A Linhagem do Demônio

 










  





Minas Gerais - 1980


Estava frio e ainda escuro. A madrugada parecia insistir em ficar para sempre naquele dia. Chovia. Apenas um carro avançava lento, com os faróis acesos em luz alta. Dentro dele, um casal observa mais uma vez a menina dormindo, toda enrolada em seu lençol favorito. Quando finalmente param, o homem olha para a esposa e pergunta:

    - Tem certeza?    - Sei o que estou fazendo - Fala a mãe da criança, pegando-a nos braços- Ela não lembrará de nada, querido.

   Em seguida, coloca a menina inconsciente sobre a relva molhada e parte com o marido no carro.

    Rio de Janeiro / Bahia - Fazenda Santa Bárbara - 1999

Tudo começou há algum tempo, numa quarta-feira do mês de maio. Eu trabalhava como sócia de uma pequena empresa de arquitetura, engenharia e restauração, no Rio de Janeiro.

   Perdera meus pais adotivos há pouco tempo em um terrível incêndio que consumira nosso único patrimônio - a casa onde morávamos.

   Fui adotada aos seis anos. Era uma menina frágil e com problemas mentais evidentes: não falava uma palavra, sofria de ausências, tinha visões, pesadelos, sumia por horas. Minha mãe largou seu emprego para dedicar-se exclusivamente a mim. Ser minha mãe era uma tarefa  difícil, e por isso eu sou muito grata por tudo o que fizeram por mim até o dia em que se foram, para sempre.

   Quando criança, por conta de meus problemas e da minha instabilidade geral, tive um frequente acompanhamento psiquiátrico, tomava remédios fortes e fazia tratamentos dolorosos, até que um dia, já na adolescência, os sintomas sumiram como se nunca tivessem existido.

   Apesar de ser uma pessoa bem estranha, era uma excelente aluna, e terminei o ensino médio com notas altas. Mais tarde, quando concluí a faculdade de arquitetura, ganhei uma bolsa para fazer um curso de pós-graduação na Itália, e foi assim que me especializei em restauração artística e histórica, em Milão.

   Aos vinte e cinco anos, de volta ao Brasil, havia montado uma empresa com uma colega. Foi quando o acidente com meus pais aconteceu, e eu fiquei sozinha no mundo mais uma vez.

  Certa tarde, um mês depois do funeral, recebi uma carta solicitando a recomposição de uma propriedade na Bahia. Seria uma proposta como tantas outras, não fosse a fama de lugar amaldiçoado que a fazenda possuía, o que me fez relutar bastante. Mas as coisas estavam bem difíceis para mim e eu precisava de dinheiro, com urgência.

  Contra os avisos da minha intuição, acabei aceitando o desafio e escalando uma equipe para viajar comigo: meu engenheiro, o Carlos Augusto, o meu mestre-de-obras, o Fernando, e uma estagiária de arquitetura que me ajudava com estes tipos de projetos, a Beth.

  Sabíamos pouca coisa sobre quem nos havia contratado. Tudo o que tínhamos dele era um logotipo com um "M" estilizado dentro de uma estrela de cinco pontas, gravado no envelope, e a assinatura de seu advogado: Dr. Álvaro Peixoto.

  Junto com a carta, seguia um pequeno histórico sobre a fazenda que íamos recuperar.

  Segundo os dados fornecidos pelo contratante, a Santa Bárbara não existia até que, no ano de 1870, o lugar foi adquirido junto à diocese da capital por uma família de imigrantes ricos, vindos da Itália.

  Os compradores eram os Castelli: Luca, sua esposa Pietra, e a filha, Giulia, de dez anos.

  No dia 20 de agosto daquele ano, os três desembarcaram no porto de Salvador. Ao chegarem foram transportados numa sege até uma estalagem onde morariam enquanto a casa da fazenda ficava pronta, o que ocorreu apenas dois anos depois.

Era uma mansão magnífica.

  Para ornamentar a opulenta propriedade, vieram, de navio, esculturas em mármore e os grandes portões de ferro que abriam-se para o amplo átrio da casa.

  Na semana da mudança dos proprietários foi chamado um pintor para fazer uma imagem da família Castelli.

  A exuberante mansão acompanhou o crescimento da pequena Giulia, e, depois, abriu as portas para a sociedade baiana em seu casamento com um comerciante mineiro, o Senhor João Felício, com quem teve a filha Isabel, em 1880.

  Segundo registros do cartório da cidade, Giulia teve apenas uma outra gravidez, em 1891, e desta, nasceram os gêmeos Leonardo e Cristiano, sendo que este último não sobreviveu ao parto, e foi enterrado no próprio jardim da sede, onde ainda se encontra fincada a pequena lápide, com seu nome e ano de nascimento.

