• Elisa Ribeiro

Curumim

Era meu quadragésimo segundo dia naquela casa no meio do nada. Ou melhor, no meio da floresta amazônica, a cento e oitenta quilômetros – seis horas num quatro por quatro ou doze de barco – da cidade mais próxima. Eu contava os dias desenhando heptágonos no quadro branco preso à parede do escritório. Havia completado o sexto. Treze semanas era o tempo que eu passaria ali sozinho. Sete heptágonos completos me faltavam.


Só e desconectado. Sem telefone ou internet, eu contava apenas com um rádio no alto de uma torre de observação a oitocentos metros da casa. De cima dela, avistava-se toda a propriedade, cerca de cento e cinquenta hectares de rios e mata alta fechada. Pelo rádio, tinha que fazer reportes a cada dois dias. Era a forma de os meus patrões saberem que eu continuava vivo. Eles haviam dito também que o rádio estava lá para eu pedir ajuda em caso de acidente, doença ou invasão da propriedade. Pensei – mas não falei nada – que, se estivesse doente mesmo, não conseguiria andar oitocentos metros por uma picada fechada e subir mais de cem degraus por uma escada rudimentar. Mas era minha primeira oportunidade de emprego, os caras pagavam bem e, convenhamos, eu não tinha que fazer absolutamente nada. Apenas suportar a solidão.


Meu trabalho era tomar conta da fazenda durante o período das chuvas, época em que a extração de madeira ficava paralisada. Eu era como uma versão tropical do Jack Nicholson em “O Iluminado”, só que ainda mais isolado e numa situação bem menos glamourosa. Em vez de gelo, neve, labirintos e corredores infindáveis, eu tinha o calor sufocante da selva, uma casa simplória, insetos assustadores e, o pior tormento, uma situação de quase absoluta incomunicabilidade.


Meus companheiros eram dois vira-latas, Paco e Manolo. Chamei os dois para um mergulho antes do almoço. Desde a noite passada não chovia e de manhã o sol tinha dado as caras depois de três dias de chuva pesada. Eram cerca de quinhentos metros por uma trilha no meio da mata até a margem onde o rio, na cheia, tomava a forma de um lago. O calor parecia ter peso, comprimia, deprimia, sufocava.


Menino da cidade, eu no começo morria de medo de tomar banho no rio. Água escura, peixes me mordiscando, cobras e jacarés à espreita, sorrateiros, aguardando o momento de me abocanhar, eu imaginava. Mas àquela altura eu já estava mais que acostumado, e nadar ali havia se tornado o ponto alto das minhas semanas tediosas e solitárias.


Enquanto me banhava naquelas águas turvas e malcheirosas, percebi um movimento no outro lado da margem. Interrompi a brincadeira de atirar galhos para os cães e avistei um garotinho sentado sobre um tronco, balançando as pernas, meio escondido atrás das árvores alagadas. Já fora d´água, examinei a cena com o binóculo. O garoto estava sozinho. Tinha o rosto contorcido, parecia que chorava.


Era a primeira vez que eu via um ser humano desde que os caras da fazenda tinham me deixado na casa. Mesmo sendo eu um nadador precário, meu lado gregário me impeliu de volta ao rio para atravessá-lo. A criança me interessava pouco, mas ela certamente tinha pai, mãe, tios, irmãos, pessoas com quem eu poderia interagir, trocar uma ou duas palavras.


O garoto de fato chorava e me contou que os pais e o irmão estavam mortos. Apontou a direção de sua casa, pedi que ele me guiasse até lá. Andamos uns duzentos metros até uma casinha pequena, muito parecida com a minha, com uma roça e um galinheiro ao lado. Disse a ele que me esperasse e entrei sozinho. Num dos cômodos que servia de quarto encontrei uma cama encharcada de sangue e um casal com a garganta cortada. Ao lado, um bebezinho também morto, com a boca e o nariz arroxeados.


