A SINFONIA DA MORTE





Eu sou a morte. Não sou um anjo, não sou um Deus. Apenas uma condição, um estado, a ausência de vida. Sou a tempestade, percorrendo os campos de batalha, furiosa e apressada, buscando vítimas.

Os que sentem minha presença são acometidos, primeiramente pelo cheiro repulsivo. Depois ouvem o som da minha aproximação. É como uma sinfonia deprimente e atordoante. Alguns eu torturo e faço-os implorar para que os abrace logo.

A eternidade é entediante. Divertir-me com estes mortais é o que faz ser a morte valer a pena. Vejam-me como um ser primordial, sem forma, presente desde antes do início da criação. Saído do caldeirão fervilhante que irrompeu do caos.

Então, seu eu quiser ser um anjo ou um deus, me materializar como uma pedra, um cavalo ou ter a aparência de um homem, uma mulher, eu posso. Confesso que gosto da proeminência que me deram durante a idade média. Um manto negro com capuz e uma foice parece horripilante aos homens. Tomaram-me como um esqueleto, que bem é seu estado final, em condição igual à qualquer animal.

A criatividade humana me surpreende e me faz rir ao mesmo tempo. Eles são grandes, mas também sabem se fazer pequenos, perdendo tempo com trivialidades e intolerância. Mas em mim não cabem moralismos, ética, todos os conceitos ditos civilizados. Eu não sou frio, nem quente, seco ou molhado, nem bom, nem mau.

Guardo bem fechado o livro do maior segredo de todos: -O que acontece com aqueles que eu beijo, sugando as almas e impondo o último sono.

Não tenho a pretensão de estrear na literatura revelando tal mistério. Isso se manterá, pois há uma promessa que deve ser cumprida ainda. Depois da qual serei derrotado e exilado, o que me causa algum alívio. Enfim descansarei. É uma profissão ingrata e nem um pouco valorizada, salvo em algumas culturas ancestrais.

Digo que estreio como escritor e o porquê o faço. Sou iniciante na escrita, mas não na literatura e tenho visto ao longo dos séculos muitos bons escritores que souberam me representar de maneira apropriada. Estive ao lado de Giovane Boccaccio e de Dante Alighieri e soprava sempre em seus ouvidos uma coisinha ou outra, o que me deixava feliz e envaidecido.

Mas os tempos mudaram e os gênios em todas as áreas das artes ou das ciências escassearam. O mundo já viveu o melhor da sua época e agora anda tudo muito chato. Por isso quero deixar meu legado na história, assinando minha obra com um pseudônimo, que manterei oculto até o final.

Acho que a maioria das pessoas identifica os cemitérios comigo. Claro, onde há mortos deve haver morte, pensam. Errado, o que está morto está morto, meu trabalho acabou ao ceifar a vida. Nada tenho a ver com suas carcaças ou com suas moradias eternas. Porém, se devo ir além na incumbência de uma biografia, -como isso soou estranho, biografia da morte, ah-há, -alguns fatos devem ser apresentados, consequentemente revelados.

Sou vaidoso e tenho minhas manias, algumas fraquezas inerentes a qualquer mortal. Uma das coisas que fui levado a fazer por vaidade foi um cemitério. Ergui as lápides com partes das ruínas do primeiro templo de Salomão, assim como os túmulos e jazigos. Ah, o Rei de Israel sempre me fascinou, de um jeito que poucos homens conseguiram. Seu discurso era prático e seu humor certeiro e inebriante, como o vinho, que ele tanto apreciava. Roubei algumas pedras, outrora colossais, daquele templo, por estima, também por vaidade, confesso, sou réu reincidente nesta.

O local escolhido foi a terra morta, onde Lúcifer foi lançado do céu depois de perder a batalha. Ironicamente aquelas terras, depois de se tornarem inférteis pelo cataclismo celestial, ganharam propriedades mágicas que devolviam a vida dos mortos e eu soube disso porque estava lá pra ver. A primeira coisa a tocar o solo foi a lança de Lúcifer, que fez uma fissura profunda, abalando desde as montanhas até o centro da terra, causando terremotos e grandes deslizamentos de rochas. O anjo caído e sua legião foram engolidos pelo fogo lá embaixo e tudo foi coberto como se a providência tivesse agido para ocultar o que aconteceu ali.