  Anos depois, quando morreram em uma angustiante tragédia, os corpos de Giulia, João Felício e Leonardo, foram enterrados no cemitério municipal. O incêndio que os vitimou, dentro da fábrica de João Felício, ocorreu 7 anos após o nascimento dos dois filhos.

   Isabel não estava na fábrica quando a caldeira explodiu.

  Os registros sobre a herdeira dos Castelli acabaram por aí, depois voltaram a ter notícias dela aos 20 anos, quando já estava casada com um nobre europeu.

    E era tudo.

    Dias depois chegamos à Santa Bárbara.

  A cidade de Margaridas, onde ficava a fazenda, parecia já ter vivido dias melhores. Havia um certo ar de decadência com um luxo embolorado em tudo o que víamos. Na praça da cidade os canteiros estavam ressecados e o coreto estava com várias tábuas soltas, com pregos enferrujados, virados para fora. Os bancos estalavam ao sol do meio dia, solitários.

  A fazenda, mesmo que decrépita, ainda impressionava. A vegetação deixada a crescer sem controle subia pelas paredes, invadia o átrio da casa, e dava ao ambiente um ar de abandono e uma exuberância verde.

  Por dentro, a mansão estava em um estado de sujidade impressionante.

  Passamos mais de sete dias apenas limpando a casa da poeira que se estabelecera junto com a umidade de anos de clausura. A sujeira acumulada por todo o tempo que a casa ficara fechada formava uma massa repulsiva, espessa e cheia de doenças, e por este motivo usamos equipamento de proteção para controle de endemias e fomos à cidade para comprar um estoque de material de limpeza, e ao bar da Dona Carmem para contratar mão de obra. Lá conheci Marcela, sua filha, uma jovem de dezenove anos que nos ajudou a encontrar outras cinco pessoas que contratamos para a grande faxina e os dois jardineiros para revitalizarem a área externa.

  Após o quarto dia de limpeza e de retirada da vegetação que se insinuava pelo prédio, já dava para distinguir a cor verdadeira das paredes internas. A luz entrava pelas janelas escancaradas, trazendo claridade e uma brisa agradável. Partimos, então para a fase do mobiliário.

  Numa manhã, quase ao meio dia, Marcela e eu limpávamos o grande móvel de carvalho do quarto principal. Lá havia muitos documentos, e fomos tirando cada um com toda delicadeza para evitar que se desmanchassem sob o peso de nossos dedos. Foi quando a gaveta mais baixa do lado esquerdo do móvel emperrou.

  - Vem aqui, Marcela, me ajuda!

  A garota veio e se posicionou ao meu lado para puxar a gaveta.Tínhamos que fazer aquilo com calma, preservando ao máximo a madeira. Juntas fomos puxando, procurando conformar a gaveta ao trilho onde deveria deslizar, aos poucos, movendo lateralmente. Foi aí que ouvimos um ruído, um "clique" de mecanismo que se solta e cai um pequeno saco de cetim com fotografias dentro, perfeitamente preservadas.

  Os Castelli! Estavam todos ali, menos o bebê morto.

  Na primeira foto havia um casal de idosos, provavelmente Luca e Pietra. Os dois estavam sentados em cadeiras de espaldar alto, muito sérios e circundados pela filha e o genro.

  Em outra foto estava Giulia de pé e segurando um bebê careca. Ao lado dela, na fotografia, um homem sentado com uma menina em seu colo. Era uma menina grande, com os cabelos presos em duas tranças. Na fotografia, ela olhava para a mãe, que segurava seu irmãozinho. Os demais olhavam para a frente.

  Ainda havia outras fotos, da família, das crianças, da casa, do jardim, dos empregados, de Isabel sozinha, e por último uma foto de Isabel e seu marido, com uma criança no colo. Por trás desta foto, com uma letra bem desenhada, havia uma oração:

  "Oh, protetor, guardai esta criança! Que o devorador de inocentes não a veja".

  Perguntei à Marcela de quem se tratava aquele bebê, e ela falou que não sabia quase nada sobre os Castelli, e que nunca ouvira falar de outro Castelli além daqueles que eu mesma havia pesquisado.

  - Isabel sumiu com o marido, e deixou esta fazenda aí, só com os empregados - Falou Marcela, e encerrou o assunto me chamando para almoçar.

