As bruxas de satã





I don't wanna talk about it Eu não quero conversar sobre isso How you broke my heart Sobre como você partiu meu coração If I stay here just a little bit longer Se eu ficar aqui apenas um pouquinho mais If I stay here, won't you listen to my heart? Se eu ficar, você não ouvirá meu coração? Oh, my heart Oh, meu coração I Don't Want To Talk About It - Rod Stewart

Dizem que a pior coisa é a queda. Enquanto penso nisso meu casulo blindado treme tímido como se estivesse com febre. Isso é por causa da movimentação dos trilhos magnéticos que organizam cada cápsula abaixo das entranhas do nosso transportador estratégico NT-93 "Évora". Junto comigo estão mais novecentos e noventa e nove sacos de carne nova do império. Gente jovem se borrando de medo de voltar pra casa num saco de cinzas pressurizado. Infelizmente esse é o destino da grande maioria. Somos a porra da infantaria, e por isso partes intercambiáveis e totalmente substituíveis, ativos de combate quase sem valor algum. A parte boa é que desde o início do treinamento eles esfregam isso na nossa cara, então meio que está de boa. Minha companhia foi batizada de "Bruxas de Satã", um nome fofo e meio engraçado já que somos todas mulheres. As divisões femininas geralmente vão como ponta de lança e quase sempre fazem o bom trabalho, mesmo assim sempre há muitas baixas. Nem todo mundo pode voltar vivo pra casa. O barulho cessa. Todos os casulos estão alinhados. Agora falta pouco. As luzes se acendem e o sistema do pod se liga automaticamente. A checagem inicial de sistemas é importante. Ninguém quer explodir em pleno ar antes de atirar pelo menos uma bala no inimigo, pois isso seria um tanto embaraçoso. A luz azul das telas do casulo banha meu traje de cima até embaixo. Ele passa uma sensação estranha e falsa de peso bruto, mas é como se eu estivesse vestindo apenas um casaco pesado. Um casaco blindado de vinte e cinco milhões de créditos. Cada um dos trajes possui um pequeno chip de IA para auxiliar cada um dos usuários, todos permanentemente conectados com a rede central do comando, ou com qualquer coisa que possua os receptores necessários, tal como o Évora e meu casulo. Graças a ele toda a checagem do pod dura apenas quinze segundos. Computador, blindagem, propulsores, repulsores, suporte de vida, transmissor de rádio e rastreador, tudo check. Acho que quando dizem que a pior parte é a queda é porque os casulos parecem frágeis demais para algo que é disparado como uma bala centenas de quilômetros contra o solo de um planeta inóspito. Talvez seja frescura minha, mas não acho que deva ser muito bom morrer esmagada como um inseto num vidro de carro. E por falar em insetos, esse é o problema de nosso atual destino. O planeta atualmente nomeado NMP-3914 "Petúnia" (sim você deve estar imaginando quem foi o idiota que nomeou esse maldito planeta com essa droga de nome, mas parei de me preocupar com isso nas primeiras duzentas vezes que ouvi na preparação da missão) está sofrendo (como dezenas de outros planetas nesse maldito sistema) de uma infestação de formas de vida selvagens obviamente contrárias a permanência vitalícia de colônias humanas em seu lar. É como se eles estivessem devendo o aluguel e fossemos tomar a casa. É simples, é como somos, como os fuzileiros são. Pelo menos é o que diz a propaganda de recrutamento na TV. Toda a propaganda do império é uma coisa incrível, nela todos são bonitos, jovens e brilhantes, combatentes destemidos e heróis de guerra formidáveis, imbatíveis, invencíveis. O que não falam é das altas taxas de baixas por missão, sobre as mortes horríveis em planetóides estéreis e sobre a facilidade com que a vida do soldado de infantaria padrão vai embora mesmo antes da hora H. A questão interessante é que isso vira uma arma de recrutamento tão incrível quanto eficaz no momento em que eles dizem que a bendita recompensa por seu trabalho em tempo integral na cozinha do inferno vale à pena. A regra é simples, se um soldado de infantaria sobrevive por seu tempo de serviço de cinco anos ou trezentas missões (o que vier primeiro) ele ganha o direito incontestável de asilo vitalício na lendária zona Éden. Simples assim. Você que não