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A espera





Se fosse só sentir saudade

Mas tem sempre algo mais

Seja como for

É uma dor que dói no peito

Pode rir agora

Que estou sozinho

Mas não venha me roubar


Angra Dos Reis

-Legião Urbana







Heathcliff, it's me, Cathy, I've come home

Heathcliff, sou eu, Cathy, voltei para casa

I'm so cold, let me in your window

Estou com tanto frio, deixe-me entrar pela janela

Heathcliff, it's me, Cathy, I've come home

Heathcliff, sou eu, Cathy, voltei para casa

I'm so cold, let me in your window

Estou com tanto frio, deixe-me entrar pela janela


Wuthering Heights

- Angra











Noite alta, casa vazia. Estou sem você, sozinha no meio das armadilhas da sala, armadilhas da minha mente. O telefone mudo sobre a mesa olha pra mim quase com pena. Nenhum som, nenhum sinal, ninguém do outro lado. Volte. Volte para mim. Volte para meus braços. Essa casa vazia cheia de relógios me diz que o tempo está correndo. Correndo essa eternidade sem você. Uma ausência que mora em cada casa, cada ponteiro. Uma ausência que me machuca, me arranha numa perpétua agonia torturante. Não há rastro de misericórdia em seus olhos amarelos. Meu corpo dói, mas desliguei meu coração esperando você voltar, esperando para o jantar. Será mais um sem você? Sem companhia, apenas acompanhada pelo vazio solitário da falta de você comigo meu querido. Por que o anjo da guerra o levou de mim? Por que? Guerra. Seria ela mais importante do eu? Mais necessária? Acho que nunca saberei. Nossa pequena sente muita saudade, chora pelas noites esperando o carinho de seu aconchego. Seu sofrimento é perene como o meu. Ela ainda está lá em cima, mas já não chora. Só há o silêncio. Silêncio bruto, absoluto e perpétuo. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Só silêncio. Silêncio no mundo inteiro. Acho que não ganhamos a guerra, não é querido? Talvez ninguém tenha ganhado. Silêncio enlouquecedor. Volte meu amado, prometo que viverá como um rei, viverá para sempre conosco. Viverá. Tempo. Tempo vazio, como um saco de areia furado numa tempestade feroz. Tempo tão longo quanto meu amor. Tempo tão enlouquecedor quanto meu desejo. Quanto tempo se passou? Talvez um dia, talvez mil vidas. A saudade é a mesma. Sempre. Não há mais bebidas na casa, todas as garrafas sem alma são minhas testemunhas nessa sala esquecida, nesse mundo ultrapassado. O último copo de destilado me encara meio vazio e meio cheio, quase implorando que eu o tome e acabe com seu sofrimento, com sua espera. Não. O telefone toca. Não sei o que fazer, já faz tanto tempo que nem sei o que dizer. Será você? Mais toques. Eu atendo. Ninguém fala. Do outro lado mundo também parece mudo. Mas tem algo.. Algo como uma interferência, uma voz sussurrando baixinho. Música. Música cortando o silêncio devagar. Non, Je Ne Regrette Rien. Edith Piaf cantarola, diz que não tem arrependimentos. A música me lembra da velha Europa. Me lembra de você indo para lá. A música acaba. Outro som começa. O som que tenho medo. Um som metálico estridente. O som que ouço toda vez que ela vem. A mulher de terno. Está já está na sala, sentada na poltrona na minha frente. O terno vermelho brilha como seu baton, bufante. Sempre de luvas apertadas e salto alto. Ela é bonita, tão bonita que me assusta. Olhos vivos como um tapete brilhante de estrelas virgens, maquiagem pesada ao redor dos olhos, escura como o eterno negrume da noite. Cabelos curtos como um soldado, cabelos laranja como chamas. Talvez seja o anjo da morte, ou talvez sua irmã mais nova, a guerra. Por alguma razão sempre tenho medo. Medo de ir. Medo de deixar de ser. Ir à algum lugar que não seja aqui me apavora. Aqui onde espero. Onde você vai voltar. Se eu for agora talvez você não me encontre quando regressar. Mesmo assim ela sempre me chama, sempre