  A medida que os dias iam passando, e o trabalho progredia, íamos ficando cada vez mais cansados. As noites eram cheias de barulhos estranhos que julgávamos ser aqueles típicos de casas antigas. Meu sono era intranquilo e repleto de pesadelos incompreensíveis que muito me abatiam. Pensei em voltar para o Rio e procurar um médico, mas fui convencida por Marcela que tudo o que precisávamos era de uns dias numa praia lá perto.

  Continuamos com o processo de revitalização da propriedade sem maiores sobressaltos, e ao fim daquele mês todos estávamos satisfeitos com o dinheiro recebido, então resolvemos ir até um pequeno hotel na praia indicada, para relaxar e gastar.

  Chegamos ao local no final da tarde e levamos Marcela conosco. À noite, após nos instalarmos e tomarmos banho, fizemos uma pequena festinha regada a muita bebida. Carlos Augusto nos surpreendeu com o seu violão, e as meninas dançavam e riam bastante com Fernando e outros hóspedes que resolveram se juntar a nós.

  Fui dormir antes dos outros e quando acordei, ainda estava de madrugada. A quantidade de álcool que havia ingerido me provocou uma sede enorme e muita dor de cabeça. Eu tinha analgésico em minha bolsa, mas não havia água no frigobar, apenas um refrigerante, então resolvi tentar a sorte no bar da pousada. Rezando para que estivesse aberto.

  Por sorte algumas luzes haviam sido deixadas acesas, o que evitou que eu saísse tropeçando pelos corredores, mas, ainda assim, errei o caminho até o bar e me vi chegando à sacada escura do restaurante, que, infelizmente, estava fechado.

  Já ia voltando conformada para o quarto, quando avistei uma menina encostada na varanda, olhando o mar escuro lá embaixo, de costas para mim. Achei estranho uma criança estar ali, sozinha, e já ia perguntar pelos pais dela, quando ouvi as vozes de Beth e Fernando vindo até mim. O rapaz me viu e ficou um pouco constrangido. Falei que estava procurando água, e fiquei imaginando o que aqueles dois estavam fazendo ali, no meio da noite. Beth falou que no quarto dela havia uma garrafa, e que iria me entregar. Olhei novamente para a varanda, mas a criança havia sumido.

  No dia seguinte resolvi fazer uma caminhada para dispersar o resto do álcool que ainda circulava no meu sangue. A praia era muito bela, cheia de rochedos sobre os quais o mar explodia suas ondas, e uma faixa de areia fofa na sua parte superior. Acabei me distanciando bastante da pousada. Ao longo da faixa de areia avistei um  pequeno farol sobre uma plataforma de madeira, e logo depois dele, um casebre de teto baixo, bastante deteriorado. Quando estava há uns duzentos metros do local, vi que de dentro do casebre saíram duas pessoas. Uma criança muito pálida e ruiva, e a outra pessoa era Marcela.

  Apesar da distância que estava das duas, e de não ver o rosto da menina, percebi que era exatamente a mesma garotinha da noite anterior. Aqueles cabelos vermelhos e compridos, e aquela camisola branca não deixavam dúvidas quanto a isso. Achei estranho vê-la novamente sem os pais e vestida de camisola caminhando pela praia. Continuei observando, procurando não ser notada. As duas subiram na plataforma e ficaram lá, caladas observando o mar.

  Uma revoada de gaivotas passou grasnando sobre a praia e afastei a minha vista por um segundo. Tempo suficiente para que a menininha desaparecesse. Chamei por Marcela, que continuava por ali, ela olhou e acenou, mas não foi para onde eu estava. Deixei que ela fosse embora e resolvi entrar no casebre.

  Lá dentro havia um velho catre, umas cadeiras de madeira tosca bastante estragadas pela brisa marinha, uma mesa com um bule de chá, ainda quente, de porcelana azul, e um baú de couro negro, destrancado.

  Dentro do baú, velhos cadernos com o arame enferrujado faziam volume com roupas amareladas e uma espécie de livro, muito danificado. Resolvi guardar aquele livro na minha mochila e olhar mais tarde o que havia ali.

  Voltei para a pousada e perguntei à Marcela quem era a criança que estava com ela no farol. Ela sorriu como se a minha pergunta fosse o mais completo absurdo, e falou que sequer havia estado no farol naquela manhã. Falei que ela estava mentindo, e ela me olhou com uma expressão de perplexidade e saiu de perto de mim, dizendo em voz baixa que eu era louca.

  As palavras de Marcela me perturbaram bastante. A visão da praia teria sido fruto da minha imaginação? O fantasma da minha doença mental se insinuava em meus pensamentos, e me oprimia. Estava apavorada em pensar que talvez estivesse tendo alucinações de novo. Logo viriam as ausências, os sumiços... Eu iria ficar louca novamente. Aquela ideia me aterrorizava e eu resolvi esconder dos meus conhecidos aquilo que vira na praia.