Desta forma meu cemitério particular funciona como uma Academia grega e eu como um Aristóteles, me cerco, não dos mais sábios, mas sim daqueles que mais vezes me evocaram, brandindo e fincando suas espadas em barrigas, disparando revólveres carregados de uma vez só. Ou seja, todos os que me fazem necessário no mundo.

Eles sentam nas suas tumbas e contam histórias. Se saírem do local caem como os mortos que são. Mesmo assim alguns já tentaram, uma pena. Esses, uma vez renascidos não podiam mais voltar e pereciam para sempre.

Se já não se perguntou, em algum momento perguntará, respondo já. Não, eu não preciso de um cemitério próprio para falar com os mortos. Eu os possuo até certo ponto. Alguns caminham longo tempo comigo, outros pouco. A palestra pode se alongar conforme a vida do infeliz tiver sido interessante. Então eu digo que não foi outra a razão que não o orgulho, de novo. Sempre quis ter uma plateia, admiradores e poder ser ouvido, ouvir. Foram tantas histórias e causos. O mais próximo da impressão distante de simpatia que tive pelos seres humanos, pena que estavam mortos.

Fernando Aluísio Gabeira, esta peste que já perambulou pelo mundo, foi alguém de quem me envergonho. Ouçam dele mesmo e vejam se não tenho razão:

“Eu, Fernando Aluísio Gabeira, acordei certa manhã e junto comigo despertou o mau, simples assim. Era latente na minha cabeça a vontade de matar, coçava como a lepra, pululava como vermes na carne podre.

Foram quatro meninas até agora, entre 13 e 16 anos. Minha próxima vítima é uma linda adolescente de 15 anos, vizinha, mora aqui no prédio”.

Assim ele começa sua história. Este verme, porque vejam bem, -eu não faço ninguém matar, como já disse, sou neutro neste mundo transitório aqui embaixo. Este verme matava meninas indefesas e Clarice, coitada, estava lá, quando ele olhou pela janela do 7º andar do seu apartamento. Era meio-dia, pegou um uber pra voltar da escola. Os pais estavam viajando, à negócios. Eram sócios numa empresa que fabrica e vende colchões. Colchões, sério! Mais uma ironia. Assim como num caixão, no colchão se dorme, mas no caixão só se deita uma vez.

Passava na avenida movimentada pra juntar uma pobre alma fresquinha, que morrera num acidente entre carro e moto. O piloto ia sobreviver, mas a sua namorada passageira, essa não. 18 anos essazinha, gostei dela. Me acompanhou. Não era assim que as coisas aconteciam geralmente, só que quando eu ia com a cara da pessoa, ainda mais na tenra idade, exceções podiam ser feitas. A juventude quando roubada pela morte mostrasse tão resplandecente e encantadora quanto foi na vida. Já me chamaram de amante uma vez. Foi Romeu, apaixonado ao ver o frescor delicado e os lábios ainda úmidos da não morta (ainda), Julieta. Pobres amantes.

Chamava-se Luciana, a prematura alma desencarnada. Mostrei-lhe a “loja” acomodando-a do outro lado do balcão. Ela via meus futuros clientes como eu os via e não mais como pessoas. Sua percepção era afiada e sua ironia sutil, levemente temperada com descaso e intelecto.

A fiz ver o projeto patético de assassino lá em cima. Soprei um pó prateado, preparado para este fim, nos seus olhos e ela pôde até ler seus pensamentos.

-Faça alguma coisa pra impedir. Vamos, ele vai matá-la. Meu Deus, ela só tem 15 anos!

-Eu não posso interferir nas ações humanas. Não mato ninguém, são vocês! E quando acontece eu apareço pra limpar a bagunça. Entende?

