Carnal



Ele nunca gostou do seu nome, sempre achou feio e de mau gosto. Sua mãe registrou-o como Charles Lindbergh Ferreira da Silva. Tirou-o de uma revista que tinha uma reportagem sobre aviação e vivia falando para todo mundo que achava lindo o nome de seu filho.


Quando nasceu ele não chorou e demorou em pegar o peito da mãe. Custou a andar e parecia que nunca ia falar, mas terminou falando e quase não se percebiam palavras pronunciadas erradamente por ele.


Havia sido uma criança estranha e cheia de comportamentos esquisitos. Gostava de brincar de se enforcar, a sensação de sufocamento provocava-lhe prazer. Abria rãs com a lâmina de barbear de seu pai, sedava gatos com clorofórmio para em seguida eviscerá-los. Poucas vezes brincava com outras crianças já que muitas mães tinham receio que seus filhos brincassem com ele.


Contava seis anos de idade quando certa noite acordou, tossindo que estava, e foi até o quarto de seus pais. Ainda na porta parou surpreso com os gemidos e sussurros que escutava. Ficou escondido vendo aquilo. Inicialmente achou que estivessem brigando, mas percebeu que, de alguma maneira, eles gostavam daquela coisa.


Em pouco tempo descobriu que era bom ficar escondido olhando eles fazerem sexo. O jogo dos corpos nus e os sons, tudo isso lhe fascinava e causava um incrível prazer. Saber que eles desconheciam estar sendo observados só aumentava o seu regozijo e fornecia-lhe uma estranha sensação de poder.


Observar secretamente seus pais foi apenas o início.

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Aos dez anos aconteceu um fato que iria marcá-lo para sempre. Começou com uma simples febre e dor de cabeça. Em duas semanas o que parecia ser apenas uma forte gripe evoluiu para a perda dos reflexos e fraqueza muscular. Charles Lindbergh desenvolvera poliomielite. Tudo porque sua mãe não o levou para receber a vacina.


Passou a andar de muletas, pois sua perna esquerda ficou atrofiada.


Os primeiros momentos foram um tormento, pois sofria muito com as gozações dos outros meninos. Na escola apelidaram-no de “muletinha” e “aleijadinho”, de vez em quando era empurrado, recebia tapas na cabeça e sempre era alvo de alguma pilhéria.


Tudo isso só parou quando quebrou o nariz de um dos meninos com a sua muleta.


Cresceu com raiva de seu nome, de sua mã8e e da sua condição física.


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Contava agora trinta e sete anos e estava ficando levemente calvo, possuía um tórax forte e braços musculosos por causa do uso contínuo das muletas. Ninguém o chamava mais de “muletinha” e sim de “seu Charles”, o que, em sua opinião, era apenas um pouco melhor.


Trabalhava como bibliotecário em uma universidade pública. Ele gostava do seu trabalho. Catalogar, registrar livros e revistas, manter equipamentos de áudio e vídeo, atualizar sistemas de informática e etc. Era um trabalho que fazia com prazer e que, de alguma maneira, combinava com ele.


Certo dia em sua mesa de trabalho ao levantar os olhos percebeu uma moça de costas procurando um lugar para sentar. Magra, corpo bem talhado, bunda arrebitada, vestida de maneira simples. Imediatamente seus sentidos ficaram em alerta. Não conseguiu ver-lhe direito o rosto, pois esta sentou de costas para ele. Estava já há alguns minutos observando-a quando alguém o chamou e teve que se ausentar. Quando retornou não a viu mais.


Outro dia de trabalho e, para sua surpresa, sentada em uma das mesas de estudo, lá estava a mesma moça de dois dias atrás.


Nesse momento sentiu algo lhe percorrer o corpo. A antiga curiosidade mórbida surgiu novamente. Sentiu arrepios quando os pensamentos e desejos antigos surgiram novamente.


Algo que sempre estivera latente retornara...


Nessa noite masturbou-se intensamente pensando na moça da biblioteca.


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Descobriu que seu nome era Renata, tinha vinte anos e fazia o segundo ano de comunicação social. Um belo nome em uma bela mulher. Percebeu que ela era estudiosa já que pelo menos três vezes na semana ficava estudando na biblioteca.


Charles Lindenbergh passou a admirá-la. Pequenos detalhes não lhe passavam despercebidos, o fato de ela não usar adereços como brincos e cordões e possuir uma pequena pinta vermelha em um dos braços o deixavam fascinado.


Passava o dia inteiro na expectativa que ela viesse estudar na biblioteca. Quando ela não aparecia sentia-se triste e com raiva.


Uma vez tentou segui-la através do corredor de um dos pavilhões de aula, mas ela andava bem mais rápido que ele e terminou ficando para trás. Odiou-a nesse instante e maldisse sua mãe juntamente com as muletas que sempre o faziam lembrar que ele era um aleijado.


Nessa noite imaginou que um dia ele abriria a barriga dela exatamente como fazia com os gatos na sua infância.


Quando ia dormir à noite ficava imaginando-a de todo jeito. Por sua mente passavam as mais diversas situações: Renata beijando-o, chamando-o de “muletinha”, sendo penetrada com força por ele, sendo estrangulada por ele...


Pensamentos mórbidos, de desejo e violência habitavam sua mente todas as vezes que pensava na moça da biblioteca. Como seria pegar um estilete e ver o terror em seus olhos ao saber que seria esviscerada em poucos segundos? Como seria sentir-se desejado por aquela mulher? Ele gozando e sentindo-se enforcado por ela... Miríades de coisas inomináveis habitavam os lugares mais recônditos do seu ser.


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Aquela mulher jovem despertava-lhe coisas! Seria capaz de passar horas seguindo-a, descobrindo o que ela fazia em seu cotidiano. Certa vez viu-a pegando um ônibus, seguiu-a em seu carro adaptado para deficientes. Descobriu que ela não morava muito longe da universidade.


Viu quando ela ficou conversando com uma amiga na porta de sua casa. De dentro do carro admirou-a. Observou a graciosidade de seus movimentos e a beleza cada vez maior que ela adquiria aos seus olhos. Deixando-se levar por um desejo cada vez mais anômalo masturbou-se ali mesmo.


Decidiu quede alguma forma ela lhe pertenceria para sempre. Ela não precisaria sequer saber da existência dele, mas ele a teria de qualquer maneira.


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Em seu quarto passou uma corda por cima da viga do teto. Olhou ao redor e um leve frêmito sacudiu-lhe o corpo. Uma expectativa com gosto de mel e fel varria-lhe o espírito. Desejos de vida e morte entorpeciam a sua mente. Já antevia o prazer que iria escorrer de si.


Fechou os olhos e pronunciou o nome daquela que lhe fascinava


Masturbou-se alucinadamente e, junto com os espasmos do orgasmo, deixou a corda finamente apertar o seu pescoço até o final...

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