  No dia seguinte resolvi dar uma volta pela vila dos pescadores. Era uma vila modesta com casinhas caiadas de branco e pessoas transitando por todos os lados, levando peixes em cestas e fechando grandes redes de pesca.

  De frente para a pracinha, um pequeno bar se destacava pelas paredes verde água, e uma charmosa decoração tropical. Lá dentro espalhavam-se os clientes bebendo aguardente em pequenos copos de vidro barato.

  Sentei perto do balcão e um homem grisalho sem camisa veio me atender.

  - Pois não?   - Gostaria de companhia para beber.

  O homem me avaliou por alguns segundos e puxou da parte inferior do balcão uma garrafa de vermute. Não era exatamente o que eu estava planejando, mas imaginei que estava bebendo um bom vinho, e o líquido quente desceu sem maiores problemas.

   -De férias? - Perguntou o homem puxando assunto.   -De certa forma... Tirando uma pequena folga do trabalho.   - Trabalho? Trabalha com o que?   - Restaurando a fazenda Santa Bárbara.

  O homem teve um pequeno sobressalto, mas tentou disfarçar. Encheu de novo os copos e mudou o foco da conversa.

  -Está gostando da praia?   -Sim. Ontem fui andando até o farol e vi um casebre abandonado lá. Sabe quem morou naquele lugar?   - Sei pouca coisa. Meus pais me contaram sobre um casal que ficou uns dias por ali. Dizem que a menina, filha deles, gostava de subir no farol e olhar para os barcos. Uma noite eles sumiram. Não vá mais para aquele lado, moça. Nunca mais, aquele lugar tem uma energia muito ruim, volte de onde veio e nem passe mais pela Santa Bárbara - Falou e depois olhou para o relógio.

  - Que pena, lembrei que hoje é dia de ajudar os pescadores com o ensacamento dos peixes - Disse isso e gritou por um rapazinho que estava ali perto para ficar no balcão no lugar dele, e saiu apressado, desaparecendo entre as casinhas.

  Fiquei aturdida com as palavras daquele homem. O que havia naquela fazenda a temer? Apenas uma casa velha, com seus barulhos estranhos, e histórias escondidas, nada mais.

  No dia seguinte voltamos à Santa Bárbara. Apesar dos dias que passamos sem trabalhar, a viagem àquela praia produziu um efeito oposto ao esperado por nós, estranhamente, estávamos todos calados e distantes. Eu estava, particularmente, chateada por não ter mais encontrado a mochila onde havia colocado o livro que encontrara no casebre. Procurei por toda parte até que chegou a hora da partida e eu desisti.

  Durante aquela semana apenas fazíamos o serviço e conversávamos o essencial para que o trabalho andasse, aliás, o sentimento geral era a vontade de ir embora. Não vi mais Marcela desde a última conversa que tivemos na pousada. Ela havia partido antes de nós, de carona com amigos. Também não apareceu mais na fazenda para trabalhar. Imaginei que estava aborrecida por eu tê-la chamado de mentirosa.

  Um dia o pai dela chegou ao pátio da Santa Bárbara me procurando, estava, evidentemente, bêbado, e muito irritado. Pediu o dinheiro do salário da filha e quando me recusei a entregar para ele, começou a gritar:

  - Queime no inferno, demônio! Você e sua raça desgraçada! - Disse isso, fez um sinal da cruz com o braço e então se foi.

  Ficamos todos atônitos com aquela cena. Realmente eu precisava pagar o saldo do salário para Marcela, mas ela não precisava ter mandado o pai para cobrar naquele estado. Assim que pudesse eu iria resolver este problema, mas só entregaria o dinheiro na mão dela.

  No sábado lembrei de ir à cidade para pagar Marcela. Era dia de reunião comunitária em Margaridas, e eu sabia que o pai dela não estaria em casa para qualquer eventual confronto, porque era membro do conselho. Dona Carmem despachava uma pessoa no balcão do bar, toda simpática. Quando me viu seu sorriso se desfez e ela foi logo adiantando o assunto:

  - Se quer falar com a Marcela, está ali no quintal, tratando umas galinhas. Seja rápida.

  Nem respondi e fui seguindo pelo corredor que ela me indicou. Como não conhecia a casa, acabei errando o caminho e entrei no quarto da garota. Qual não foi a minha surpresa quando olho para a cama mal arrumada e a primeira coisa que vejo entre as dobras do lençol embolado é a minha mochila com o livro dentro! Fiquei muito aborrecida e saí procurando Marcela, com a mochila no braço.

