Angústia


O suor frio brota da pele de seu rosto e escorre primeiro por seu pescoço até alcançar suas costas molhando a camisa amarelada e fazendo-o sentir seu próprio cheiro azedo.


As mãos tremem, o coração bate em descompasso, o ar lhe falta. Das pontas de seus dedos brotam pequenas gotas de sangue de onde profundas lascas de pele foram arrancadas deixando pequenos cortes que ardem. As unhas roídas estão em carne viva. Ninguém disfarça a repugnância que sente ao olhar para suas mãos. Ele vê o nojo nos falsos sorrisos que lhe dão.


O desconforto que sente é quase insuportável e ele pode ouvir o próprio sangue pulsando em suas artérias. Sua cabeça dói a ponto de lhe causar náuseas que ele tem dificuldade em controlar.


Sente-se como se estivesse fora da realidade e como se o mundo a sua volta fosse apenas a lembrança em câmera lenta de um sonho há muito esquecido.


Quer sair dali, mas sabe que tem que se controlar, precisa continuar aguardando. Aquela era uma reunião importante, ele não pode perder mais uma oportunidade.


Cada som produzido ali dentro parece se amplificar de modo que, por mais absurdo que pareça, lhe é possível ouvir tudo à sua volta, o barulho do café sendo sorvido pelas bocas molhadas de saliva, o tamborilar incessante dos dedos na mesa, o salto batendo contra o piso, as risadas abafadas, o barulho do maxilar mastigando. Ele pode ouvir até mesmo o som dos ponteiros do relógio se movimentando lentamente e tudo aquilo só aumenta a pressão que esmaga seu crânio.

Ele afrouxa o nó da gravata e olha em volta procurando algo que o acalme, mas a única coisa que chamava sua atenção são as janelas fechadas e embaçadas, o ambiente abafado pela mescla do ar expirado por todos ali dentro, as gotas de chuva batendo na vidraça. Tem certeza de que está prestes a sufocar.


Alguém lhe pergunta se está tudo bem, diz que ele está um pouco pálido. Ele desconversa dizendo que está apenas cansado. Sempre o tratam como um fraco, como um incapacitado. O que fariam se ele dissesse que, naquele momento, está usando toda a sua força e autocontrole para simplesmente não surtar?


Todos aqueles idiotas à sua volta. Ele sabia que eram hipócritas incompetentes. No fundo, queria que todos eles morressem e o deixassem em paz. O mundo seria um lugar muito melhor sem eles.


A cada minuto o escritório parece diminuir de tamanho, como se as paredes perfeitamente brancas se movessem em sua direção pressionando o ar em volta de seu corpo.


Jaqueline com aquele seu jeito irritante de fingir preocupação com todos toca seu braço e lhe oferece uma xícara de café.


Aquele toque foi como a picada de uma vespa, odiava aquela mania que ela tinha de tocá-lo sem que tivessem qualquer intimidade para isso.


Ele tenta respirar de forma compassada, como lhe ensinaram, aquilo deve ajudá-lo a se controlar, mas ele se pergunta o que aconteceria se simplesmente se levantasse, fosse até a copa, pegasse uma faca afiada e perfurasse uma, duas, três vezes as costas de Tomaz? Será que ele continuaria a olhá-lo com aqueles olhos azuis zombeteiros antes de morrer?


E se com a mesma faca, ainda ensanguentada, ele cortasse o pescoço de Jaqueline e de Bety sujando de sangue as roupas caras que elas adoravam exibir? E depois poderia furar os olhos atônitos de Lucas e, finalmente, esfaquear Luiz, Maraya e Renata.


A visão de todos aqueles corpos espalhados pelo escritório e das paredes vermelhas pelo sangue lhe dá um prazer quase erótico e o pensamento lhe provoca o início de uma ereção.


Ele se esforça para afastar tudo aquilo da mente até que percebe que não conseguirá se livrar daquilo, então a ansiedade começa a dominá-lo novamente.


Seria ele capaz de fazer algo assim?


Sim, seria. Ele adoraria fazer aquilo.


A boca saliva. Ele olha para o relógio. O tempo não passa.


Ele não se concentra em nada, não consegue escrever aquele maldito relatório. Está em cima do prazo, mas só consegue pensar em matar aquelas pessoas, em transpassa-las com a faca afiada e o pensamento é tão dominante que ele sente o cheiro do sangue.


Aquela reunião que nunca começa. Já são 18 horas. A chuva continua caindo. O ambiente continua abafado e quente.


Mayara sorri para ele e pergunta se ele gostaria de uns biscoitos, ele nega balançando a cabeça e pensando que na verdade gostaria de matá-la. Matar todos eles. Estraçalhar seus corpos, rasgar a pele escondida sob suas roupas da moda, arrancar de seus rostos aqueles sorrisos artificiais.


A sensação de não ser ele mesmo e de que habita outro corpo o toma e ele se levanta. Caminha lentamente até a copa.


Seus pensamentos estão confusos agora. Ele parece observa seus atos como se olhasse um espelho. Um mero expectador. Sua cabeça lateja.

Está ofegante. Sabe que está perdendo o controle e que não há nada que possa fazer para evitar aquilo. Segura a faca com as mãos trêmulas. Ele tem consciência do que está prestes a fazer e de que não vai parar.


Respira fundo e vira-se em direção a porta que leva de volta ao escritório, porém antes de chegar lá vê que todos estão pegando suas coisas e saindo. Lucas passa por ele e avisa que a reunião foi desmarcada e que estão todos dispensados.


Ele fica ali por alguns minutos, as pessoas passam por ele e lhe desejam bom descanso antes de deixarem o lugar.


Quando não resta mais ninguém além dele, corre para o banheiro onde vomita bile.


Sente que as batidas de seu coração estão se acalmando, a cabeça já não lateja, o sangue em suas veias silenciou. Ele está retomando o controle, está voltando ao seu corpo.


Vai até sua mesa para pegar suas coisas e vê a faca no chão, ele não quer olhar para aquele objeto e se apressa em direção ao elevador.


Quando sai para a rua, a chuva refresca seu corpo quente e termina de acalmar seus pensamentos. É ele mesmo outra vez. Ele sabe que agora irá para casa, tomará seus remédios e deitará em sua cama para dormir anestesiado e, talvez, amanhã seja um dia melhor.




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