-Achei que entenderia. Sempre estive pronta pra morte, foi o que pensei. Já tentei me matar 3 vezes. Mas acho que tudo isso você já sabia. O que você é, um anjo?

A menina não tinha medo de mim. Antes eu parecia ter medo dela. Sua audácia, coragem. Ficou frente ao próprio corpo retorcido no chão por 1 minuto. Olhava, virava a cabeça, analisava. Parecia mais um perito da polícia forense. Não era com surpresa ou tristeza que assimilava sua morte. Mas com satisfação.

-Eu sou a morte. A que você buscava voluntariamente e acabou encontrando sem querer.

-A morte? Você parece tão normalizando pra ser a morte!

-O que esperava? Um esqueleto com capuz segurando uma foice?

-Esperava um anjo gigantesco com asas flamejantes, olhos prateados, com as mãos de fogo.

Assim? Disse, me transformando exatamente na sua descrição de mim. Ela riu e continuamos andando.

-Assim mesmo. Pra onde estamos indo? Eu não quero ver essa menina morrer. Se não posso fazer nada, então pra que? Me diz, o que acontece agora? Vai surgir uma luz branca? Devo ir pra luz?

-Isso é com você. Cada um segue seu caminho sozinho. Siga o seu. Mas não espere nenhuma luz branca. Isso soa piegas. Disse isso e desapareci. Viajava entre as correntes de ar até a janela do sétimo andar. Me infiltrei no ouvido do assassino e me alojei nas suas ideias:

“Ela está sozinha. Seus pais foram viajar. Vai ser agora. Exatamente como sonhei que seria. Sem motivo, sem lógica. Só porque eu posso e quero. O telefone tá tocando. Não, não posso atender. Nada vai me distrair. Será com a navalha. Navalhas são precisas e rápidas, cirúrgicas. Um movimento rápido e firme, o olhar fixo no alvo e já era uma carótida, com sorte uma jugular.

Estou na porta, bato? Se alguém aparecer no corredor? Vou causar suspeita. Sabem que ela está sozinha e um homem solteiro, bater na porta de uma adolescente sozinha... Mas então é melhor agir logo, ah, Deus! -Tá vindo alguém. Volto pro meu apartamento, circulando, não me viram parado aqui. Seguro o elevador, depois de um tempo volto.

Será agora. Bato. Ninguém. Bato de novo. Escuto um barulho, depois silêncio, mais um tempo e nada. Nas outras vezes não teve essas complicações. Não pode haver pedras no caminho, nem desvios. Tem que correr conforme o plano ou desisto”.

Clarice já estava na porta, com os ouvidos colados, ouvindo a respiração de Fernando. Unida à porta de tal forma que a estreitava, a eliminando entre os dois, tal era seu dom e poder de concentração. Uma habilidade surpreendente para uma jovem de 15 anos. Eu não pude me manter naquele cérebro confuso. Era uma criatura atormentada, assustada, disposta a cometer o crime mais bárbaro, mas refreando-se perante qualquer imprevisto.

-Quem é? -Enfim manifestou-se Clarice.

-Sou Fernando. Seu vizinho do 712. Lembra que já te dei carona pra escola uma vez? Conversamos sobre livros. Falamos sobre Thomas Mann e eu disse que tinha Doutor Fausto, você queria emprestado. Então, tava pensando nisso hoje. Trouxe o livro, você ainda quer?

Clarice espiou pelo olho mágico. Pareceu empolgada. Sabia das intenções dele, pressentiu. Foi naquele momento íntimo entre a porta e ele. A garota tinha alguma coisa, talvez um dom, como já sugeri. Sendo a morte, certas fragrâncias mais finas não me escapam. Eu já percebia a ponta de uma suspeita esperando ser confirmada.

-Mostre o livro, -disse Clarice abrindo uma fresta da porta sem desatrelar a corrente.