  Como sua mãe havia dito, ela estava mesmo no quintal. Ao lado da moça havia um cesto cheio de galinhas mortas, ainda não depenadas. Marcela estava sentada de cócoras e segurava um animal pequeno e branco. Ela estava debruçada sobre o pobre animal, descendo a peixeira sobre o seu pescoço. Quando cheguei perto, ela se virou para me olhar. A cena que vi me encheu de pavor. Seus olhos pareciam com os de um predador esfomiado, sua boca estava toda suja de sangue, que também escorria pelo pescoço e pelo colo. Na sua mão esquerda não havia uma galinha, mas um gatinho filhote que ainda agonizava. Desmaiei.

  Acordei naquela mesma cama bagunçada onde encontrara a mochila. Mas ela não estava mais comigo. Ao meu lado Marcela sorria e me oferecia um copo de água gelada. Não havia mais um traço da criatura que eu havia visto estraçalhando um gatinho. Eu estava confusa, pensei em várias perguntas mas não fiz nenhuma, tudo o que eu queria era sair dali. Dei o dinheiro e fui embora.

  Ao chegar à fazenda uma tragédia me aguardava. Durante a limpeza das plantas aquáticas que sufocavam o lago, o pequeno bote que levava Fernando e Beth havia virado. Como estavam perto da margem, os dois começaram a nadar para a terra, mas aconteceu um fato estranho e só Fernando havia conseguido sair.

  - Dona Giovanna - Falou um dos jardineiros, olhando para mim - A Dona Beth tava vindo. Tava até achando graça. Aí uma coisa puxou ela para baixo.   - Como assim uma coisa? - Perguntei apavorada - Não tem nem peixe naquele lago horrível. Não tem oxigênio!   - A gente não viu não senhora ... Mas uma coisa puxou Dona Beth, sim. E ela se sumiu aí por baixo.   - Já ligaram para a polícia? Para a ambulância? Alguém tentou salvar a Beth?   - Seu Fernando voltou lá. Nadou um bocado. Mergulhou e tudo. Mas nada da moça - Respondeu o jardineiro, envergonhado.

  Poucos minutos depois a polícia estava ali e foi colher depoimentos. No dia seguinte chegaram mergulhadores. Foram horas de buscas, e nada de Beth.

  O corpo de Beth não foi encontrado, o que era muito estranho porque ela sumira em um lago profundo, mas não muito extenso. As buscas duraram muitos dias até que acabaram desistindo de encontrar o cadáver.

  Achei que era o momento de voltar ao Rio, principalmente porque haveria o enterro simbólico de Elisabeth e precisávamos estar presentes. Também iria aproveitar para ver como estavam as coisas no escritório. Ficamos duas semanas longe da fazenda, mesmo com a perda de uma amiga querida, fazia tempo que não me sentia tão bem. O funeral de Beth foi triste e rápido. Seus pais moravam no Sul do país e estavam bastante chocados. O pai dela pediu que eu o mantivesse informado sobre as investigações.

  Depois do enterro eu, Carlos Augusto, e Fernando fomos almoçar. Não me espantei quando os dois me comunicaram que não iriam mais retornar à Bahia. Eu já imaginava que isso aconteceria e não os obriguei a cumprir o resto do contrato. A verdade é que eu também estava farta, mas não tinha escolha. Faria o resto do trabalho sozinha.

  Agora eu estava por conta própria. Não gostava de viajar à noite de carro. Mas não tinha outra alternativa porque o trabalho me aguardava naquele lugar horrível. Então aluguei um utilitário confortável e segui em frente.

  A estrada que ligava Salvador a Porto Seguro era sempre muito movimentada, mas a vicinal que levava à Margaridas era feia, estreita e sombria. O mato dominava a paisagem na maior parte da estrada, e a ausência de estímulos visuais entediava os motoristas com o risco de fazê-los dormir, por isso a maioria evitava dirigir por lá à noite. Coloquei uma música para tocar e procurava a todo custo me manter alerta, foi quando vi uma coisa na beira do caminho. Inicialmente pensei que se tratasse de um bicho, mas vi, quando cheguei mais próximo, que era uma pessoa ajoelhada mexendo em alguma coisa perto da vegetação.

  Quando estava há uns dez metros dela, a mulher se virou para mim. Meu Deus!! Era Beth!! O fantasma dela me encarava com os olhos arrancados e sorrindo!!! Devido ao susto perdi o controle do veículo e acabei derrapando e colidindo com uma mangueira que havia ali.

