Decisão do Indeciso

Havia tempo que ele caminhava sobre o MurO, não sabia pra qual lado deveria saltar.

Em cima do MurO ele ainda poderia se apegar à incerteza, se sentiria de certa forma seguro porque sem a decisão ele ainda teria as opções.

Mas seria impossível permanecer no MurO por mais tempo, o limite para ele já havia sido excedido desde que ele se deu ao luxo da própria subida no MurO. Ter feito isso apenas confirmou o que ele inutilmente vem tentando evitar, o que inutilmente vem tentando disfarçar, ele não quer encarar os fatos, sempre preferiu fugir, fugir e subir em MuroS é o que tem feito de melhor ao longo de muitos anos, dizem até que ele é bom nisso.

Só que dessa vez, enquanto de cima do MurO ele observa as possibilidades que o afligem, também vê coisas que somente agora se mostram diante de sua negação, coisas que antes ele pensou não serem nada a não ser o que não queria ver, o que ele se habituou a rejeitar agora sopra-lhe no rosto o asco de se olhar com os olhos que despem os disfarces. De cima do MurO agora ouvem-se lamentos misturados a sorrisos irônicos, gritos de angústia e o silêncio de quem se encontra, ele treme enquanto sabe que precisa de uma decisão, ou um lado ou outro, o MurO certamente o arremessará longe quando souber que na verdade ele nunca quis escolher, o que pensaram que havia sido uma decisão dele sempre foi o efeito da dúvida, sempre foi por sua falta que um dos lados foi tocado por seus pés indecisos.

Enquanto seus olhos perscrutam o inesgotável escoar da mudança constante ― desvendando o que antes só poderia ser concebido se as vestes que o protegem de tudo aquilo que pode fazer com que ele entenda que ainda que muros existam para que os lados não sejam um ele não pode ser a nulidade se rasguem em milhares de pedaços que não mais terão força suficiente pra o enganar com a proteção ― ele teme. Somente se expondo ele poderia esconder de si o que por tanto ser visto deixou de aparecer. Ele agora percebe que estar no MurO não é só um ato de coragem e solidão, estar ali significa estar partido, dividido ao meio e devorado pelo que ele gostaria de saber se é ele mesmo. De cima do MurO, se vê muitas coisas...

Continuando a ver coisas ele agora tem um pé de cada lado do MurO, eles balançam, de um lado um infinito de possibilidades, do outro, um espelho dessas mesmas possibilidades refletindo o contrário do que quer que aconteça do lado oposto, os lados não se conhecem, a escolha precisa saber que será responsável pelo que não voltará a ser o que era sem que antes seja preciso estar no MurO outra vez. O MurO não tem fim, e ele, agora que se sente mais próximo dele por repousar em sua divisa, vê que o MurO se perde no horizonte, que poderia ir sobre ele até onde os olhos não alcançam se indeciso permanecer até que as coisas mudem. Ele sente que está se aproximando de algo e esse algo também se aproxima dele à medida em que percebe que o MurO está mais alto, é imprescindível que ele faça algo, porque esse algo está vindo, vai fazer por ele se ele não fizer.

E o brilho de uma tarde dentre tantas outras tardes que já vieram antes começa seu inevitável desbotar, um crepúsculo de revolução, os dois lados para o qual o MurO serve de conciliador clamam para que ele se resolva, imploram pra que ele por apenas um simples momento agarre as rédeas do cavalo que em disparada o arrasta por entre vales de confusão e temor, atravessando também planícies de satisfação e tranquilidade, confundindo-o com tudo que poderá ser caso ele opte por escolher e assuma o risco de ser quem decide, que ao menos uma vez ele não queira culpar e sim aceitar que somente a ele interessará o que será a consequência, o que será sua cabal evidência. Com a resolução nas mãos a ele ficará explícito o que há tempos ele trancafiou com uma chave de conveniência; quem é o responsável?

É disso que se trata. É isso que é o MurO. E ele sobre ele pode ser que seja como ele. Ele é ele e ele também é ele...

“Ele é ele e ele também é ele... ele é ele e ele também é ele... ele é ele e ele também é ele...”

Ele sente que agora começa a ter o que se pode dizer percepções longínquas do que é não ter mais consciência de que se é consciente. O MurO começa a enlouquece-lo com simples fatos. Os ecos do que ele insiste em negar agora são como setas varando seu corpo frio que sequer sente que lhe transpassam. Ele quer os dois lados... só que não pode... Ele sempre fica sem saber o que pode ser o melhor pra ele... Talvez porque no fundo ele sequer imagina o que pode ser o melhor pra ele porque jamais conheceu o que é esse tal melhor... O MurO sabe de tudo que já lhe aconteceu mas finge-se de cego pra que possa vê-lo se desintegrar diante da impotência em ao menos se deixar cair pra qualquer dos lados e assim se safar com a mentira ideal no momento mais propício... o momento em que a ilusão o toma e o encoraja a prosseguir...

