• Elisa Ribeiro

Duelo




— Não... nunca aconteceu. Acho que eu não ia gostar.


— Mas como é que você vai saber se gosta se não experimentar?


— Não tenho vontade... sei lá... não tenho interesse.


— Você nunca se sentiu estranha?


— Estranha?.. Como assim?


— Estranha... Assim, diferente das outras meninas.


— Hum... não... Talvez um pouco menos vaidosa com a aparência. Um pouco menos interessada, também, nos meninos. Por exemplo, a Letícia, nossa colega de sala, tem um fogo que eu não tenho. Um ou outro garoto, uma vez ou outra, me interessa, mesmo assim, só um pouco. Por exemplo, pra você ter uma ideia, prefiro assistir uma série a ficar conversando com um garoto... Por falar em série...


— Então, isso pode ser um sinal de que você... talvez...


— É... pode ser... Mas voltando ao assunto das séries, se a gente conseguir terminar esses exercícios antes das quatro dá para assistir um episódio de “Love´n lies” antes da aula de inglês. Que tal?


A mãe da adolescente que no momento se interessa mais por séries do que por meninos ou meninas entra na sala.


— Meninas, o almoço está pronto. Vocês vão ter que dar uma paradinha.


— Não dá para esperar um pouquinho, mãe? Faltam só dois exercícios pra gente terminar a primeira lista.


— Não dá, não, filha. A comida vai esfriar. Vão recolhendo os livros que eu já trago os pratos de vocês — diz afastando-se em direção à cozinha.


— Eu acho que você devia experimentar... ficar com uma menina. Vai que você gosta? — a amiga conclui seu pensamento antes que a mãe da amiga retorne da cozinha com os pratos.


— Será? Eu já achei nojento beijar menino... A saliva, os dentes batendo, a língua entrando na minha boca... — em seu rosto, uma expressão inconfundível de asco.


— Afastem os livros, meninas.


A mãe pousa a bandeja num canto da mesa e aguarda que elas recolham o material do colégio. Coloca um prato com a comida e um copo de suco na frente de cada uma. A amiga da filha olha a comida com uma expressão inconfundível de asco.


—Não gosto muito de comida ensopada — não consegue se conter.


— Que carne é essa, tia?


— Dobradinha. Quase todas as terças-feiras é o que temos no almoço aqui em casa.


— Tripa de boi ensopada com batata! — a amiguinha esclarece apontando com o garfo um naco farto da carne. — Adoro!

Visivelmente constrangida, a convidada olha para a dona da casa.


— Desculpa, tia, mas acho que n-não vou conseguir comer...


— Como assim? Por que? Experimenta!


A adolescente continuou olhando a comida com desgosto, remexeu o ensopado com o garfo, levou uma pequena porção em direção à boca, mas antes, nada discretamente, aproximou do nariz para cheirá-la.


Não vai dar, não, tia... tripa de boi, não tenho coragem... será que dava para a senhora fritar um ovo para mim?



— Experimenta, amiga, prova só um pouquinho... uma garfada...


Vencida, a mãe lhes dá as costas dirigindo-se a cozinha para providenciar o ovo frito para a visitante.


— ...como é que você vai saber se gosta se não experimentar? — complementa a adolescente, um sorriso irônico, vitorioso, na face.



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