  Quando acordei estava na Santa Bárbara novamente. Quis falar, mas Marcela, que havia voltado, colocou o dedo sobre meus lábios e disse que eu me acalmasse.

  - Giovanna, você sofreu um acidente mas está bem. Foi encontrada por um sitiante que ligou para a delegacia, e você foi resgatada. Por sorte uma enfermeira conhecia a senhora e nos avisou. Você ficou uns dias inconsciente, mas o Dr. Henrique falou que ia acordar a qualquer momento então a trouxemos para cá. Onde ficaria bem mais confortável.

  Não contei a ninguém sobre a aparição do fantasma de Beth. Imaginei que iriam me achar maluca, porque eu já estava convencida qua a minha insanidade havia retornado com toda força.

  A movimentação pela casa estava maior, pessoas que eu não conhecia circulavam pelos corredores, conversando e fazendo barulho, perguntei o que estava acontecendo, mas as pessoas não me davam informações precisas.

  Marcela havia sumido novamente, passou uns dias sem dar as caras pela Santa Bárbara e voltou como se nada tivesse acontecido. Quando a abordei ela respondeu com rispidez - Já pensou em se tratar, Dona Giovanna? Estive aqui todos os dias e conversamos bastante.

  Aquela situação abatia minha alma. Os pesadelos voltaram a me apavorar com toda sua força e nitidez. Eram sonhos terríveis com crianças e mulheres. Num deles estava Dona Carmem colocando uma criança muito pequena sobre o balcão de seu bar, e esfaqueando sua barriga com violência. Noutras algumas pessoas devoravam bracinhos pequeninos, fazendo um barulho de dentes quebrando ossos. O sono me aterrorizava e passei a dormir cada vez menos.

  A fraqueza e a confusão mental me deixavam sem a menor disposição para o trabalho, então, quando eu não estava na cama, ficava perambulando pela casa, procurando coisas para me distrair. Foi num destes dias, perto das quatro da tarde, esperando a hora do chá na sala principal que eu vi uma coisa que ia fazer o meu sangue gelar.

  O dia estava abafado e a sala estava mais escura que o usual, então olhei para a grande janela de vitrais coloridos e resolvi abrir uma das suas folhas, mas só até o ponto em que a placa de vidro estivesse a um ângulo de 45 graus em relação à parede, para que meus olhos, habituados à penumbra daquela casa sombria, não fossem atingidos pela luminosidade do lado de fora de maneira brusca. A medida que a luz que entrava pela abertura e ia se projetando na tela com o retrato dos Castelli, eu via o rosto daquelas pessoas se deformando, e se transformando em rostos animalescos. Eram rostos de demônios horrendos que sorriam sarcasticamente com seus dentes de cão, olhando para mim. Gritei apavorada!

  A cozinheira apareceu, surpresa, perguntando o que eu estava sentindo. Olhei novamente para o quadro mas ele parecia estar exatamente igual ao que sempre fora.

  Eu estava louca! Sabia que estava louca novamente e devia sair dali o quanto antes.

  Avisei que ia embora e cheguei a ligar para o táxi que trabalhava na cidade marcando a hora. Fui para o meu quarto fazer as minhas malas.

  Duas horas haviam passado e nenhum sinal do taxista chegar. Quando resolvi ligar de novo percebi que o fio do telefone havia sido cortado. Procurei pelo meu aparelho celular e não estava na bolsa.

  Chamei, gritei, falei palavrões e ninguém me atendeu. Sequer olharam para mim. Não entendia nada do que estava acontecendo ali.

  Passei o resto do dia sozinha, e nem mesmo fui jantar com os outros, preferi beber um chá e comer biscoitos antes de dormir. Mas não conseguia pegar no sono. Fui até a biblioteca da mansão, onde havia livros muito velhos e estranhos. Enquanto procurava escolher um deles para ler, avistei, o livro que havia visto na praia. Peguei uma cadeira e subi em seu assento de modo a poder alcançar o volume.

  Levei o livro para perto da luz fraquinha de uma luminária que havia na mesa e o abri. Para a minha surpresa aquilo era um velho álbum com fotografias dos Castelli. Fui folheando as páginas. As fotos coladas possuíam legendas contendo o nome de cada um que estavam preenchidas com as fotos dos Castelli, e com seus nomes, datas de nascimento, e data da fotografia indicados embaixo de cada foto. Lá estavam Pietra e seu marido, Luca, em várias fotos nas primeiras três páginas. Depois Giulia, João Felício, Leonardo, e Isabel, nas cinco páginas seguintes. Na última página, estava a foto de Isabel vestida de noiva ao lado seu marido, e também a foto da filha do casal com o nome dela e o ano de nascimento, bem como o ano em que a foto havia sido tirada: Marianna - 1902/1908.

