Catarina

Foi como perder um membro da família. Pedro, ou Seu Pedro como eu o chamava, era o funcionário mais antigo da oficina mecânica do meu pai e já trabalhava ali desde quando a oficina ainda era só um pequeno negócio na garagem do meu avô. Ele esteve ao lado da minha família desde o começo e seus braços fortes e mãos calejadas ajudaram a construir a confortável situação financeira em que vivíamos e, de certa forma, eu sempre me senti grato a ele por isso.

Seu Pedro era um homem sério e quieto, apesar disso tinha olhos extremamente bondosos. Fazia suas refeições sempre sozinho e eu acreditava que era assim por causa da grande diferença de idade entre ele e os demais funcionários do meu pai, já que, apesar de forte e saudável, ele beirava os 70 anos. Seu uniforme e suas mãos estavam sempre impecavelmente limpos. A marmita em que levava suas refeições era perfeitamente arrumada, os alimentos separados, sem se misturar. Ele nunca havia se atrasado. Nunca havia faltado a um dia de trabalho. Nunca causara qualquer transtorno ou chateação para meu pai ou para meu avô antes dele.

Meu pai dizia que o Seu Pedro havia perdido o pai muito cedo, quando ainda era uma criança, e que sua mãe havia falecido quando ele tinha apenas dezesseis anos. Na época, ele já trabalhava na oficina e meu avô, preocupado com aquele garoto sem família que passaria a viver sozinho no sítio que ficava muito afastado da cidade, convidou-o para morar no quartinho que ficava nos fundos da oficina, mas ele recusou com educação e explicou que, apesar das muitas ofertas que vinha recebendo para vender as terras que havia herdado, não iria deixar aquela casa onde tinha passado sua infância ao lado da mãe e que mesmo sendo um apaixonado por automóveis, ele era, em sua essência, um homem do campo.

Apesar de sua recusa meu avô volta e meia fazia novamente a oferta, outras vezes convidava Seu Pedro para almoçar ou jantar em sua casa, para passar um sábado ou um feriado com sua família, mas ele sempre agradecia e recusava.

Poucos meses depois do falecimento de sua mãe, meu avô foi surpreendido com uma notícia que aliviou suas preocupações. O seu jovem funcionário havia se casado com Catarina, uma prima distante. Ele explicou que não havia feito festa nem convidado ninguém a pedido da noiva que era extremamente tímida e que sofria de algo que ele chamava de “o problema de Catarina” que a impedia de sair de casa. Apesar de achar aquilo estranho, meu avô aceitou as explicações de Seu Pedro e ficou feliz porque agora ele poderia formar uma família.

Nenhum de nós, meu avô, meu pai ou eu, viu Dona Catarina alguma vez, mas ela sempre esteve presente em nossas vidas de alguma forma, seja pelos doces caseiros que nos mandava, pelos trabalhos de costura, crochê e tricô que ela fazia para minha mãe ou pelos bolos que ela preparava no dia do aniversário de cada um de nós e que nunca deixou de mandar por todos aqueles anos e que nós esperávamos com ansiedade, pois eram simplesmente deliciosos.

Meu avô e mais tarde meu pai tentaram por diversas vezes abordar a questão do “problema de Catarina”, pois acreditavam que se se tratasse de algum problema de saúde, poderiam ajudá-la, mas sempre que esse assunto era mencionado Seu Pedro ficava extremamente nervoso e dizia que preferia não falar sobre aquilo, que Catarina viva em paz e que ela não queria incomodar ninguém. Em respeito àquelas duas pessoas que toda nossa família havia aprendido a amar, o assunto acabou sendo deixado de lado até ser esquecido.

Não foram poucas as ocasiões em que eu ouvi os funcionários de meu pai zombando de Seu Pedro por ele ser sempre tão cuidadoso e perfeccionista, o chamavam de nomes que eu só vim a entender o significado quando cresci. Outras vezes ouvia-os dizendo que a tal da Dona Catarina só podia ser deformada ou monstruosa, por isso nunca era vista em público. Todos aqueles comentários me magoavam, pois para mim Seu Pedro era como um avô e Dona Catarina era como um anjo envolto em uma bruma de mistério e não uma criatura desfigurada como eles diziam.

Todo ano, no dia 07 de novembro, aniversário de Dona Catarina, meus pais – e meu avô e avó antes deles -, lhe mandava flores e algum pequeno mimo, um perfume, um sabonete, um creme para as mãos. Nessas ocasiões, a emoção transparecia nos olhos de Seu Pedro, e ele agradecia como se aquele agrado fosse para ele próprio.