Fiquei atordoado, sem saber o que fazer. Enterrar os corpos foi a primeira coisa que me veio à mente, mas havia o menino. O mais acertado era afastá-lo o quanto antes daquele ambiente de barbárie. Também não seria prudente mexer na cena do crime. E, sendo bem objetivo, eu não me sentia disposto a manejar cadáveres. Priorizei o menino e, aliviado, dei as costas para aquele cenário de brutalidade, abandonando a casa.


Lá fora o indiozinho me aguardava. Até que ele era ajeitadinho. Tinha um cabelo de franja, castanho, e o corpinho forte e torneado. Parecia a miniatura de um atleta. Aparentava ter cinco ou seis anos. Eu não tinha nenhuma opção a não ser levá-lo comigo. Perguntei se ele sabia nadar e expliquei que teríamos de atravessar o rio até o outro lado, onde ficava a minha casa.


Meu nado era tosco e, com o menino preso a mim, ficava ainda pior. Embora avançássemos lentamente, eu e o guri parecíamos estar nos entendendo bem. Mas, quando faltava menos de um terço para chegar à margem, o garoto surtou, começou a se debater, a me arranhar e se agarrou ao meu pescoço de um jeito que quase não me deixava respirar. O instinto me fez agir rápido. Afastei-o com um safanão. O guri afundou como se alguma coisa o puxasse para baixo. Eu não era exatamente malvado, mas aquele moleque não acrescentaria nada à minha vida, ao contrário, só me daria trabalho. Confesso também que senti um arrepio lembrando as dezenas de histórias de boto, cobra gigante e sereia que tinham me contado desde a minha chegada àquela Amazônia misteriosa e selvagem. De modo que não movi uma palha para evitar o afogamento do garoto.


Cheguei à margem exausto, me sentindo um covarde de merda. Deitei de barriga pra cima e fechei os olhos antes de iniciar a caminhada de volta pra casa. Paco e Manolo continuaram do jeito que estavam, me esperando, modorrentos, deitados na beira d´água.


Despertei com os cachorros rosnando. Ao abrir os olhos, o indiozinho sorria, os dois dentes da frente faltando, ajoelhado ao meu lado.


“Um pexe mi trusse na margi”, foi o que ele contou no caminho de casa.


Depois que chegamos, mandei o menino se lavar enquanto eu preparava um almoço ligeiro. Já à mesa da sala, perguntei o que ele queria beber – água, guaraná ou limonada.


“Eu queru cachaça”, foi a resposta que ouvi, acompanhada de um riso meio debochado.


Havia uma garrafa de pinga no móvel bem em frente ao lugar onde o garoto estava sentado. Pensei que ele talvez estivesse acostumado a ver o pai beber, mas, de qualquer maneira, achei a resposta e o sorriso muito estranhos para um guri que tinha acabado de perder a família e quase morrido afogado.


Tudo naquele garoto me inquietava, principalmente o fato de ele não demonstrar tristeza nem mencionar os familiares assassinados. Eu maldisse o tédio que me fizera atravessar o rio para encontrá-lo.


Por precaução, depois do almoço recolhi todas as facas que encontrei e guardei-as na prateleira mais alta do armário da cozinha enquanto o moleque se distraía no lado de fora da casa. Pensei em ir até a torre fazer um reporte para os patrões, mas estava morto de cansaço. Decidi me acomodar na rede da varanda acompanhado de um dos livros da faculdade que havia trazido na expectativa de aproveitar a pasmaceira daquele emprego para estudar e, quem sabe, conseguir um trabalho melhor. Adormeci vendo o guri brincar com as galinhas. Os cachorros por perto, com caras de poucos amigos, de olhos nele, a monitorá-lo.


Quando acordei, corri os olhos em torno e o garoto não estava. Fui encontrá-lo na cozinha escalando o armário, bem no momento em que ele havia alcançado a prateleira mais alta. Fiquei sem entender como aquele moleque chegara ali. Nenhuma cadeira ou banco tinha sido deslocado. Parecia que alguém o havia colocado ali ou que ele subira – como uma aranha, uma lagarta, um réptil, sei lá – pela superfície lisa da porta do armário. Tinha os pés apoiados em uma prateleira mais baixa e as mãozinhas na prateleira de cima, a mais alta, onde eu guardara as facas. Arranquei-o do armário e perguntei o que ele estava fazendo.