-Como eu disse jovem. Sou do bem, não precisa desconfiar de mim. Pode abrir a porta. Argumentou Fernando. Ocultei a porta entre os dois, utilizando um dos tantos recursos que possuo para desempenhar meu trabalho no mundo material. Percebia em Fernando uma ingenuidade cômica, até uma inocência velada por uma máscara intencionalmente sobreposta na tentativa de assustar jovens tolas. O que não era o caso de Clarice.

-Passe o livro pela fresta da porta. Não vou abrir. É estranho que só agora que estou sozinha venha com o livro. Isso já foi a tanto tempo!

-Perdoe senhorita. Farei o que me pede. Deixarei aqui o livro, -ponderou ele, agachando e colocando o livro em pé entre a abertura da porta e saiu.

Clarice ficou onde estava, vendo-o se afastar, até que entrasse no elevador. Pegou o livro, fechou a porta e recostou-se com o livro nas mãos. Abriu, cheirou, tinha cheiro de novo. Sabia que o livro tinha sido adquirido a pouco tempo, o que confirmou as suas suspeitas. Riu satisfeita e logo depois jogou o livro longe e começou a chorar, escondendo o rosto entre as pernas.

Eu fiquei um tanto frustrado com aquele desfecho. Esperava ver sangue e nada aconteceu. Logo outra alma chamava. A morte não tira férias, mesmo sendo onipresente. Além do que, tenho nas mangas uns truques que não poderei revelar. Pra vocês mortais seria difícil de entender, mesmo que eu pudesse falar sobre isso. Mas já ouviram falar que o tempo nas esferas celestes, onde moram os deuses, é diferente do tempo de vocês? Pois é!

Gosto de fazer algumas coisas para me lembrar de como o homem me imagina. Coisas sinistras, digamos. Sento numa cadeira de balanço feita de ossos. Bebo vinho usando um crânio vazio como taça. Foi eu quem deu a dica para o bom amigo Byron. Este foi alguém tão admirável vivo quanto morto.

Lanço-me de precipícios e prédios nas horas mais alegres. Já tive a sorte de saltar com alguns condenados e soprar nos frescos lábios suicidas o ar gelado, quando ainda estes soltavam suspiros quentes. Os hospitais são minha recreação, como eram antigamente os campos de batalhas. Marte me arrebanhou muitas almas nos tempos áureos.

Agora alguns moribundos me fazem rir. Eles me encaram de frente e suplicam para levá-los. Muitas vezes finjo compaixão, até me esforço, mas nada vem. Sinto certa inveja dos humanos nesses quesitos. Sendo um observador, apenas posso admirar, supor suas impressões sobre o amor, a felicidade, ódio, ira. Sou como uma vela para um cego: aqueço, mas não guio. Como o fogo embaixo da panela, lambendo-a para provar-lhe o gosto dos preparos, incapaz de perceber sua maldição.

Alguém recorre ao suicídio agora. Do hospital recolho três almas e após a triagem deixo-as prontas para partir.

Quando chego no local percebo que já estive ali. Era o apartamento de Clarice, era ela quem tentava se matar. Estava no banheiro, com a maquiagem borrada, o rímel desfazendo-se entre as lágrimas, como rachaduras numa parede. O frasco de remédios vazio na pia e o olhar de autocomiseração, os olhos inchados e as olheiras profundas. Os lábios machucados e os cortes nos braços (denunciando que já se machucara antes).

Quebrou o espelho e soltou um grito de dor, uma dor que transbordou da sua alma cansada, angustiada. A tesoura nas mãos, o objeto que desferiu contra o espelho, caiu sobre a perna esquerda, fazendo um pequeno corte. Eu sentei e esperei por sua alma. Queria senti-la escorrer como água de um cântaro. As almas dos suicidas são deleitosas para mim. Me encantam, pois elas me procuram. O que me faz pensar que a vida, sendo um presente, pode ser assim desperdiçada.

Os olhos de Clarice me olhavam. Tão vivos olhos para um cadáver. Aqueles topázios cintilantes roubavam minha atenção. Quase pude me inebriar neles, como me inebriava com vinho. Pois o vinho, poderoso aditivo, realçador de prazeres, atenuante das inibições, mergulha tanto homens quanto deuses nos seus deleitosos domínios.