Nunca vou me esquecer do dia em que eles completaram quarenta anos de casamento e minha avó presenteou Dona Catarina com um fino colar de ouro acompanhado de um delicado pingente de coração com as iniciais do casal gravadas. Aquele pequeno gesto de carinho fez Seu Pedro derrubar algumas lágrimas de emoção.

Aquelas lembranças tornavam ainda mais difícil a missão que me havia sido incumbida naquela manhã. Eu não só teria que enfrentar o “problema de Catarina”, como teria que olhar nos olhos daquela mulher que cozia minhas roupas e preparava os bolos no meu aniversário e que, apesar de nunca ter me visto pessoalmente, conhecia todos os meus gostos e, então, teria que lhe dizer que seu marido tinha sofrido um ataque cardíaco e que apesar do socorro ter chegado rápido infelizmente ele não havia resistido e acabou falecendo no chão da oficina de meu pai.

Enquanto eu dirigia pela longa e tortuosa estrada de terra que levava ao sítio do Seu Pedro, não conseguia parar de pensar naquela senhora cuja imagem eu havia criado em minha mente e que agora, assim como acontecera com seu marido tantos anos antes, passaria a viver sozinha naquele canto esquecido do mundo. Eles não tiveram filhos e, pelo que nós sabíamos, não havia restado qualquer parente ou membro da família vivo. Pensei que talvez ela aceitasse viver com a gente. Mesmo sem consultar meus pais sobre isso, decidi que faria a oferta assim que desse a notícia devastadora, afinal, morávamos numa casa imensa que tinha espaço suficiente para mais uma moradora.

Quando o GPS do carro informou que estávamos a poucos minutos do meu destino, senti uma já conhecida crise de ansiedade tomar conta de mim a ponto de me fazer sentir náuseas. De repente, pensamentos horríveis invadiram minha mente. A visão de Dona Catarina como uma mulher deformada me dominou, vi um rosto destruído por queimaduras profundas, rasgado por um buraco negro no lugar do nariz, os globos oculares vazios, os dentes pontiagudos como de um ser macabro. Sem muito sucesso, tentei afastar aquelas imagens assim que avistei a propriedade no fim da estrada.

Cheguei àquela casa cujas paredes eram caiadas de branco e as janelas e portas eram emoldurada por batentes azuis. Na entrada um pequeno jardim protegido por uma mureta baixa estava forrado por roseiras que floresciam podadas à perfeição. Atravessei o pequeno portão que também era feito de madeira azul e me aproximei da porta com a sensação de estar invadindo aquela vida que Seu Pedro se esforçara tanto para manter privada a fim de proteger sua esposa de um mundo intolerante e cínico e de estar desrespeitando sua memória. Respirei fundo e dei três batidas leves com o nó dos dedos na porta.

- Dona Catarina, sou eu, o André, filho do Paulo da oficina... posso falar com a senhora um minuto? - falei me aproximando o máximo que pude da porta.

A casa permaneceu em silêncio por vários minutos, então bati novamente, agora com mais força e chamei Dona Catarina, pedindo desculpas por estar ali sem ser convidado e explicando que precisava falar com ela sobre o Seu Pedro e que o que eu tinha para dizer era realmente muito importante. O silêncio continuou.

Fazendo sombra com a mão em concha, olhei para o interior da casa através do vidro do vidro transparente da janela encoberto por uma cortina branca de crochê e como não havia qualquer movimento pensei em voltar para casa, no fundo era isso o que eu mais queria, não ter que enfrentar aquela situação, entretanto, minha consciência me disse que minha covardia certamente decepcionaria Seu Pedro e eu não queria isso.

Eu não poderia ficar ali esperando para sempre, o caminho de volta para casa era longo e àquela hora e meus pais precisariam de minha ajuda com os preparativos do velório. Eu não queria perder a chance de me despedir do Seu Pedro e estava certo de que Dona Catarina tinha o direito de decidir se iria ou não enfrentar o seu “problema” para dar o último adeus a seu esposo, então tomei coragem e decidi entrar na casa e procurar por Dona Catarina. Era provável que ela levasse um grande susto ao me ver lá dentro, mas me talvez me perdoasse assim que entendesse porque eu estava lá.

Empurrei a porta com cuidado e quando ela se abriu com facilidade me deparei com uma sala bem iluminada pela luz natural que entrava pelas janelas e com um piso de madeira muito lustroso. Tudo ali estava em perfeita ordem. Um sofá extremamente aconchegante e coberto por uma manta de retalhos coloridos descansava próximo a uma pequena lareira, à sua frente havia uma cadeira de balanço e ao seu lado um pequeno cesto de vime continha alguns novelos de lã bem organizados.

