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Consolação

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****De primeiro, a esse horário, em qualquer parte sempre se ouvia zoada de criança brincando, ocupando a rua inteira. Hoje não se ouve nada se não o burburinho das casas acuadas à beira das ruas.

****João chegou desconfiado da luz. Há quanto tempo não chegava em casa cedo, ainda com a luz do sol? Reparou nas luzes alaranjadas que salpicavam as paredes. Entrou dentro de casa como se tivesse esquecido qualquer coisa lá fora. E como não tinha nada bom para dizer, inventou alguma boa notícia:

****—Hoje meu patrão elogiou meu trabalho, ficou tão satisfeito com meu desempenho que me deu até um abraço.

****— Sério? — Ela parecia mesmo impressionada, embora fingisse — não era sem tempo, você dá alma pela empresa.

****Ele encheu-se de orgulho até o limite da humildade e depois lembrou-se da verdade.

****— É por isso que está em casa tão cedo? — Perguntou ela.

****— É aquela dor no peito de novo.

****— Isso é só fadiga, nadica de mais. Já já passa.

****— Ele me liberou hoje e amanhã... o dia todo.

****— Que bom. Abra a boca...

****— Oi?

****— O menino. Não quer comer de jeito nenhum. — Voltada para o menino — Abra a boca, meu filho!

****— Ah, sim... — compreendeu ele que a conversa fugia e se escondia em algum lugar detrás da indiferença ou do costume. Varreu toda a lembrança do dia em busca de um assunto, de uma novidade. Na falta, inventou outra qualquer boa notícia:

****— Finalmente colocaram um pardal na BR, na parte que ajeitaram, — qualquer faixa de asfalto era BRagora quem quiser passar voando por cima dos pedestres vai ter que se ver com a lei.

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****Ela continuou dando comida ao menino que relutava, meneando a cabeça sem ouvir o que ele dizia. Ele sentou-se no sofá e reclamou qualquer coisa enquanto tirava os sapatos, levantou-se, foi até o quarto, escancarou as janelas na busca pelo resto de luz que rareava no céu, deitou-se na cama, fechou os olhos e o negrume que viu dentro de si se encheu de muitas cores e brilhos que queimaram sua retina com a lembrança da luz da tarde que há muito tempo não via. Lembrou-se dele menino naquelas horas, sua mãe o chamando para entrar, o cheiro de temperos que tomavam o tempo todo finzinho de dia. Perdeu-se por um momento da dor que sentia desde ontem e experimentou um pingo de paz na cabeça, principalmente nos olhos, e suspirou alto.

****— Falou alguma coisa, querido? — Perguntou ela da sala.

****— Sim. — Disse ele em paz.

****— O quê?

****— Que vão todos ao caralho!

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