A moça do curso de Letras

O ônibus não estava lotado. Pessoas de todos os tipos e estilos entram e saem. Diariamente ela fazia aquele itinerário.


Vinte e cinco anos distribuídos em um metro e setenta de altura, corpo bonito e um rosto agradável. Sua vida era um cotidiano que ia da universidade onde cursava Letras, passava pela academia e terminava na sua grande paixão, um vira-latas chamado Paco.


Alguns passageiros perceberam quando o sujeito com uma barba por fazer e usando uma camisa polo de cor amarela posicionou-se atrás da moça.


Muitos já tinham visto esse tipo de situação, mas em uma atitude um tanto quanto corriqueira e alienada, ignoravam de imediato, como se agindo assim a coisa deixasse de existir.


Era nítido que a intenção do homem de camisa amarela era ficar se esfregando nas nádegas da moça que cursava Letras.


Mais de uma vez ela discretamente mudou de posição, ele, no entanto tornava a se posicionar atrás da moça.


Pode-se dizer que ninguém naquele ônibus estava preparado para o que estava por acontecer.


- Quando você gozar me avisa porque daqui a pouco é a minha parada! – O tom de voz elevado misturava-se a uma sonoridade aveludada, irônica e segura.


Muitos passageiros se viraram para ver quem estava falando aquilo.


Olhando de maneira ameaçadora o homem da camisa amarela falou:


- Você deve estar doida. Não estou fazendo nada. Andou cheirando alguma coisa, minha filha?


- O ônibus não está cheio. O senhor deve estar acostumado a fazer esse tipo de safadeza, não é? E a propósito não sou sua filha ...


Um senhor que estava também em pé no ônibus resolveu intervir. – Calma, moça foi só um mal-entendido e ...


- Mal-entendido? Fique na sua que é melhor para o senhor. Aliás, meu amigo, não estou pedindo a sua ajuda.


- Vai fazer o quê, minha filha, me denunciar na delegacia da mulher? Postar uma nota na internet? – Falando isso o homem da camisa amarela deixou escapar um risinho.


- Não, hoje o senhor não será denunciado ... e também não vai mais me chamar de “minha filha”. Nós dois vamos descer agora e decidir essa merda lá fora. – O tom de voz continuava estranhamente calmo.


- Esse homem é um tarado. Motorista, para na primeira delegacia pra prender esse sem-vergonha, pilantra. – Uma senhora de cabelos pintados com uma coloração estranha falava olhando para o homem de camisa amarela.


O burburinho inicial dentro do ônibus deu lugar a um estranho silêncio quando a moça do curso de Letras seguiu falando.


- Vamos lá, seu covarde! Vai descer comigo agora para eu quebrar a sua cara ou vai querer apanhar aqui mesmo?


Era nítido o desconforto do homem que não esperava esse tipo de reação. Suas vítimas normalmente nada falavam ou, quando muito, faziam um escândalo que não dava em coisa alguma. Hoje estava sendo diferente. Aquela mulher estava desafiando ele. Um leve receio lhe assaltava. O ar de segurança dela e a sua voz macia estavam minando a sua segurança.


- Hoje você vai aprender a respeitar as mulheres! – Falou isso e deu-lhe uma cusparada bem no meio do rosto.


O ar de surpresa que o homem da camisa amarela fez ao receber a cusparada foi saudada com um sonoro “bem na cara do safado” proferido pela senhora dos cabelos pintados.


A reação do homem foi rápida, partiu para cima da moça que cursava Letras, agarrou-a pelos cabelos, puxando sua cabeça para trás e empurrando-a. Em seguida armou os punhos para lhe desferir um soco.


Tudo durou só alguns segundos. Todos viram quando um dos punhos da moça acertou em cheio o pomo-de-adão do sujeito. Um grunhido estranho saiu de sua boca logo silenciado quando seu nariz foi esmagado por uma cotovelada desferida com precisão cirúrgica.


Um silêncio se fez presente quando o homem da camisa amarela, agora manchada de sangue, desabou bem no meio do corredor do ônibus.


Todos ficaram olhando com espanto a moça do curso de Letras puxar tranquilamente a campainha e saltar.


Ao chegar em sua casa foi saudada com festa por um cachorro vira-latas e ainda tinha um texto sobre Sociolinguística para o dia seguinte. 



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