antes do amanhecer. Sempre. Ela nunca diz nada. Sempre silêncio. Apenas tira uma das luvas e estende a mão como um convite gentil. Mãos feias e marcadas, como se queimadas por sóis de vários mundos. Mãos de Matusalém. Tem dias que penso ir, outros tantos nem a olho nos olhos, em outros tento fingir que ela não está. Ela tem uma paciência admirável. Na maioria das vezes e fácil esperar que ela vá embora ao romper do amanhecer. Mesmo assim sempre tenho medo. Medo de ir de uma vez. Olhos de estrela. Ela olha pra mim com aqueles olhos. Através de mim. Dentro de mim. Lembranças. Toda vez que ela vem, algumas lembranças voltam, se organizam melhor, se assentam no fundo de minha mente furada. É assustador e confortável ao mesmo tempo. Como um prazer relaxante depois de uma dor lancinante. Minha cabeça coça. As vezes doi. Buracos. Morte. Vermes. Lembranças claras como o branco dos ossos limpos. A arma. O revólver antigo ainda está sobre meu colo. Esperando calado e obediente como um servo fiel e discreto. O último presente seu. Minha única e última defesa contra o mundo louco. A silenciosa testemunha de metal escuro e frio que viu minha queda bem de perto. Cinco balas de seis. Gatilho. Gosto de chumbo. Dor. Minha cabeça doi. As vezes coça. Não dói mais. Não dói. Nunca mais. A mulher de terno recolhe a mão. As Luvas voltam ao lugar. Ela se acomoda e ri, ri um riso quase que debochado, um riso de vitória, satisfação. A cabeça dói, o ódio transborda. Não se pode rir da dor alheia. Nunca. Empunho a arma. Disparo tudo o posso mirando o centro do terno vermelho. A sala se ilumina a cada disparo. Bum, bum, bum, bum.. Ainda cinco balas de seis. O sorriso se desfaz junto de sua dona. Ela desaparece numa nuvem cinza, mas sem perder a pose. Não comemoro pois sei que amanhã ela voltará. Mas isso é outro dia. Começa a amanhecer. Luz. O canto de pássaros mortos toca em minha mente furada. Hora de dormir. A luz fraca começa a vazar pelas frestas das portas e janelas deterioradas. O ambiente começa a se iluminar. A velha casa está deteriorada até o alicerce, ressecada e abandonada. Tenho de ir. Me levanto e vejo a mim mesmo jogada sobre a poltrona antiga. Meu esqueleto limpo olha permanentemente para o teto rachado da casa destruída. A arma solta, silenciosa sobre o colo. Um buraco no teto, um buraco no crânio. Paz. Lembranças claras como o branco dos ossos limpos. Hora de ir. Subo as escadas, a luz é mais forte aqui, pois boa parte do teto foi arrancada. Todo o andar tem uma capa espessa de neve. Uma neve escura, cinzenta e cheia de cinzas, mesmo assim ainda parece neve. O último e grande inverno. Ouço o som de nossa bebê. Dentro de seu quarto o pequeno berço ainda está de pé. O mobile incompleto coberto de fuligem ainda balança ao sabor do vento frio. Olho pra dentro do berço. Os pequenos bracinhos se agitam no ar ao me ver. Ela tem seus olhos. Olhos lindos. Sorriso. Sorriso lindo e bochechas rosadas. Ossos pequenos limpos e claros. Ossos cobertos pela neve. Ossos de bebê. Eu a coloco em meus braços. A protejo bem no meio de meu abraço. Penso que seria ótimo ter você aqui conosco meu amor. Uma família completa novamente. Penso todos os dias nisso. Vou com ela até a parede que já não mais existe por inteiro. Ela parece uma janela gigante. Lá fora nossos vizinhos preto e branco fitam com olhos mortos o nada através de suas salas e janelas destruídas. Parecem esperam por algo. Ou alguém. Bombas caindo como chuva. Quase tudo sumiu. O centro da cidade foi varrido. Mesmo assim não há mais crateras, a neve envenenada cobriu todas. Não há mais campos. Não há mais corpos. Não há mais vida. Não há mais nada. Só há o silêncio frio da ausência contínua. Frio. Mesmo assim não perco a fé. Talvez você volte. Talvez volte amanhã. Talvez.










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