinha visto o Otto

sentado, vestindo um manto e falando numa língua incompreensível. Decidi dizer apenas que tinha acordado de madrugada e visto a família toda no andar de baixo. Não mencionei o cachorro, mas disse que minha mãe e meus irmãos falavam num idioma estranho, desconhecido para mim, e que todos pareciam em transe. Meu pai só murmurava “u-hum...” e “a-hã...”. E ao final fez um comentário nada encorajador:


“Filhinha, é claro que isso foi um sonho. Vou falar com a sua mãe pra marcar uma consulta com o seu psicólogo, tá bom?”


A essa altura, já estávamos na esquina do colégio e não valia a pena retrucar.


“E que tal voltar a frequentar a igreja? Depois que você desistiu da crisma, parou de ir à missa, não foi? Pesadelo é coisa de quem não reza.”


Desci do carro sem dizer mais nada.


Meus pais sempre associavam tudo o que acontecia comigo aos meus problemas de sono na infância: terror noturno, pesadelos, sonambulismo. Uma vez, entrei no quarto da minha mãe de madrugada e apertei o pescoço dela. Uma doida perigosa, era o que diziam de mim e como passaram a me tratar depois desse episódio.


Tentei me concentrar nas aulas, mas não consegui. As cenas do ritual sinistro não me saíam da cabeça. Apavorava-me a ideia de voltar para casa e passar por aquilo de novo. Despertar durante a noite, ouvir as vozes, sentir o cheiro de incenso. Pensei em dormir na casa de alguma amiga, mas não consegui que nenhuma delas me convidasse.


Depois das aulas, me enfiei na biblioteca. Pesquisando em livros antigos e na internet, acabei desvendado ser latim o raio de língua que havia ouvido em casa. Pouco depois das seis, como não tinha nenhum outro lugar para ir, tomei o rumo de casa.


Minha mãe me recebeu com a mesma expressão de falso amor materno de sempre. Perguntou onde eu havia passado a tarde, disse que meu pai havia comentado sobre o tal sonho e que já tinha agendado o psicólogo para a próxima semana. Avisou que havia preparado um chá calmante para mim – cidreira, camomila, maracujá, sei lá o que mais. Estava em uma garrafa de alumínio dentro da geladeira. Mandou que eu tomasse tudo antes de deitar.


Um dos meus irmãos, na sala assistindo TV com os outros dois, ouviu a conversa e comentou, sarcástico:


“E aí, nerd esquisitona!? Estudando bastante porque nenhum garoto te chama pra sair, né?!”


O outro complementou:


“Ela não arranja namorado, tem que tomar chazinho pra ficar mais calma.”


Os três, até o pirralho, começaram a rir alto de mim. Minha mãe disfarçou um sorriso irônico, mas não falou nada. Para me defender, como sempre, vesti minha armadura emocional carregada de mágoa, devolvendo-lhes silêncio e uma indiferença simulada.


Eu não queria me acalmar, tampouco tomar o chá. Não dava para confiar na inocência daquela bebida. Minha mãe provavelmente tinha adicionado algo mais forte, um dos remédios antigos, para me acalmar. Ficou monitorando se eu estava bebendo. É uma sorte ter um bando de irmãos para distrair a atenção dos pais numa situação como essa. Consegui descartar quase tudo derramando aos poucos o conteúdo da garrafa nos vasos de planta espalhados pela casa.


Às nove fui para o quarto levando meu copo com água. Era um hábito. Sempre acordava com sede durante a noite. Pousei-o sobre a mesa de cabeceira. Folheei um livro até às nove e meia, apaguei a luz e comecei o meu teatro.


Fingia dormir virada de frente para a porta quando minha irmã entrou. Sem acender a luz, ela parou um instante ao lado da minha cama, pegou meu copo e cuspiu dentro. Isso mesmo, deu uma cusparada, do nada, na água que eu ia beber. Depois vestiu a camisolinha azul da véspera, desarrumou a cama e deitou. Simulei que despertava com o barulho, peguei o copo d’água e confirmei as bolinhas de saliva e uma gosma amarela grudada no fundo.


Depois que todas as luzes de casa se apagaram, ficou difícil resistir ao sono. Contra mim, além da noite anterior maldormida, havia o efeito dos goles que eu não conseguira evitar completamente do chá dopante da minha mãe. Meio atordoada, ouvi meus pais murmurando no corredor antes de entrarem e levarem minha irmã, caminhando meio trôpega, quarto afora.


