Ectoplasma


O que vou lhes contar aconteceu há muitos atrás. Foi pouco tempo depois do falecimento de meu pai, levado por um câncer que lhe corroeu os intestinos.


Naquela época eu tinha apenas 22 anos de idade e me imaginava como o menino prodígio da psicologia. O engraçado disso era que só eu me via assim já que para o resto dos colegas de curso eu era só mais um CDF.


Mais uns meses e eu terminaria o curso, aí era só eu me preparar para um mestrado e depois, quem sabe, um doutorado. Tudo parecia encaminhar-se do jeito que eu planejava. Eu mal via a hora de me formar.


Para conseguir uma grana extra eu consegui uma vaga para trabalhar como educador social de rua. O trabalho era em uma instituição espírita e consistia em coordenar oficinas de confecção de produtos feitos com madeira leve e vime. Seis horas diárias com adolescentes cujas idades variavam de doze a dezessete anos. O detalhe é que esses garotos estavam todos naquilo que a gente chamava na época de “situação social de risco”. Furtos, roubos, violência, uso de drogas, pobreza e outras mazelas, frutos das contradições sociais, compunham o dia-a-dia desses garotos.


Eu trabalhava junto com outro educador em um cotidiano com mais de quarenta adolescentes. Os dias de trabalho sucediam-se e terminamos por estabelecer com os meninos uma relação que era um misto de hierarquia e amizade.


Estávamos em mais um dia de trabalho com os garotos quando algo muito estranho aconteceu com um deles.


Era meio-dia e almoçávamos com os meninos quando de repente um adolescente na faixa dos seus dezesseis anos, que atendia pelo apelido de Meia-noite, deixa subitamente de almoçar e fica estático a frente do seu prato. Os outros garotos nos alertaram para isso.


Fomos até Meia-noite e percebemos que este não esboçava a menor reação, não apresentando resposta nenhuma a nossa presença. Chamávamos seu nome, mexíamos em seus braços e nada. Este permanecia estático e com o olhar vidrado, como se olhasse para algo além. Nossas tentativas de despertá-lo se mostraram infrutíferas e os demais garotos começavam a ficar inquietos.


- Tio André, o que é isso que ele tem? Ele tá doido? – Perguntou um dos meninos mais jovens do grupo e que tinha um apelido engraçado: Cheiro


- Não sei, Cheiro. Não tenho a menor ideia do que está acontecendo com ele.


O garoto começou a ter tremores generalizados pelo corpo e dessa forma terminamos acionando o 192. Quando a equipe de emergência chegou verificaram logo a pressão arterial, temperatura, saturação, pulsação e resposta pupilar. Perguntaram se havia um histórico de etilismo, envolvimento com drogas, doença mental ou epilepsia.


- Olha, amigo, esse garoto não tem nada. Pode até ser que ele tenha alguma coisa que não sabemos o que é, mas acho que doença do corpo ele não tem. – O socorrista falou isso e chamou-me para um canto mais afastado dos demais meninos que faziam um círculo em volta de Meia-noite.


- Cara, vai por mim, isso é coisa espiritual.


- Ah, para com isso! Você está de brincadeira comigo. Pode ser um transtorno mental qualquer. Ele tem alguma coisa sim e não é nada desse negócio de espírito.


- É sério. Já vi casos assim antes e isso é coisa de espírito.


Achei uma tremenda bobagem o que o socorrista havia me falado.


Dez minutos depois que a equipe do 192 foi embora o garoto voltou ao normal e, estranhamente, não lembrava de nada.


                                                   ******


Os dias passaram e os meninos continuavam com suas atividades de trabalho, lazer e educação. Nosso cotidiano seguia seu curso natural quando novamente outro episódio aconteceu.


Dessa vez foi algo diferente e assustador.


Estávamos assistindo a um filme, como parte da programação de férias, quando Meia-noite se levanta subitamente, anda uns poucos metros e cai ao chão. Foi uma correria e uma gritaria muito grande entre os meninos já que a maioria deles havia presenciado o fato anterior. Estabeleceu-se entre eles um princípio de pânico.


Luiz, o outro educador que trabalhava comigo, ajudou-me a retirar os demais garotos da sala. Ficamos sozinhos com o garoto caído e observando com um temor crescente o que acontecia com este: de sua boca saia uma substância esbranquiçada, com um aspecto esponjoso.


Ainda hoje, passado tantos anos desde aquele dia, chego quase a sentir novamente o tremor que o medo me causou quando vimos que a substância que saia da boca de Meia-noite formava um pequeno rosto.


Logo abaixo do queixo de Meia-noite havia se formado algo que não tinha como dizer que não era um rosto. Dava para divisar perfeitamente os olhos, o nariz e uma boca que parecia aberta como se estivesse a gritar.


Confesso que era apavorante ver aquilo. Um garoto inconsciente e caído ao chão com uma coisa esbranquiçada saindo de sua boca e formando algo parecido com um rosto. De onde vinha tal coisa?


- André, que porra é essa que está saindo dele? Você acha que é um tipo diferente de vômito? O que é isso? – O medo estava estampado no rosto de Luiz ao perguntar.


- Não sei o que merda é essa, mas sei que nenhum vômito do mundo iria fazer um molde de rosto.


- Vai, cara, me diz o que é isso? É um tipo de feitiço? – Um exasperado Luiz perguntava com os olhos quase saltando das órbitas.


- Acho que isso não é uma doença... Não sei dizer o que é...


Sem saber o que fazer nós decidimos chamar a direção da instituição


******


Meia-noite foi retirado do convívio com os demais garotos. Soube posteriormente que passou a fazer uma espécie de desenvolvimento de sua mediunidade com a supervisão de várias pessoas da doutrina espírita.


Um ano depois eu terminei o curso e larguei o trabalho com os meninos de rua. Nunca mais soube o que aconteceu com aquele garoto.


Passado todos esses anos ainda me lembro com horror daquele pequeno rosto que se formou. Nunca disse para ninguém, e até evito pensar sobre isso, mas acho que aquele rosto formado se parecia muito com o do meu pai.





*Ectoplasma configura-se como uma substância fluídica que sai do corpo de pessoas ditas médiuns e que tem a capacidade de produzir fenômenos físicos, principalmente a materialização.

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