A perfeição intocada do lugar me causou um calafrio e eu estremeci diante da total ausência de vida que reinava ali. Atravessei a dala e dei alguns passos em direção ao corredor que levava para o interior da casa, chamei por Dona Catarina diversas vezes, sem obter resposta.

Caminhei com cuidado observando as fotografias em sépia que cobriam as paredes, a maior delas era a imagem de um homem de bigode postado logo atrás de uma mulher franzina com um bebê no colo. Reconheci os mesmos rostos nas demais fotografias que pareciam marcar o passar dos anos e o crescimento daquele bebê. Algumas imagens depois, quando o bebê já se tornara um menino de cinco ou seis anos, notei a falta do homem de bigode. A partir dai, apenas a mulher franzina aparecia nas fotos, seu cabelo longo trançado nas costas olhando orgulhosa para o filho que crescia, até que, a última foto mostrava um jovem por volta de seus dezesseis anos ao lado de um caixão, onde uma mulher de meia-idade repousava. Conclui que aquela era imagem do Seu Pedro velando sua mãe, o que era extremamente bizarro.

O ar de museu que dominava a casa e aquela fotografia sinistra serviram para aumentar a inquietação que vinha sentindo e a expectativa de encontrar Dona Catarina face-a-face pela primeira vez embrulhou meu estomago.

Continuei pelo corredor e passei por um cômodo que tinha a porta aberta e que reconheci como sendo o quarto do casal. A mobília de mogno escuro parecia ser muito antiga, contudo, assim como o resto da casa, estava em perfeito estado me fazendo mais uma vez pensar em um museu. Reconheci o toque delicado de Dona Catarina na colcha de linha clara que protegia o colchão de molas, mas como também não havia ninguém ali, continuei minha busca.

Deduzi que o cômodo em frente ao quarto era a sala de costura de Dona Catarina, pois ali havia uma máquina de costura, vários tecidos floridos dobrados e colocados um em cima do outro e, num canto, de um daqueles manequins de outros tempos que eram feitos com filetes de ferro e que reproduziam apenas o contorno do torço feminino, um vestido leve de verão quase finalizado pendia. Conclui que Dona Catarina cozia para outras famílias além da minha, já que aquele vestido tinha sido feito para um corpo de proporções perfeitas, silhueta que, certamente, ela já não possuía mais.

Como Dona Catarina não estava na sala de costura, continuei caminhando e cheguei a cozinha onde a imaginei fazendo os bolos e doces da minha infância. Não havia ninguém ali e aquela ausência persistente me fez imaginar que ela poderia teria saído, apesar de isso ser improvável tanto por conta do seu problema, quanto pela distância que aquela casa ficava da cidade ou de qualquer outra coisa.

Parei por alguns minutos tentando decidir o que fazer enquanto me deliciava com o aroma de café recém moído que dominava o lugar. Olhei ao redor e mais uma vez a sensação de que aquele ambiente perfeito tinha um quê de artificialidade e de falta de vida tomou conta de mim, a ansiedade me invadindo com força e me fazendo suar.

Fiquei extremamente aliviado quando olhei pela janela da cozinha que dava para o quintal e vi uma pessoa sentada em uma espreguiçadeira branca sob a sombra de uma árvore muito frondosa há uma dezena de metros dali. Só podia ser Dona Catarina que talvez tivesse pegado no sono e por isso não me ouvira chamar e quando saí para o quintal senti todo o peso da responsabilidade por estar ali para trazer a notícia que faria seu mundo ruir e a tiraria daquela paz.

Dona Catarina estava sentada de costas para mim fitando a paisagem à sua frente, sua postura era extremamente ereta e àquela distância não identifiquei qualquer deformidade ou deficiência física, notei seu cabelo longo e castanho que caia trançado às suas costas e ao me aproximar percebi que não havia sequer um fio de cabelo branco ali. Mais uma vez toda aquela perfeição me desconcertou.

- Dona Catarina - chamei, mas ela não se virou. A ansiedade me dominou e, para acabar com aquele suspense, acelerei os passos e me coloquei de frente com ela.

Fitei aqueles olhos vítreos e azuis da cor do céu, o colar que fora presente de minha avó pendendo de seu pescoço, o vestido de corte delicado vestindo aquela silhueta perfeita de moça, a boca delineada e vermelha, o rosto de traços perfeitos, a pele feita de porcelana.

Levou alguns segundos até que uma profunda tristeza tomou conta de mim ao compreender o que todos aqueles anos de segredo significavam. Aquela, ou melhor, aquilo era Dona Catarina. E meu assombro se transformou em desespero quando, enquanto, eu tentava digerir o fato de que a vida de Seu Pedro tinha sido uma grande mentira que nós não tivemos a capacidade de perceber tive a absoluta certeza de ver aqueles olhos de boneca sem vida piscar.

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