A besta





And so I wake in the morning and I step outside

E então eu acordo pela manhã e vou lá para fora And I take deep breath

E eu inspiro profundamente And I get real high

E eu fico muito chapada And I scream from the top of my lungs

E grito com toda a força What's going on? O que está acontecendo? What's Up? - 4 Non Blondes










Hoje mais cedo mataram o monstro que comia criancinhas.

Foi o que disseram as mulheres da minha vila.

Mesmo à distância, pude ouvir enquanto festejaram a chegada do cansado mensageiro com notícias do grupo de homens que com muito esforço trucidou a temida fera. Era um milagre.

Por muito tempo ficamos a mercê do monstro, tanto que até hoje ninguém tinha visto sua face, nem mesmo algum contorno de seu corpo. Ele fazia parte de nossos piores pesadelos e medos mais profundos, como uma ameaça sempre onipresente, escondida atrás de cada árvore, de cada morro, de cada sombra.

O medo angustiante daquela monstruosidade fez com que todos os homens de vila se juntassem em uma desesperada caçada dentro das entranhas da temível Floresta Negra, deixando apenas as mulheres como guardiãs de nós crianças.

Somos mais de trinta, confinadas e assustadas dentro do velho estábulo. Afinal, éramos nós o principal alvo da besta, pois desde os relatos das lendas antigas é sabido que a fera matava os adultos, mas devorava somente crianças.

Ao longe escuto alguns passos. Ouço a cadência macia do peso dos pés sobre a terra escura e enlameada da última chuva. Concentro-me um pouco e quase posso sentir o som do tecido dos calçados escorregando e avançando, abrindo sulcos barrentos e avermelhados em nossa direção.

Os demais nada ouvem, porém percebo que estão cheios de medo. É como um cheiro forte e doce que paira no ar, impregnando cada canto desse lugar. Eles choram baixinho e chamam soluçando pelos pais. Chega a ser patético.

Olho pra cima e vejo a grande lua entre grossas nuvens e as tábuas mal pregadas do teto recém-fechado. Ela está maravilhosa essa noite. Sem fazer barulho dou alguns passos para trás e me envolvo nas sombras que moram do fundo do cômodo, onde posso observar melhor todos os pequenos, alguns que conheço bem e outros muitos com quem mal falo. São tantos.

Ao analisar melhor percebo que eles juntos não parecem diferentes uns dos outros, para mim parecem apenas pequenas e fofas porções de carne, sangue e órgãos. Um maravilhoso deleite para um estômago vazio. Sinceramente nem sei como me segurei todo esse tempo.

Deixo minhas garras crescerem e fico sobre quatro patas, os pelos crescem e as presas afiadas brotam da boca que se alonga. Os ossos rangem, estalam e mudam de lugar. Os músculos crescem e endurecem rasgando meu pequeno vestido. Os gemidos de dor da transformação começam chamar a atenção. Os olhos vermelhos dentro da treva infinita me mostram a cara de espanto deles ao encararem o abismo escuro e sem forma.

Um barulho metálico do outro lado da porta indica que uma das mulheres abre o cadeado que tranca o estábulo. A velha porta de madeira no entanto se recusa a ceder passagem de bom grado. Sem entender, elas balançam as tábuas tortas com preocupação. Talvez sejam os ferrolhos internos que fechei assim que fui colocada aqui.

Eu calmamente saio das sombras e vejo os pequenos rostos aterrorizados. Seus gritos desesperados me arrepiam e chego a salivar de prazer. A pequena multidão se espreme e se debate contra a porta maciça enquanto avanço coberta pelo brilho da lua cheia que penetra do teto. Pelos negros como a noite e olhos vermelhos como o poço do inferno, sem pressa alguma, passo a passo.

Sem escapatória para o rebanho, todos vão morrer aqui.

Afinal, hoje mais cedo mataram meu pai.









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