Tentava me enamorar dela. Como seria se me apaixonasse? Os cabelos louros, mesmo tesourados daquela forma irregular e furiosa, eram belos. O nariz era uma graça, pequeno e insolente, despontando desafiador para cima, reflexo de sua personalidade escondida (forte, sagaz). Aquela menina frágil que se entupiu de remédios agora a pouco, era uma crosta negra e purulenta que resultara da sua doença.

-Hanghhhhh! -A alma bradou ao tentar sair. A débil respiração refletiu num folego tremendo. Voltou, não quis ir ainda. Já vi isso tantas vezes e ainda me surpreendo.

Clarice tateava o chão com as mãos, quem sabe procurasse algumas pílulas caídas ou a tesoura, inconformada de ter adiado seu encontro comigo. Mas não, reconheci na atitude uma necessidade de tatear a matéria, saber que estava viva.

Ainda deitada desabou ao tentar virar-se, caindo no próprio vômito que acabara de expelir. Menina forte, ainda lutava. Me despedi dela por enquanto. A deixei aos cuidados de um vizinho que passava e escutou quando ela quebrou o vidro. Neste momento me dividi em dois, por cissiparidade, aí, aí. Me sinto um pandego. Não costumo soltar essas pérolas, mas elas caem bem na literatura, eu acho.

O vizinho, pobre diabo, um fracote. Tentava arrombar a porta e quando mais força impunha, mais distância tomava, pra mais longe era arremessado, até se estelar de vez. Demorou até que o gênio tivesse a ideia de usar o extintor e nisso mais pessoas vieram.

Mas não esqueçamos nosso sequelado assassino, Fernando. Esse patife que a escuridão das ruas servia de capa, encobrindo seus crimes toscos. Porque eu digo, disse e reafirmo, sinto pena. Não é um matador de sangue frio, antes um louco, e é a loucura que o isenta de culpa.

-Merda, merda! Não, sai, sai. Meu Deus, esse sangue não sai. Se me virem serei suspeito. Porque não sai? Já fiz de tudo. Matei, sim. Matei porquê posso e mato porque me foi dada essa missão. Fui o próprio Lúcifer quem me chamou. Sim, como sou privilegiado! -Aquela lesma asquerosa se jogou no chão, de joelhos e orou para o diabo, como os vivos o chamam. Ele se exaltava e erguia a voz, estendendo os braços para o alto, como se quem invocasse fosse surgir de cima e não de baixo. Por fim caiu com o rosto no chão, se prostrando e beijando a pedra lisa do calçamento.

-Estou pronto agora mestre. Já foram 6, conforme o prometido. Serei ungido e receberei os poderes que me concederás, pelo teu nome oculto, o qual só os iniciados pronunciam.

Eu não entendia as sandices do louco. Tive de entrar na sua cabeça mais uma vez. O celerado via um bode preto na frente e no chão, riscado de giz um pentagrama, feito com certeza pelo próprio patife. Insistia nas suas convicções de discípulo merecedor de crédito e pedia para que o bode o retribuísse pelos crimes (sacrifícios).

O bode então, riscou com os cascos, que soltavam fogo, as letras: F-E-I-T-O e riu para ele. Ria como o diabo riria e também balia como os bodes, porque não era nada mais que um bode. Depois que deixei o infeliz não pude constatar nada que sua mente febril e doente criara e então me aborreci e o deixei.

Clarice teve alta do hospital uma semana depois. Seus pais interromperam a viagem assim que souberam do incidente e ficaram com ela enquanto puderam, até sentirem que estava melhor. Apesar de não terem mais a confiança que antes, a jovial e alegre Clarisse passava. A minha jovem namorada, vou passar a chama-la assim, por brincadeira; era sociável, às vezes até atrevida, imprudente. É certo que eu não me apegava às pessoas, mas era uma alma que eu reivindicaria para o Hades, pois tenho certo grau de intimidade com o Deus do submundo e lá poderia admirá-la quando quisesse.