Ele então continua sua marcha sobre o MurO. O céu se transforma em sentidos que são nuances espalhados em infinitos tons, a altura do MurO o aproxima do espetáculo de cores que são como os sentimentos que o transportam entre as lembranças mais distantes e os anseios mais íntimos. Ele ainda insiste porque uma vez que se tem o erro nas mãos não se pode mais exigir que tudo dê certo, ele sabe que pode permanecer onde está, no conforto da indecisão e na ânsia da decisão que é o que todos esperam dele. Com olhos no horizonte que o sol delineou com um alaranjado decadente ― cores pálidas enfeitam a linha que o olhar dele visa como o caminho que, mesmo o privando de tudo que pode ser novo, pode de repente ser esse mesmo novo que é o que ele tanto deseja no fundo de seus mais inocentes sonhos maculados ― ele segue. Ele sabe que é incompleto e de cima do MurO ainda se pode ver os dois lados, e somente ver já é como a dor mais secreta, porque ver será a dúvida que mais tarde vai doer tanto quanto aquela dor que não se esquece, só que essa vai dizer que ele foi covarde, mas a covardia que ergueu o MurO talvez não fosse uma covardia e sim uma tentativa da coragem de vencer sem ter que sacar armas, ele sabe que quando precisou se rebaixar diante do MurO ele não queria mais lutar. Com uma bandeira branca nas mãos ele caminha sobre o MurO e tenta ser sereno, mas o sereno da noite, o véu das estrelas e o luar o fazem ver o que só existe unicamente na individualidade dos lados. O contrário era não estar no MurO ou estar é prova de que escolher um dos lados o fará sempre desejar o que poderia ter sido? Por que existem coisas que só existem se escolhas forem feitas?

Por que não posso não escolher?

Nasce um novo dia sobre o MurO. Ele também quer nascer com o Sol.

Renascer...

Ele está magro, não come nem bebe há eras, não importa o tempo sobre o MurO, tudo é incerto, a fome fala alto, tão alto que quando se escuta sua voz tudo que mais se quer é se alimentar de um pouco de esperança, mastigar a esperança e engoli-la pra não sentir mais essa dor que é saber que na verdade nunca se saberá de nada... e aceitar isso é o melhor caminho depois que o MurO for só uma lembrança de um tempo de verdadeiras mudanças. O Sol traz e refaz, sempre fez desde sempre, e agora, refeito pela falta, ele andando sobre o MurO continua olhando pra o horizonte que é o que desde sempre foi o que seria pra ele quando ele decidiu que tinha que escolher um destino. Ele é quem escolherá. Ele não escolhe nenhum dos lados porque os dois o agradam, ele vê sorrisos e lágrimas nos dois e se só isso o interessasse ele não perderia tempo sobre o MurO, agarraria o que melhor lhe parecesse e seria fácil depois se arrepender e procurar um outro muro. Mas só há um MurO. Só que às vezes ele some, e acreditar nisso o faz olhar pra seu corpo mortificado como um símbolo de fé em algo que mesmo tão maior que ele, habita ele e quer que ele saiba que o que acredita pode ser o certo. Ele quando fala com ele mesmo acaba por saber de tudo sem que precisasse se submeter à tortura que o MurO é pra quem é como ele, totalmente a mercê do que ele já sabe que não saberá, um tronco descendo a caudalosa água que certamente o levará pra um fim certo. O MurO ainda está longe de se encerrar e o corpo ressecado do indeciso decide que irá até onde lhe for possível porque ele já sabe o que é o fim, está apenas se pendurando nos ponteiros para apressá-los rumo à certeza do que pode ser o que ele procura. Algo nele o diz que falta pouco...

Pouco... pouco...

Foi só o que ele teve desde sempre.

Pouco...

Ele talvez quisesse mentir para si mesmo, mas agora, do alto do MurO que não hesita em esfregar na cara dele o que ele não aceita, ele sabe que não precisaria justificar o que quer que decida porque nada nunca foi fácil pra ele.

O MurO pode ter sido o que quer que queiram achar mas ele sabe que o MurO é a única maneira de ele arriscar suas últimas fichas rumo ao que pode lhe deixar mais próximo de uma verdade que não seja a que ele por já ter reconhecido agora tenta disfarçar, decidir ser indeciso o tortura com astúcia porque ironicamente seria preciso escolher pra depois colher e se envolver e deixar de ver o que agora mesmo ocorre enquanto ele se flagela pra ver se encontra os restos dele que buscam catar os pedaços que se perderam durante o caminho rumo à necessidade de um caminho. O MurO é o caminho mais digno que ele encontrou pra ir de encontro ao que ele precisa saber se é realmente o que ele por saber já esqueceu o que era. O MurO é a abstenção e o ato que fará com que a mudança que já é o que há, seja ao menos compreendida.