Logo começou a agitação no térreo. Eram três e meia da madrugada. Dessa vez não me levantei. Já sabia o que aconteceria lá embaixo e não queria correr o risco de ser pega. Senti o cheiro de incenso e escutei as mesmas falações incompreensíveis. A voz mais grossa, que eu sabia ser do Otto, declamava. Minha mãe respondia, os demais completavam.


Ao voltar para o quarto, minha irmã parecia estar na mesma espécie de transe da véspera. Cheirava a morrinha de cachorro.


Caiu direto na cama sem sequer tirar o chinelo.


Permaneci deitada, os olhos arregalados de pavor, tentando traçar um plano para sumir. Não havia a menor condição de continuar dormindo naquela casa.


Pulei da cama logo que amanheceu, quase uma hora antes do meu horário habitual. Catei discretamente uma muda de roupa no armário, peguei uns produtos de higiene e enfiei tudo na mochila do colégio. Apanhei também as sobras das mesadas que guardava dentro de uma meia na última gaveta do armário. Tomei um banho quente rápido e desci. Na porta da cozinha, dei de cara com o Otto acordado. Ele exibiu os dentes amarelos ao rosnar para mim, como de hábito. Fechei o vidro no focinho dele. Nunca mais veria aquela cara de diabo! Engoli uma caneca de café solúvel e um croissant dormido. Peguei dois sacos de biscoito, enfiei na mochila e saí de casa como se estivesse indo um pouco mais cedo para o colégio.


Já virava a esquina quando me dei conta de que ia precisar de um casaco. Voltei, deixei a mochila ao lado da porta de entrada e subi. Na porta do meu quarto, encontrei meu pai.


“Por que você acordou tão cedo hoje, minha filha?”


Respondi uma mentira qualquer:


“Tenho prova no primeiro tempo. Não quero correr o risco de chegar atrasada.”


Entrei no quarto, peguei minha jaqueta vermelha. Era o casaco mais quente do armário.


“Filha, pra que esse casaco? Você está doente?”


Ele estendeu o braço para tocar a minha testa. Senti um aperto na garganta ao perceber o calor da sua mão em contato com a minha pele. Queria enxergar amor em seus olhos cor de mel e ouvi-lo dizer que gostava de mim, que meu lugar era ali e que eu não precisava fugir daquela família que me isolava. Mas quando levantei a cabeça havia um meio sorriso em seu rosto e sua boca entreaberta mostrava, como Otto minutos antes, caninos grandes e amarelos. Afastei-me.


“Tenho que ir, pai.”


Ficaria louca se não fosse embora imediatamente dali. Desabalei escada abaixo, peguei minha mochila no hall de entrada e saí, largando a porta escancarada.


Meu plano era procurar minha antiga babá no bairro onde ela morava. Tinha ido visitá-la mais de uma vez com minha mãe. Sabia o nome do lugar e tinha uma vaga lembrança da praça em frente à casa dela.


Tomei o metrô, depois um ônibus, e outro em seguida. Cheguei por volta das duas da tarde, comi um McDonald's e vagueei até as seis, tentando localizar a tal praça, certa de que minha babá me acolheria e faria eu me sentir protegida e amada. Minha mãe começou a ligar no comecinho da noite. Tirei o chip do celular, procurei um canto quente para descansar. Apaguei por volta das nove.


Acordei desconjuntada, mas o banheiro e o café do McDonald's me recompuseram. Perambulei pelas ruas do bairro o dia inteiro e, ao escurecer, me recolhi como na véspera.


Repeti esse script nos dias seguintes. Cansada, dormia noites sem sonhos e acordava cada vez mais esfomeada e maltrapilha.


Na terceira manhã, reencontrei meu pior pesadelo. Ainda deitada, avistei ao longe um cachorro que me olhava. Ao minuto de dúvida seguiu-se a certeza de que era o Otto. Embora escondido por uma densa névoa, reconheci os olhos e os caninos amarelos. Ele havia me encontrado. Pensei em correr, tentar escapar, mas pressenti que não adiantaria fugir. Ele me acharia onde quer que eu estivesse. Conformada, decidi descansar mais um pouco. Dei-lhe as costas e voltei a cerrar os olhos. Mas, como meu tempo de dormir já havia passado, me virei de volta para a direção em que o vira saindo da névoa. Assustei-me ao perceber tão próximos seus olhos cor de mel, mas demorei a entender o que dizia aquela boca repleta de grandes dentes amarelos.


“Filha, levante! Você vai perder a hora do colégio.”

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