“Tava prucurandu uma faca pra matá uma galinha pra nóis cumê mais tardi.”


Eu nunca havia matado uma galinha. Tinha uma vaga lembrança da minha avó fazendo isso no sítio dos meus pais quando eu era da idade daquele curumim. Talvez movido pela perversidade que o indiozinho me inspirava, empreendi naquele fim de tarde, pela primeira vez na vida, o mister de assassinar uma galinha. Escolhi a mais parruda do galinheiro, segurei-a pela cabeça e a decapitei com um único golpe. Não tive sequer a elegância de poupar as outras penosas e os cachorros de assistir àquela crueldade. Quanto ao menino, ele gargalhou e bateu palmas ao ver o sangue escorrendo enquanto os pés e as asas da criatura degolada ainda se agitavam. Meu transe de violência só terminou quando estava acabando de depená-la. Senti enjoo e tontura e por pouco não precisei interromper a operação para dar uma vomitada.


Durante a janta, o mesmo enjoo não me permitiu comer praticamente nada. Já o menino devorou todo o peito, as sobrecoxas e ainda chupou o pescoço e os pés de uma maneira nojenta, narrando, com a boca cheia e lambuzada de gordura, sobre a vez que tinha visto uma galinha correndo sem cabeça depois de decapitada. Encerrado o jantar, separei os ossos e as asinhas para os cachorros, mas eles nem sequer os tocaram.


Foi por prudência que preferi botar o garoto para dormir no meu quarto, onde eu podia fechar a janela e manter a porta trancada. Fui deitar na rede da sala, com Paco e Manolo perto de mim. Ali não havia um ventilador de teto barulhento para abafar os sons apavorantes que emergiam da floresta após o sol baixar. Adormeci depois de muito me remexer, pensando no que fazer com aquele moleque estranho por mais quase cinquenta dias.


No dia seguinte eu precisava subir a torre para fazer contato com os patrões. Acordei cedo por causa do calor, moído por ter dormido na

rede e cansado por ter passado quase a noite inteira em claro. Saí para urinar do lado de fora. Essa primeira mijada, ao ar livre, era o único prazer genuíno que eu experimentava naquele fim de mundo miserável. Paco e Manolo me acompanharam.


Urinamos os três juntos, sincronizados em nossa masculinidade rasa. Cheguei a fechar os olhos por uns segundos para aproveitar o momento. Mas, ao abri-los, o susto chegou a interromper minha mijada. Próximo aos cachorros, na minha frente, o curuminzinho sacudia seu minipênis, alternando um olhar malicioso entre as minhas partes íntimas e a minha cara.


Como aquele guri tinha saído do quarto era a pergunta que eu me fazia ao entrar em casa. A porta continuava trancada por fora, como eu havia deixado. Entrei para examinar as janelas. A mais baixa, de duas folhas, ainda permanecia fechada, mas o basculante alto estava entreaberto. Só não consegui imaginar que raios ele havia feito para alcançá-lo. A única hipótese absurda que me ocorreu foi a de ele ter se transformado em algo como uma mariposa, ou um inseto qualquer com asas, para sair de lá.


Depois do café, tomei o rumo da torre para cumprir logo minha obrigação. Saí pelos fundos quando o moleque estava distraído na frente da casa. Segui sozinho pela trilha, coisa que, passadas seis semanas, ainda me atemorizava. Felizmente, mais à frente notei o Paco me seguindo de longe. Tomava conta de mim, um amigão. Parei até ele me alcançar.


Ter que subir naquela torre sempre me estressava. Tenho pânico de altura. O primeiro estágio precisava ser vencido com a ajuda de uma escada retrátil que ficava guardada no depósito, na base da torre. Eu tinha que retirá-la e estendê-la para subir. Com ela, chegava-se até um platô que ficava a uns seis metros do chão. O segundo estágio era uma escada de madeira, bem íngreme, na própria torre, que levava a um segundo platô, onde, por fim, havia uma escada de madeira e corda.