sabe a Zona Éden é um conjunto de sete lindos planetas num aprazível sistema bem longe da Terra capital, (tão longe que ninguém sabe exatamente onde está) onde nosso amado império construiu um verdadeiro paraíso artificial com o melhor que tinham disponível em cada mundo colonizado. Oficialmente as informações meio que acabam aí, tanto que centenas de teorias foram criadas para preencher as lacunas de dados concretos do que seria esse céu de soldados. Alguns dizem que quem chega lá ganha uma nova identidade ou até mesmo um novo (e talvez melhor) corpo. Também dizem que a expectativa de vida dos cidadãos passa de duzentos e cinquenta anos, que cada um dos planetas possui os melhores climas de todo o universo, tecnologias avançadas que ninguém jamais viu, fauna e flora geneticamente modificadas e que ninguém lá paga impostos (tá bom que essa última parece ser a mais furada) ou algo parecido. É claro que isso tudo ainda é só teoria, até porque ninguém voltou de lá pra falar alguma coisa, tanto que o programa de suporte aos veteranos é uma grande caixa preta de segredos do império. Meu casulo solta um bip. Condição: AMARELA Todos os sistemas: ONLINE No segundo seguinte a conexão de vídeo é liberada. Todas as telas do pod se conectam com cada câmera dos casulos ao redor. Agora é possível ver as caras nervosas do nosso esquadrão em alta definição. Na tela central estava nossa tenente Kira, com sua carranca rotineira. Os olhos sem emoção daquela mulher me davam pesadelos desde o maldito treinamento. Aqueles olhos mortos já viram muita merda por todo o universo. Eram a droga dos olhos de um veterano. - Soldados! Atenção! - grita ela através dos microfones da armadura. - Todas vocês que prestaram atenção no briefing da missão já sabem o que devem fazer, já as que não lembram façam o favor de não morrerem perto de mim. A mensagem é curta é grossa. Graças à blindagem do traje e do casulo não escuto mais do que o sistema de purificação de ar trabalhando. Ninguém ao redor tem coragem de falar algo. Ela então desconecta seu link de vídeo. - Caralho. - diz Biruta. Nossa, acabei me esquecendo que ninguém se chama pelo nome por aqui, então cada um ganha um apelido desde o início do treinamento. Biruta é o que pode ser chamada de amiga desde o começo disso tudo. Uma pena é saber que pode ser o último dia que poderemos nos ver. Ela continua. - Você viu a cara da puta? - Vi - respondo. - Pelo visto ela acordou de mau humor. - Mais do que o normal? - Sim. - ela responde sem ânimo. - Não liga pra ela. - Certo... - É só seguir o manual, não é o que eles dizem? - Se tivéssemos uma capitã humana sim, mas com a noiva do demônio nossas chances caem muito. - Acho que ela ter feito aquilo com sua mão “sem querer” no treinamento não tem nada a ver com isso. - meus dedos fazem as aspas bem em frente da câmera do casulo. - Talvez - a cara que ela faz é impagável. - Mas você ganhou uma mão nova na regeneração, então não reclama porra. - Sabe que ela fez de propósito né? - Você ficou de bobeira no meio dos últimos treinos em campo. Deu mole. - Ela não precisava ter esmagado minha mão com a merda daquela prótese de titânio. - A desgraçada conseguiu aquilo virando o universo do avesso e você fica dando uma de colono chapado de costas pra ela. Caralho Biruta, você é a vadia mais louca que todas nós nessa coisa. - Alguém tem que ser. - Pelo menos você conheceu o carinha do centro médico que estava de olho. - Ele é gay. - Que merda, hein? Ambas rimos dentro do traje por um tempo. Depois só o silêncio. - Será que duramos até o fim do dia Olivia Palito? - Não sei, eu tô com medo. - Eu também. Na verdade estou cagada aqui, nunca pensei que ia ficar assim, mas estou – a voz dela parece vir de uma criança preocupada. - Como diria meu velho: “Ninguém vive pra sempre”. - Acha que vai viver o bastante para encontrá-lo? Você disse que se alistou só pra isso - a pergunta me dá um pouco de ânimo. - Não sei, só sei que vou tentar. - É isso ai garota, somos as malditas Bruxas de Satã não somos? - É isso ai. Três bips rápidos. A luz do casulo muda de amarelo para laranja. Agora temos menos de dez minutos até a queda.

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