  Senti uma forte tontura ao ver aquele retrato.

  Não acreditei no que estava vendo. Não era possível! Era o rosto de Marianna, a filha de Isabel, mas também era a mesma menina que vira na pousada e depois na praia, sempre de costas para mim. Agora eu podia ver o seu rosto, um rosto igual ao meu!!

  Como podia? Como era possível meu rosto ser igual ao de uma pessoa que havia nascido setenta e dois anos antes do meu nascimento?

  A porta da biblioteca se abriu e Marcela entrou trazendo uma lanterna. Ao ver o álbum aberto ela deu uma gargalhada cheia de deboche.

  - Finalmente descobriu a verdade, filha do demônio? - Perguntou cheia de raiva - Você também é uma Castelli desgraçada, sabia? Deixei este álbum aí para você encontrar, mas só na hora certa, a hora da nossa vingança - E avançou para onde eu estava.   - Marcela? Que conversa é essa? - Perguntei, procurando alguma coisa pontiaguda com a qual pudesse me defender.   - Você ainda não lembrou, não é? Você realmente ainda não sabe quem eu sou... Eu sou uma das pessoas que colocou fogo na fábrica do seu avô e matou toda a sua família, menos a infeliz da Isabel!   - Por que? Por que fizeram isso? E como você pode ter queimado a fábrica dos Castelli? Você nem mesmo era nascida! Você está louca, saia daqui! Vá embora!   - Olhe isso - falou mostrando um rolo contendo um documento bastante antigo - Veja com seus próprios olhos, cadela imunda!

  Ali estava um documento da igreja católica, todo escrito em italiano, que, felizmente, eu conseguia ler. Era um documento banindo a família Castelli do país, para sempre, em face da condenação por magia negra e sacrifícios humanos.   - Só não foram condenados à morte porque eram ricos demais e deixaram todos os seus bens para o bispo que conduziu o processo. Quando chegaram aqui, em Margaridas, descobrimos suas práticas criminosas e demoníacas mas eles nos prometeram riquezas e vida eterna, se nos tornássemos adoradores de Moloch, como eles eram.   - Meu Deus! - Exclamei sem querer acreditar naquela história infernal da qual eu fazia parte.   - Não coloque Deus nesta conversa! Deus nos abandonou. Fomos todos amaldiçoados e você também. Durante um bom tempo as coisas deram certo entre nós e os Castelli, vivíamos bem, a colheita era farta, os animais se reproduziam, o dinheiro nunca faltava, mas para que isso acontecesse havia um preço. E o preço era cobrado a cada sete anos.

  - Como assim?   - A cada sete anos, um dos filhos de cada família teria que ser sacrificado em honra à Moloch. Até na família dos poderosos Castelli houve um sacrifício. Quando os gêmeos nasceram, o menorzinho foi levado ao grande mestre. Os filhos das nossas famílias também tinham o mesmo destino. O problema foi que seis anos depois eles não queriam entregar mais nenhum filho. Disseram que iriam abandonar as práticas satânicas e que quando chegasse ao sétimo ano, nós poderíamos continuar com a adoração sem a participação deles. No sétimo ano, como previsto, entregamos nossas crianças no altar, mas Moloch não aceitou a nossa oferta. Ele exigia o sangue de Leonardo Castelli e a cidade pagou pelo egoísmo de Giulia. Nossas roças ficaram todas perdidas, o milho secou antes da colheita, os animais morriam de uma doença estranha, as crianças que restaram adoeceram e morreram em poucos dias, com os seus pequenos ventres inchados e os lábios roxos, envenenados pela água da cidade. Nos reunimos em um grande grupo disposto a qualquer coisa para aplacar a fúria do demônio, fomos até a fábrica do Sr. João Felício e exigimos que Giulia nos entregasse o filho. Eles estavam cercados, não tinham para onde ir, e mesmo assim, ela falou que iam morrer todos juntos, mas não entregaria o seu filho, falou que era uma Castelli e que mesmo que a matassem daria um jeito de se vingar. Não demos importância às suas palavras e colocamos fogo na fábrica com eles dentro. Quando viu que ia mesmo morrer queimada, Dona Giulia lançou uma maldição contra nós. Disse que nenhum dos seus assassinos ia morrer ou envelhecer até que a família dela fosse vingada, só quem poderia romper esta maldição era um Castelli. A medida que os meses e anos passavam, víamos que não estávamos envelhecendo, ou adoecendo. Não havia morte, mas também não havia vida. As plantas não produziam mais frutos, as mulheres não mais engravidavam, os animais só morriam se estraçalhássemos suas carnes e as jogássemos no fogo. Era terrível. Isabel, com desgosto da morte de sua família foi morar na Itália, e lá conheceu um rapaz de uma família nobre e decadente. Casaram-se e voltaram para o Brasil, para a Santa Bárbara. Como ela não fora atingida pela maldição, conseguiu engravidar e parir uma menina Castelli, Marianna.

