A prostituta da esquina




Mas, minha linda, hoje não será

Ainda o dia em que seremos felizes


O Dia Em Que Seremos Felizes

- Ludov











A prostituta da esquina urina agachada sob a cobertura da marquise mofada. Acima dela a chuva impassível castiga o velho centro com a densa liquidez da tempestade. Ao longe, entre a vastidão dos prédios centenários e ruas apinhadas de lixo passam ônibus lotados de carne humana prensada, cheiro de suor e janelas embaçadas.

É madrugada densa, e o antigo centro decaído ferve de prazeres embebidos de luxúria e fetiche carnal em cada quarto, cada zona, cada beco. A imundice sem filtro escorre livre por todos os cantos, tal como uma sombra onipresente, insaciável, indecente e incansável. Sem predadores naturais a senhora noite é rainha absoluta enquanto o novo dia não vem trabalhar.

Protegida do aguaceiro a jovem e bela prostituta limpa as lágrimas do rosto cheio de maquiagem e engole a porção de tristeza que lhe convém no mundo, tira um cigarro amassado da bolsa de marca falsa e acende no frio da noite. Fim de plantão. A carne está moída, o sexo dolorido e a alma quase morta.

Ao longe, curiosos olhos estranhos correm até ela. O hálito quente das bocas sujas embaçam ainda mais as janelas. Ela finge não perceber. A calcinha rosada e úmida está quase no chão, próxima dos tornozelos tatuados. O cheiro forte da soma do intenso dia de serviço se mistura a urina e a fumaça venenosa do cigarro vagabundo borrado de batom barato.

Um semáforo fecha. Alguns homens num ônibus parado parecem cantá-la. O barulho alto e constante da chuva e as janelas fechadas impedem que algo minimamente tangível se escute naquela distância. Ainda de cócoras ela abre as longas pernas e arreganha o sexo nu na direção do coletivo. Os homens-animais vão à loucura. Então ela se levanta sem a menor presa, sobe a peça de renda e exibe com desdém agressivo o dedo do meio. O sinal abre e ônibus continua sua rota rotineira cortando o dilúvio da madrugada.

Hora de ir. O caminho pra casa parece dobrar por causa da chuva. O cansaço brutal gruda no corpo abatido como chiclete velho em sapato novo. Está mais do que na hora do descanso merecido. Ela enfim chega a seu castelo. A pequena e simples kitinete de paredes manchadas a recebe de braços abertos. Sem perguntas, nem julgamentos, apenas a simplicidade de sua querida pocilga entranhada no núcleo do baixo subúrbio.

Ela entra silenciosa no minúsculo apartamento, despe-se com certa agilidade de seus panos molhados e vai direto ao banheiro. As curvas nuas bem delineadas dividem espaço com marcas e cicatrizes feitas pela vida dura na rua. Sob a pele das costas um par de asas está tatuada na alma.

No espelho ela limpa a maquiagem borrada e tira a longa peruca loira, exibindo os cabelos curtos e negros. Sobre a pia amarelada ficam as longas unhas postiças e as pulseiras coloridas que cobrem e disfarçam as cicatrizes do desespero de sete anos atrás. Pouco abaixo de cada um dos grandes cortes dos pulsos está tatuada a frase:

“Até aqui tudo bem…”

O banho demorado tenta livrá-la da profusão suja de fluidos impregnados na epiderme rosada e da vergonha imbuída na massa cinzenta. A limpeza porém é apenas parcialmente eficaz, mesmo assim ela faz o máximo que pode.

Depois do banho ela procura a berrante bolsa vermelha sobre a cama de lençóis bagunçados. No fundo gasto da confusão de itens confinados está um pequeno maço de dinheiro junto de uma navalha com uma lâmina afiadíssima, nova em folha.

Com cuidado ela desamassa, conta, organiza e coloca a soma das notas dentro de um envelope amarelo pardacento, o guardando com carinho numa pequena caixa de madeira escura sobre seu velho e surrado guarda roupa.

Dentro da caixa outros envelopes lacrados dividem espaço com uma dezena de fotos de uma linda garotinha de roupas grossas e sorriso largo, que parece se divertir em uma linda planície coberta da pura neve européia. Aquele era o motivo do grande desespero de sete anos atrás. Numa das fotos um nome e uma frase:

“Sofia – Filha amada.”

A prostituta pega gentilmente a foto e vai devagar até a minúscula e enferrujada varanda, acende um cigarro ruim e beija o papel fotográfico sem gosto, quase como se fosse uma criança de pele quente e macia. Seus olhos cansados se permitem chorar, agora não mais de dor, vergonha ou de falso prazer doloroso, mais de tímida esperança. Atrás da foto está escrito um fragmento de um velho poema já com tinta desgastada pelo tempo:

Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

A mulher sorri. Saboreia paciente o resto do cigarro e aproveita a melancólica visão da chuva que não para. Depois da última tragada volta pra cama e dorme segurando a preciosa foto sobre o peito. Ela sonha. Sonha como as milhares de almas que habitam a triste imundice daquela parte esquecida da cidade. Quem sabe um dia ela realize seu sonho, seu único sonho. Quem sabe todos realizem. A prostituta porém tem uma única certeza, vai tentar mais um dia.











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