• Elisa Ribeiro

Armadilha do tempo


Levantou-se depois das onze. Lembrou-se de que não comia há três dias. Teria que sair pra caçar. Esse pensamento encheu-o de cansaço e desgosto.


Após o banho, olhando-se no espelho enquanto se barbeava, deu-se conta de como sua aparência estava em desacordo com sua alma. Alma? Que alma? Perdera a sua há muitos anos atrás. Seu rosto apenas o lembrava de que algum tempo antes fora um homem. Hoje era um morto vivo, um corpo desabitado.


Perdera sua alma para Dóris, o último amor que experimentara.


Mais de meio século havia se passado. Dóris, com seus cabelos cor de palha, sua pele exangue, seu corpo magro e forte. Dóris, com seus lábios vermelhos e seus caninos brilhantes e pontiagudos que lhe furaram a carótida segundos após o gozo na primeira vez que fizeram amor.


Fora Dóris que o ensinara a caçar. A escolher a vítima certa. A encurralá-la. O local certo de morder. O ritmo certo de sugar.

Ensinara-lhe também a mudar de cidade sempre que começavam a surgir olhares curiosos sobre sua aparência ou seus hábitos noturnos. A cada mudança, aprimorava-o na arte de hipnotizar os fracos de vontade fazendo-os entregar-lhes tudo que precisavam, de modo que nada nunca lhes faltasse.


Foi ela também que o abandonou sem dizer para onde ia ou se voltava um dia.


E desde então, mais de trinta anos passados, sem conseguir criar outros vínculos por causa da sua condição, sofria um vazio irremediável.


Música, livros, bons vinhos eram os paliativos que o anestesiavam. Como um pêndulo, entretanto, seu estado de ânimo oscilava. A imortalidade, tão almejada frequentemente era-lhe por boa parte do tempo um ônus maldito e pesado.


Em uma semana completaria noventa anos. Olhou a certidão de nascimento miniaturizada e plastificada que levava na carteira. Carregava-a para não se esquecer de quem era de fato, de quem um dia fora. O nome do pai, da mãe, a data e o local de nascimento. Todos seus outros documentos continham dados inventados.


Noventa anos era uma idade muito avançada, até mesmo para ele, cujo corpo havia parado de morrer aos trinta e dois anos, idade em que fora transformado. Mas o que era o tempo? Para ele, apenas uma abstração que não o afetava.


Já era noite quando saiu de casa, desanimado, para a caçada.

Dirigia-se a um dos bairros periféricos da cidade, quando o sinal fechou bem em frente ao hotel mais famoso da região, adornado na frente por um obelisco e encimado por um restaurante panorâmico com magníficas janelas de vidro espelhado brilhante. Num impulso, estacionou.


O restaurante estava razoavelmente cheio. Escolheu uma mesa próxima à janela. Espiou a rua embaixo. Exatamente como calculara. O vértice do obelisco posicionado bem na direção da janela. Seria uma morte espetacular. E infalível. O peito atravessado pelo vértice da pirâmide que encimava o obelisco.


Decidiu olhar a carta de vinhos.


Numa das extremidades do restaurante, um trio – piano, sax e guitarra – tocava jazz contemporâneo. A música soava absurdamente afinada. Na mesa da frente, uma jovem desacompanhada. Hóspede? Prostituta? Cabelos lisos, cor de palha, como os de Dóris. Um lindo pescoço macio e branco.


Sorveu o primeiro gole do vinho de olhos fechados. Passou a língua pelos dentes. Os caninos continuavam cortantes.

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