As bruxas de satã (Segunda Parte)




It's now or never É agora ou nunca Come hold me tight Venha abraçar-me firme Kiss me my darling Beije-me minha querida Be mine tonight Seja minha hoje à noite Tomorrow will be too late Amanhã será muito tarde It's now or never É agora ou nunca My love won't wait Meu amor não vai esperar. It's Now Or Never - Elvis Presley

Estou estranhamente calma. Isso é estranho, talvez eu esteja vivendo meu último dia no mundo e mesmo assim ainda não estou tão nervosa como deveria. Até parece um daqueles dias normais no simulador, onde a única coisa que importa é fazer mais pontos para se mostrar pro resto do pelotão. Infelizmente não é. Em alguns minutos deveremos chegar à zona de pouso Alfa e auxiliar as forças que já entraram em combate com o inimigo. A 306° precisa manter o avanço continuo para assegurar a segurança desse ponto de desembarque. Nós da 6° divisão estamos indo lá para auxiliá-los com todos os meios possíveis. Lá embaixo será finalmente nosso batismo de fogo. Após alguns minutos curtos de silêncio desanimador o computador central da cápsula emite um alarme sonoro e libera as câmeras externas, me dando uma visão completa na cabine, onde cada parte do interior se ilumina com segmentos de imagem dos pods vizinhos e das grossas nuvens abaixo de nós. As grandes e pesadas travas de segurança abaixam e prendem com força no centro de gravidade do traje como num carrinho de montanha russa. Uma contagem de dez segundos é exibida em primeiro plano em todas as telas. Agora eu tenho uma certeza bastante precisa, nunca estive com tanto medo. - Preparar!! - Grita ensandecida a Tenente Kira através do canal geral de comunicação. A contagem começa. T-00:10, Porra. T-00:09, T-00:08, Tento pensar em coisas alegres ou relaxantes enquanto o maldito cronômetro rouba os últimos segundos de minha antiga existência segura. Ele não tem culpa por aquela merda toda, talvez só eu tenha, pois a decisão foi minha, e só minha. Está na hora de começar pagar essa passagem. T-00:07, Preciso relaxar. Urgente. Mesmo tentando, a única coisa relaxante que consigo lembrar é dos primeiros dias do treinamento, quando conheci Biruta e as outras garotas. Forço um pouco a memória e tento lembrar de algumaparte de minha infância, lembrar de meu pai e daquele curto tempo feliz. De algum modo não consigo. Minha mente parece bagunçada demais, como se meus pensamentos estivessem rodando numa maquina de lavar. Agora estou tremendo dos pés a cabeça, suada como um porco e tentando não morrer sem ar dentro da armadura. Seria muita humilhação morrer assim? T-00:06, T-00:05, - Segura a onda Palito! Respira caralho! - Acho que era Biruta gritando pelo comunicador. T-00:04, Merda, merda, merda, merda... - Pensei. T-00:03, Algo metálico parece se soltar acima da cápsula, o som parece de alguma peça estranha dançando e batendo sem controle, aparentemente fora do lugar. Não acredito que entre mil soldados tive o azar de estar com um maldito pod quebrado. Merda. T-00:02, A tela central se ilumina em vermelho pouco convidativo.



!AVISO! FOI DETECTADA 01(UMA) FALHA DESCONHECIDA NO SISTEMA. GOSTARIA DE REALIZAR UM SCAN COMPLETO PARA DETERMINAR A NATUREZA DO PROBLEMA? INFO O SCAN LEVARÁ CERCA DE 01:00 (UM) MINUTO PARA CONCLUIR TODO O PROCEDIMENTO.

T-01, - Puta merda. Foi a única coisa que conseguir falar.

LANÇAR.

A força absurda dos propulsores quase me faz desmaiar assim que foram ativados. Um tremor intenso rapidamente toma conta de toda a cápsula. A compacta estrutura parece perder todo peso em um segundo, dando a impressão que vai se espatifar com uma facilidade assombrosa numa nuvem de destroços fumegantes feito confete queimado. Mas o pod avança incólume, alheio ao meu medo, cortando o ar e caindo com uma massa perigosamente veloz em direção ao solo. Tudo deveria estar bem, mas infelizmente o computador tá me sacaneando. Todo o interior trepida como vara verde. Meu coração parece que vai explodir a qualquer momento. Por algum motivo o computador resolveu iniciar automaticamente uma varredura completa de sistemas, isso enquanto caímos a centenas de quilômetros por hora sem navegação alguma.Eu sinceramente não sei se isso é bom ou ruim. Para meu azar todas as câmeras se foram. Aparentemente ele se reiniciou para acelerar o processo. Estou totalmente no escuro agora, e isso com toda certeza é ruim. Sinto a cápsula caindo sem controle nenhum e quase choro em desespero. Desespero é a palavra que define com folga esse momento. Um áudio corta meu comunicador. É a tenente Kira. - Que porra é essa soldado Palito? Está indo para o lado errado droga. - O sistema do meu pod caiu senhor! - Só podia ser você! - O que eu faço?! Perguntei num tom autêntico de pânico. - O que aconteceu?! - Ele encontrou um erro, travou no lançamento e se reiniciou sozinho! - Use um comando vocal para cancelar o modo de scan e ative o modo de emergência! - Não consigo, está tudo desligado! Estou cega aqui. - Mas que merda palito! Então você vai ter fazer do jeito antigo! Juro que por um momento tentei entender a frase. - Jeito antigo? - Perguntei sem ter noção do que ela dizia. Mesmo sendo uma aluna aplicada da academia e lendo o manual do pod de trás pra frente eu nuca tinha visto um capítulo ou tópico ensinando a reativar um pod em queda do “jeito antigo”. Pelo menos não que me lembrasse. - É, porra! - E como eu faço isso! - Diminui a força da perna direita do traje pra 9% e chuta a tampa do computador central!! - O que?! - Faz isso logo caralho!! Sem pestanejar ativo o comando para minha IA diminuir a força da armadura e golpeio a caixa blindada que protege o pequeno computador. O golpe sai de mal jeito, talvez porque estou com medo fudido de ferrar todo o sistema em vez de reativá-lo. Bato novamente mirando melhor, mas nada acontece. Agora estou totalmente borrada de medo, não faço idéia de quanto o pod já desceu. Chuto nervosa mais algumas vezes e nada. - Então Palito? - Não, não... - O que foi?! - Não está funcionando! - Chuta essa merda agora! Chuto uma última vez, agora com um tipo de raiva genuína misturada com medo autêntico. O golpe acerta em cheio o centro da blindagem, enfiando a placa amassada alguns centímetros dentro da estrutura que por sua vez solta um pouco de fumaça branca acompanhada de um ruído elétrico pouco reconfortante. Merda. Acho que fodi tudo.



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