A casa das múltiplas portas


Ainda estou meio dormindo. Uma preguiça gostosa percorre meu corpo. Não quero abrir os olhos e tento voltar a dormir. Ainda sinto o perfume de Cristiany e a maciez dos seus lábios. Foi uma noite maravilhosa e mal vejo a hora de vê-la novamente.


Penso nela com carinho e uma sensação prazerosa invade meus sentidos. Uma paixão aos poucos vai se insinuando. Quero voltar a dormir e sonhar que estou fazendo carinhos em seu pescoço, mas não adianta, pois já estou desperto.


Com certa má vontade eu abro os olhos. O que vejo me surpreende... Que lugar é esse? Eu simplesmente não estou em meu quarto. Que merda é essa já? Eu não bebi tanto assim. Estou deitado em uma cama que não é a minha, olhando para um quarto com paredes impecavelmente brancas. Tudo muito diferente do meu velho quarto com suas paredes descascadas.


Definitivamente não estou em minha casa. Tenho certeza que ontem à noite deitei em minha cama para dormir. O que diabos houve? Do nada acordo em um quarto estranho e que nunca vi na vida. O que ocorreu?


Olho ao redor e tudo o que vejo é um quarto não muito grande. Além da cama onde agora estou sentado existe apenas uma mesa, com um vaso de flores em cima, e uma cadeira como únicos móveis.


Confesso que não estou entendendo nada. Ontem finalmente sai para jantar com uma mulher que há meses eu vinha desejando em silêncio. Rolou um beijo entre nós, tomei duas taças de vinho, voltei para casa em estado de encantamento e amanheço na porra de um quarto que não é o meu?


Uma sensação de estranhamento me assalta nesse momento.


Imediatamente levanto-me para sair. Um rápido passar de olhos e observo que o quarto não possui janelas e tem apenas uma porta.


Resolvo consultar o celular e ligar para Cristiany. Maldição ele está descarregado!


Dirijo-me para a porta, giro a maçaneta e...


Quarto 2

Vejo-me em um cômodo com paredes translúcidas, quase invisíveis. Não existe nenhum móvel ou objeto visível. É como se eu estivesse dentro de uma caixa de vidro transparente, só que não vejo nada do outro lado. Ando sobre um chão que eu não enxergo. Uma sensação perturbadora me aflige como se faltassem referências para alguma coisa que não sei nomear. Será que é o fato de não ver as paredes, o chão e o teto?


Saio tateando desesperadamente naquilo que imagino ser uma parede. Termino encontrando algo parecido com um botão. Aperto ele e algo como uma porta se abre.


Quarto 3

Sinto minha cabeça molhada, vejo que estou deitado em cima de algo duro, frio e desconfortável. Acho que é uma espécie de pedra. Com horror descubro que não consigo me levantar! Meus pulsos e tornozelos estão amarrados e uma dor aguda bem no meio de minha testa ameaça fazer minha cabeça explodir.


Olho para um teto sujo e vejo que existe um pequeno cano situado bem no alto dele. Ele é fino e está em cima de minha testa. Dele caem gotas de água.


Cada gota parece querer atravessar meu cérebro. É como se uma pequena agulha perfurasse lentamente minha pele. Há quanto tempo eu estou amarrado aqui com essas gotas de agua caindo em minha testa?


A dor é insuportável.


Tomado pelo desespero eu começo a forçar uma de minhas mãos amarradas. Faço tanta força que termino urinando. Termino arrancando quase toda a pele que revestia minha mão. Grito de dor enlouquecidamente, mas sinto a mão livre.


Rapidamente me desamarro e corro para a única porta que vejo.


Quarto 157

Encontro-me defronte de um painel de instrumentos. O que é isso? Estou sentado diante de um monitor dourado e fino que mostra imagens de pessoas amontoadas em uma sala. Elas são centenas. A resolução da imagem permite que eu veja o medo estampado no rosto daquelas pessoas. Elas estão todas nuas e muitas gritam e choram.


Minhas mãos movimentam-se em direção a uma pequena alavanca. Descubro que não tenho controle sobre elas e termino baixando a alavanca. Vejo com horror uma fumaça acinzentada invadir a sala onde as pessoas estão aprisionadas. Elas sufocam e em pouco tempo estão todas mortas. Seus rostos mostram uma cor arroxeada e vejo que muitas morreram abraçadas entre si.


Um desespero inominável toma conta de mim e fecho os olhos.


Quarto 3042

Estou deitado em uma cama e meu corpo dá sinais de uma debilidade imensa. Tento falar, mas não consigo. Minha voz não sai. Com horror sinto um tubo descendo pela minha garganta. Tento movimentar-me e então percebo que estou com sondas e drenos. Ao meu lado está um aparelho que emite linhas e sons esquisitos.


Meu cérebro debilitado leva muito tempo para entender que estou em um leito de hospital. Quero gritar por socorro, mas o tubo em minha garganta não deixa. Em desespero tento levantar um dos braços para chamar alguém. Um mal estar imenso invade o meu corpo e sinto que vou desfalecer.


Quarto 13528

Encontro-me em uma pequena sala. Sinto-me estranho. Olho para meu corpo e vejo que ele é imenso, gigantesco, como se eu fosse um homem de três ou quatro metros. Estou vestindo uma roupa esquisita, ela é dourada e tem pequenos símbolos que nunca vi na vida Eu não me reconheço em meu próprio corpo.


Olho pela janela e o que vejo me surpreende. Lá fora uma infinidade de estrelas impressiona os meus sentidos. Mais do que as estrelas o que me chama a atenção é o imenso planeta avermelhado logo abaixo.


Deus do céu, onde estou?


Tento desesperadamente organizar o pensamento. Algo aconteceu comigo e não sei dizer o que foi. Fecho os olhos, como se fazendo isso eu pudesse voltar para o meu mundo.


Quarto zero

Acordo em minha velha cama. Finalmente estou em casa. Olho ao redor e vejo todas as coisas tão familiares e corriqueiras que compõem o meu quarto. Definitivamente estou em casa. Uma felicidade ímpar invade todo o meu ser. Eu estou de volta!


Fico pensando no que ocorreu comigo. Cada porta abria para uma realidade diferente. Que realidades eram aquelas? Eram outros mundos? Eu poderia dizer que sonhei e que agora estou desperto, mas não me sinto satisfeito. Por algum motivo algo em meu intimo me diz que nenhuma resposta é suficientemente plausível e reconfortante para mim.


Desconfio que a partir de agora o medo sempre estará comigo. Medo de dormir e acordar em algum lugar desconhecido. A impressão que eu tenho é que não sei mais dizer o que é real ou irreal. E se eu estiver sonhando que acordei de um sonho? E se na verdade eu estiver morto e preso em um limbo eterno? E se eu nunca existi? Tantas perguntas...


Ainda perdido em pensamentos ligo para Cristiany combinando de almoçarmos juntos. Sinto urgência em vê-la. Não sei se amanhã ao acordar estarei em minha realidade, mas sei que ainda hoje tornarei a ver Cristiany.


Visto uma roupa confortável e bonita, passo uma colônia suave e saio. O sol é forte e a agitação rotineira da rua transmite-me uma sensação de movimento e encantamento.


Onde será que iremos almoçar?

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