Depois de uns dias, os quais estive perambulando pelas praças, onde bêbados e viciados morriam, pelas favelas, guerrilhas e casas, onde acidentes e violência doméstica me ofereciam mais clientes, voltei para ver como estavam as coisas com Clarice.

Numa noite ela vinha de uma festa na casa de uma amiga, quando se deparou com um sujeito parado num ponto de ônibus. Apesar de ser um local bem iluminado, assim que a viu o sujeito correu atrás dela, que também correu, mas não o suficiente. O homem a empurrou e a encurralou num canto, depois, imobilizando-a a carregou para um beco escuro.

- Chiu! Você não pode contra mim agora. Olha, disse virando-a para que o encarasse de frente, - lembra? Sou eu, o carinha do 712. Não quis confiar em mim. Tanto faz. Agora será bem pior pra você. Antes eu era um discípulo querendo agradar o meu senhor, agora eu cumpri minha missão e recebi minha recompensa. Nada pode me deter. Você está vendo ele? Está aqui, veja! Não é bonito o meu senhor? Admire-se também com ele. Reverencie e preste culto ao senhor das trevas.

- Seu maluco, me solta. Não tem nada ai. Você é um psicopata, pervertido. Gosta de abusar de garotas indefesas.

A minha valente Clarice lutava para se desvencilhar, mas em vão. Ele a imprensava contra a parede e mantinha o peso do seu corpo sobre ela, segurando suas mãos. Começava a sufoca-la, a esganá-la agora com uma das mãos, quando ela aproveitou um descuido e desferiu um chute bem calculado e aplicado bem no meio das suas bolas. Ele caiu se contorcendo e dizendo:

-Sua vagabunda! Como ousa, sua puta, piranha!

Então Clarice voltou, sem medo, com o peito estufado. Tirou da bolsa algum acessório e jogou a bolsa no chão. Fernando de pé estendia os braços e clamava ao seu senhor:

- Oh senhor das trevas, poderoso contestador, rei deste mundo. Que seus poderes transferidos para mim, reduzam essa devassa infiel a cinzas. Que as chamas da boca do dragão a devorem, agora! Argh, -e impulsionava os braços para frente, como se deles emanasse mesmo as chamas do dragão exclamado.

Clarice enfiou a tesoura no bucho do desgraçado e girou de um lado, depois do outro, enfiou até o cabo, depois tirou e enfiou de novo no pescoço e depois no coração. Ele caiu sobre o seu próprio sangue, estrebuchava enquanto morria. Sua cara incrédula em meio às caretas de dor, davam o ar de loucura que o possuiu até o último suspiro. Incredulidade por saber que morria, supondo ser invulnerável, com superpoderes ofertados pelo diabo.

Clarice saiu dali satisfeita, rindo. Com o rosto e a roupa cobertos de sangue, ela seguia andando pelas ruas. Subiu, tomava um banho. A água caindo quente sobre o corpo, lavando o sangue, não a culpa, não havia culpa, só alivio. Sentia-se curada da sua depressão, daqueles estranhos sentimentos que se alojaram na sua alma. Estava em paz agora. Não na paz eterna, não ainda, mas em paz. Eu a deixei saudoso.

E essa foi a história que vivenciei para contar. Não me foi contada de um morto sentado na tumba do meu cemitério, eu vivi isso. De novo a ironia se faz presente. A morte não seria uma ironia da vida? Eu não sei, nem sei se sou um escritor confiável. Me contradigo algumas vezes. Como tenho orgulho e não sensibilidade, para sentir o que os humanos sentem? Como acompanho esses mortais e me deleito com suas histórias, sofro com eles, os admiro e me apaixono, se contestei todos esses sentimentos, dizendo não ser capaz de os administrar? Talvez esses humanos poderosos, que até aos deuses causam inveja, tenham transpassado a morte mais eficazmente do que a morte é capaz de transpassa-los. Sei que serei vencido um dia, porém eles resistirão.

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