Subi resignado e apavorado. Era a vigésima segunda vez e eu ainda não havia me acostumado. Fiz meu reporte, mencionando a situação dos limites da fazenda, conferidos com o binóculo, a frequência e a intensidade das chuvas e o que eu tinha feito desde o último contato. Contei sobre o menino e meu chefe disse que eu havia agido corretamente ao trazê-lo para casa. Falou que avisaria a polícia florestal sobre as mortes, recomendou que eu me mantivesse alerta e lamentou haver retirado as armas de fogo da casa depois de o penúltimo engenheiro ambiental contratado se matar com uma delas. Não comentei sobre as esquisitices do guri nem falei que a menção ao suicídio de um antecessor meu quase me fez borrar as calças.


Descer era ainda pior que subir as escadas. Mesmo naquele calor abafado, eu suava frio. Parei um pouco para aliviar o estresse antes de começar a última fase, a mais tensa, pois a escada retrátil ficava solta. Desci o primeiro degrau com o pé direito, mas, quando fui pisar no de baixo, não achei nada. Descendo em queda livre, prestes a quebrar a cara no chão, tive a impressão de ver o cabelinho castanho-claro do curuminzinho próximo à base da torre e pensei: “Esse maldito empurrou a escada”. Depois só vi o chão coberto de folhas antes de apagar e não ver mais nada.


Despertei já quase noite com o Paco ganindo e me lambendo. Corri os dedos por minha cabeça e percebi que estava coberta de sangue. O ombro doeu muito quando tentei me mexer e o pé esquerdo tinha virado completamente para fora. Entrei em desespero, imaginando como seria passar a noite ali daquele jeito. Mesmo todo desconjuntado, não tive opção a não ser me pôr a caminho de casa.


Nunca vou ser capaz de explicar como consegui chegar, com o corpo todo estragado, me arrastando por aquela trilha que não passava de uma picada aberta no meio da mata fechada. Na varanda, ao lado da porta de entrada, vi o Manolo deitado. Estranhei ele não levantar para se juntar a mim e ao Paco. Ao me aproximar, notei uma poça de sangue em torno dele. Virei-o. O pescoço havia sido cortado. Gelei. Lembrei do casal da véspera e temi que minha hora tivesse chegado.


Ainda estava ao lado do Manolo quando vi o indiozinho sair de trás da porta de entrada segurando o facão mais afiado que havia na casa. Falei suavemente com ele: “Meu filho, abaixe isso”. O efeito foi contrário. Ele levantou a arma com as duas mãos e veio na minha direção. Paco voou sobre ele, derrubando-o no chão. Na queda, para se desvencilhar do cão, o moleque soltou a faca.


Arrastei-me como pude até alcançá-la. Em outra circunstância, jamais afundaria um facão na carne macia de uma criança. Mesmo todo quebrado, eu era bem mais forte, poderia apenas tê-lo imobilizado. Mas uma espécie de instinto violento, que eu até então desconhecia, me fez cravar a lâmina com força e torcê-la na barriga do garoto antes de retirá-la. Por Deus, não pensava em um segundo golpe, mas, ao ver os olhinhos oblíquos do menino e um sorriso maligno em sua boca banguela, rasguei-lhe a garganta de um lado a outro. Depois, chorei convulsivamente por um tempo, até desmaiar de dor, tristeza e cansaço.


Acordei só no quadragésimo sexto dia. Meus patrões me despertaram. Estranharam eu não ter feito contato na véspera, juntaram isso ao meu último relato e tomaram o rumo da casa. Enterraram o Manolo, mas disseram não haver sinal do menino, nem mesmo de seu sangue, dentro ou no entorno da casa.


Os patrões imobilizaram meu pé, me acomodaram no banco de trás do carro e rumaram para a cidade mais próxima. No caminho, não recordo de sentir fome, mas apenas muita sede, como se algo me queimasse por dentro. A sensação só passou depois que tomei um gole largo de cachaça.

0 visualização

© 2019 porandubarana. Orgulhosamente criado com Wix.com