E o frio de mais uma noite envolve o que sobrou daquele que sobre o MurO ousou fazer qualquer coisa que lhe valesse o entendimento das coisas que depois que soube o mudaram completamente. Ele nem lembra quem já foi ele e agora o MurO é seu único amigo, enquanto se agarra pra não cair, o MurO nada pode fazer a não ser esperar que ele não caia, o MurO lembra de quando ele se aproximou e voluntariamente subiu o primeiro degrau, e depois o segundo e o terceiro até que estivesse no MurO propriamente dito, houveram pequeninos passos antes do que agora acontece. Escolher qualquer dos lados agora poderia ser a salvação do que ainda ferozmente nele pulsa tentando se agarrar ao último suspiro de uma vida que ele quis que fosse feliz... dos planos que um dia teve agora só o MurO é o que resta quando ele pensa que já desperdiçou tanto antes de se ver sem nada como agora se vê enquanto observa os lados, o horizonte, o MurO, e suas mãos cansadas da necessidade de ter que acreditar pra prosseguir. Fechar os olhos... fechar os olhos... É o que ele mais quer. Está cansado... muito cansado... Ele viveu muito e ainda quer que lhe exista muito tempo, mas de que adianta esse tempo se somente ele entende o que é o MurO? Ninguém jamais o entendeu porque os outros têm seus próprios MuroS, eles só podem entender o MurO que eles constroem para si mesmos, mas o MurO dos outros são enigmas insondáveis, eles sequer sabem que existem outros MuroS, assim como ele ignorou o MurO dos outros porque só conseguia enxergar o dele. E agora ele está abraçado a ele com a força de uma fraqueza... Basta escolher um dos lados mas ele insiste em permanecer na espera de que aconteça o que ele acredita, algo nele o diz que falta pouco... pouco... pouco...

Escuridão...

Agora ele não pode mais ver o MurO... apenas o sente... todas as estrelas e a lua se apagaram e o vento cessou... ele não sabe o que aconteceu...

Tateando no escuro e com os pés indecisos pendendo cada um por sobre um dos lados, ele percebe com espanto que suas mãos tocam a solidez de uma parede. Seus olhos estão cegos. Ele toca a parede e se ergue sobre o MurO. Suas mãos deslizam e ele compreende que o MurO se encerrou numa parede... uma parede? Só que suas mãos conseguem tocar o alto da parede e alguma coisa nele pede pra que ele se erga e no escuro avance rumo ao que sequer imagina que pode ser já que precisa ver... se habituou a ver e no escuro apenas se pode sentir... e acreditar. Sem o mínimo disso o muro não o levaria jamais aonde ele agora estava sem perceber... é o Nada... o Vazio... Ele caminha pelo chão sólido do Nada e do Vazio, não há mais MurO, mesmo no escuro ele sabe que não há perigo de que ele caia em algum buraco ou que outro MurO apareça diante dele. Percebe onde está. Então se pergunta “Onde está meu horizonte?”, e olha pra um dos lados que o atrai. O que mais o atrai. Agora não existem apenas dois lados. Existem infinitos lados. Ele pode escolher qualquer um já que agora não pode mais ver o que lhe aconteceria caso tivesse feito diferente. A indecisão é um caminho? Ele ainda não sabe. Olha firme pra o escuro que o permite sentir e sente que algo se aproxima... é o algo que ele sentiu que viria... uma leve claridade desponta na direção que seu olhar escolheu... vem vindo... o escuro se deixando... e mais... mais... parece o sol... não é o Sol... mas o que é o Sol?

Ele então vê um campo... árvores e verde... nuvens tímidas e avermelhadas... um céu roxo ansioso por um azul... e mais abaixo há um azul... e brilha... é o mar calmo que se doura com o nascer de uma nova perspectiva... é o renascimento perpétuo... dele e de tudo... mas nada é como era antes. Não pode ser. Agora tudo tem um outro sentido. Esse havia sido o caminho do seu olhar, ele havia escolhido no escuro de uma indecisão a decisão de que seu olhar o revelaria o que lhe valeria à pena ver para continuar... E agora ele via. Era a Vida... nada mais... O alto MurO o levou ao mirante onde ele poderia encontrar o que lhe permite agora decidir fazer. Não há mais dois caminhos... há infinitos caminhos... ele sabe que não pode tomar todos... somente um... e ele agora o toma... Continuar... continuar... continuar... continuar... continuar... continuar...


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