  - E o que aconteceu com Isabel? - Perguntei me sentindo sufocada pelas palavras de Marcela.   - Isabel jurou perante todos que quando a sua única filha, Marianna completasse sete anos, iria sacrificá-la ao espírito vagante de Moloch para aplacar a sua fúria e retomar o pacto de prosperidade. Mas quando a menina estava com seis anos, eles fugiram. Foram até a praia, perto do farol e se esconderam num casebre velho que existia lá, e um pescador a ajudou a ir embora da Bahia. Diante da traição de Isabel, suplicamos ao demônio que jogasse a nossa maldição sobre os Castelli e ele nos atendeu por quase um século, mas, por algum estranho motivo, você conseguiu romper a maldição e deixou de ser uma criança. Demoramos, mas descobrimos o seu paradeiro. Precisávamos trazer você aqui. Matamos os seus pais num incêndio e mandamos a carta para a sua empresa. Você podia ter recusado a oferta, mas a ambição falou mais alto, não é? Um Castelli é capaz de fazer qualquer coisa por dinheiro.

  Meu coração batia com força e lágrimas abundantes me turvavam a visão ao me lembrar dos meus pobres pais adotivos assassinados de uma forma tão cruel por minha culpa. E também havia a pobre moça, Elisabeth.

  - E Beth? Por que mataram Beth ? Ela não é uma Castelli.   - Queríamos você sozinha na fazenda. Mataríamos cada um de seus amigos se eles não tivessem desistido do trabalho. Realmente, nem me importo com eles - Riu cinicamente.

  - E agora? O que prentendem comigo?   -Agora que te encontramos queremos a nossa vingança. Queremos que coloque fogo neste templo do demônio e morra dentro dele acabando com a linhagem dos Castelli.

   Eu ia ouvindo aquelas revelações e não podia acreditar. Não era possível! Eu estava completamente fora de mim. Aqueles anormais haviam matado a minha família duas vezes.

   Estávamos na penumbra e ela não viu quando eu peguei um estilete sobre a mesa de estudo, e o escondi na minha mão.

  - Nem tente fugir, as pessoas da cidade estão lá fora esperando que eu leve você. Nós te queimaremos junto com esta casa dos infernos, e exterminaremos a raça dos Castelli do mundo.

  Afastei, levemente, a cortina da janela. Lá fora, silenciosos e com tochas na mão, eles me esperavam. Eu tinha que acabar aquela maldição. E nem que precisasse morrer, eu me vingaria.

Abri a janela e gritei.

  -Venham até aqui! Vamos conversar.

Eles me olharam com desconfiança, mas acabaram entrando na sala da mansão. Marcela sorria se sentindo vitoriosa.

  - O que quer de nós? - Perguntou o pai de Marcela, tomando a frente do grupo.   - Vim acabar com esta maldição. Giulia Castelli falou que a maldição duraria até que a família Castelli fosse vingada. Eu sou Marianna Castelli, e agora me vingo de todos vocês - Falei isso e cravei o estilete no peito de Marcela.

  Ela olhou para mim aturdida e caiu no chão agonizante.

- Com o fim desta desgraçada - Falei - Declaro que agora a maldição lançada pela minha avó está desfeita.

  Eles me fitaram furiosos com o que eu havia feito à Marcela e caminharam em minha direção para me matar. Não tiveram tempo. Com o fim da maldição, os anos voltaram a contar para eles, em segundos envelheceram tudo de uma vez e se transformaram em um pó negro com cheiro de enxofre. O cheiro do inferno.

  Estava exausta. Pensei em todo trabalho que ia ter para tirar aquele pó imundo da sala da minha nova casa, e em como seria difícil explicar o sumiço de toda aquela gente. Mas, francamente, sabia que daria um jeito, afinal eu era uma Castelli, a última Castelli do mundo, e a única herdeira de toda aquela fortuna. Coloquei um bom jazz no velho gramofone e pensei em como seria maravilhoso dar festas ali.

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