Comida aos pombos


O homem sentou-se naquele banco de praça com uma leveza e graciosidade que lembrava os pombos que regularmente vinham comer na mão das pessoas.


Sua cabeça estava repleta de pensamentos dispersos e sombrios. Suas pernas estavam cruzadas de maneira displicente como se governassem a si próprias. Tirou do bolso um maço de cigarros já meio amassado e acendeu um. Fumou o cigarro até a metade e jogou-o fora.


Um céu cinzento espalha-se pelo horizonte. Sua mente está dispersa, mas este se encontra tranquilo. Sim, ele está estranhamente calmo para alguém que acabara de matar uma pessoa.


“Daqui há algumas horas vão descobrir que eu a matei”, pensava isso enquanto observava uma senhora passar de mãos dadas com dois garotinhos sardentos. “O que será que vai acontecer comigo? Mais de trinta anos de casamento... Ela estava sofrendo. Eu não tenho culpa se a estrangulei e estou aqui sentado neste banco de praça”.


Esses pensamentos assolavam sua mente enquanto observava um dos garotos sardentos soltar-se das mãos da senhora e pular dentro do chafariz da praça.


Enquanto jogava farelo de pão para os pombos imaginava a manchete do jornal no dia seguinte: MARIDO MATA ESPOSA E DEPOIS VAI DAR DE COMER AOS POMBOS NA PRAÇA. Amanhã as pessoas dirão coisas como “meu Deus, não é possível, eles viviam um para o outro” ou então “eu sabia que ele não prestava mesmo”.


Estava nesses pensamentos quando passou uma carrocinha de pipoca e um rapaz comprou uma para a moça que estava ao seu lado. O homem sentado no banco da praça olhou-os, viu que o rapaz era mais baixo que a moça, deu uma tragada no cigarro e jogou-o fora ainda pela metade.


O homem no banco da praça achou que a tarde estava passando muito lentamente.


Seus pensamentos flutuavam de tal forma que ele evitava encarar o que havia cometido. “Quando eu era garoto não existiam tantas praças assim, mas, em compensação, nós tínhamos mais áreas para brincar”. “Hoje as pessoas parecem ter menos lugares onde passear e brincar ao ar livre”.


Aproveitou para acender um outro cigarro. “ A culpa é dessa urbanização desenfreada que engole todos os espaços verdes. É só prédio e mais prédio”


Já tinha conjecturado sobre reflorestamento e uma possível volta das pessoas para a natureza quando foi interpelado rispidamente por dois policiais.


- O senhor é ...? Que mora na rua ... número ...?


Com uma voz baixa e levemente rouca o homem no banco da praça confirmou aos policiais ser a pessoa que eles procuravam.


- O senhor está sendo acusado de ter assassinado sua esposa. Levante-se! O senhor vai conosco até a delegacia e é melhor não bancar o engraçadinho.


O homem sentado no banco da praça olhou para os dois policiais de maneira um tanto quanto triste. Observou que os dois garotinhos sardentos corriam com a senhora atrás deles. Deu uma longa tragada em seu cigarro e jogou-o fora ainda pela metade.


Com um suspiro de resignação o homem levantou-se e foi embora com os policiais. Já tinha andado alguns metros quando olhou para trás e viu que os pombos tinham ido embora.

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