Adrian, O Flautista




Ainda hoje, nestes rios, vales e florestas,

Correm sob o luar os contos sobre a vida de um bravo homem,

Que conheceu terras muito distantes,

Desconhecidas até mesmo para os xamãs do nosso povo.


Com muito cuidado, ele pegava uma flor

E dele os pássaros não fugiam.

De Reino em Reino,

Cantava suas músicas e recitava suas poesias.


Em suas canções, invocava o nome dos nossos Deuses,

Melodias que faziam duvidar a origem humana da sua cor,

Palavras bem-aventuradas profetizadas para as próximas gerações,

Histórias sobre fadas, elfos, homens e anões,

Bruxas e criaturas obscuras que viviam em nossos bosques.


Memórias arrancadas das profundezas da nossa natureza primitiva,

Assim ele cumpria sua sentença,

Proferida muito antes dele nascer,

Fadado a esperar pelo tempo que enfim ele seria esquecido...


...


Esse tempo é conhecido e não se pode evitar,

Quando criança, no cair da noite,

Eu ouvia o som de uma flauta que vinha dos pinheiros,

Uma região remota e temida pelo meu povo...

Ao longe os pinheiros formavam uma mata fechada

Demarcando naturalmente o contorno das terras de meu pai.


Antes de dormir, a flauta sempre começava a tocar

E o meu pai corria até o meu quarto e me dizia:

"Filho, não dê ouvidos!

Me ouça! Nunca dê ouvidos!

As crianças que foram até lá nunca mais foram encontradas!"


Anos se passaram e com eles as histórias se inverteram.

Adrian, meu filho, sempre brincava perto dos pinheiros

E isso me fazia pensar nas palavras de meu pai,

Mas até então já não se ouvia mais as músicas do flautista...


Em seu leito de morte, meu pai tenta me contar uma última história:


"Filho, a floresta dos pinheiros tem vontade própria.

Olhe para nós, tão previsíveis e limitados no tempo

E ela permanece aí, com os seus pássaros e encostas ao passar dos anos...

Se somos seres livres, por que ela não o seria também?

O Flautista... ele não... ele não tem culpa..."


Falecido em meus braços, o deitei na cama como faço a um filho meu.

Desconsiderei suas palavras, mas mantive o respeito de sempre.


...


Certa noite acordei muito assustado.

Não podia ser!

A flauta estava tocando nos pinheiros...


Corri até o quarto de Adrian, mas ele não estava lá.

Acendi os lampiões ao redor da casa,

Empunhei uma lança e uma tocha,

Andei rente aos pinheiros tentando clarear algum rastro de Adrian,

O fogo clareava e formava sombras disformes na mata,

Porém, nenhum sinal dele.

Essa foi a última noite de Adrian em nossa casa...


Agora, prestes a entrar nos salões etéreos prometidos pelos nossos Deuses,

Diante do meu segundo filho,

Eu lhe conto uma última história:


"Liam, ouça bem o que eu tenho para dizer!

Anos antes de você nascer,

A floresta dos pinheiros selou o caminho das pedras para Adrian, seu irmão!

Mas isso só acontece com quem vive a história,

Adrian era parte da floresta e ele precisava escrever a sua.

Hoje, ele vaga por aí, quem sabe tocando as músicas da floresta,

Encantando reinos e condados, homens e tavernas,

Recitando a poesia primitiva dos pinheiros que lhe foi destinada..."


Quando Liadan morreu,

A flauta tocava na floresta,

A música mais triste e sombria que Liam viria a ouvir por toda a sua vida.

Agora,

Ao fechar os olhos,

Você poderá ouvi-la também...










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