Elvis Não Morreu





Na primeira vez em que o vi eu tinha apenas oito anos e corria em zigue-zague tentando escapar das pedras que passavam zunindo por mim. Em 1957 eu morava na zona rural de uma cidade pequena e precisava andar bastante para vencer o trajeto entre o grupo escolar e o sítio onde morava com meu pai. Naquele dia, assim como em muitos outros, eu percorria esta distância como um velocista, correndo para fugir de um menino chamado Patrick e dos seus terríveis comparsas.

Não era sempre que vinham atrás de mim, e, quando vinham, geralmente desistiam logo de me caçar antes do meio do trajeto, mas desta vez parecia que estavam determinados a me arrancar uns dentes sem anestesia.

Para dificultar o intento dos meus perseguidores, saí da rodovia e disparei pela mata, sumindo na vegetação espessa da margem do caminho. O capim arranhava minhas pernas e os galhos enganchavam na minha pasta colegial, mas ainda resistia em mim a patética esperança de escapar ileso. Podia ouvir os gritos dos meninos, o som das plantas batendo em suas pernas enquanto corriam. Virei a cabeça para vê-los e acabei tropeçando em uma raiz saltada, coberta pela gramínea. Já ia me levantar para voltar a correr quando ouvi uma voz me chamando.

– Ei menino, fica aí mesmo… não faça nada, eles não vão te ver. Olhei em volta e não vi ninguém. Então me agachei e controlei minha vontade de correr. Fiquei ali parado com a respiração suspensa e os olhos fechados, imaginando que aquele seria o último dia da minha vida.

Os garotos logo me alcançaram, mas, como se, de fato, não me enxergassem, passaram direto e continuaram correndo e gritando ameaças. Deixei que se afastassem até uma distância segura e me virei na direção de onde a voz havia vindo.

– Onde está você?

A moita de capim se moveu ao meu lado e de dentro dela saiu um cachorro grande e amarelo. Fiquei olhando para o cão, esperando que o dono surgisse atrás dele, mas meus pensamentos foram cortados pela mesma voz que havia falado comigo. – Por favor, não grite.

– Você fala? Era o tipo de pergunta que não precisava de resposta. Ainda assim, talvez sensibilizado pela minha perplexidade, foi me explicando tudo sobre o seu planeta, a missão que o trouxera aqui e de como acabara ficando perdido na Terra. Deixado para trás pelos de sua espécie. Falava estas coisas às vezes animado e noutras triste. Devia sentir saudade.

Elvis. Esse era o nome que ele havia escolhido para si mesmo. Era fã do cantor e me contou que assistia, sempre que dava, aos shows que passavam na televisão. Perguntei quem era o seu dono e ele me lançou um olhar decepcionado. – Não tenho donos.

Senti-me mal diante da minha pergunta. Aquele não era um cachorro qualquer, mas um visitante intergaláctico em missão ao nosso planeta. Eu precisava me acostumar a esta realidade para não cometer outras gafes.

Enquanto andávamos, Elvis me perguntou se na minha casa havia televisão. A pergunta foi feita com alguma relutância pois eu não o havia convidado ainda para ficar lá, e Elvis conhecia bem as regras de etiqueta.

– Tem sim, fica na sala. Respondi rápido para diminuir o seu constrangimento.

Ele olhou para mim, sorrindo. Imaginei que planejava encontrar uma casa onde pudesse ver o seu xará famoso na TV. Eu já não me importava mais com nada. Que ele falasse, que ele sorrisse, ou que me deixasse invisível… Nunca tinha tido um bichinho, e aquele seria todo meu. Fiz o trajeto para casa saltitando de felicidade e acenando para todos que conhecia para que vissem meu cão.

Quando chegamos em casa, papai estava na garagem deitado embaixo do Buick Electra do meu professor de história. Havia outros carros sob as árvores esperando conserto. Meu pai era o melhor mecânico da cidade, só não tinha mais clientes por causa da história da minha mãe.

Avisei que havia chegado e que trazia um amigo. Queria mostrar o Elvis para ele e dar risadas com a cara que ia fazer quando o cachorro começasse a falar. Mas no momento em que papai se levantou, limpando a graxa do rosto com uma estopa, o meu novo amigo havia desaparecido. Devia estar fazendo o truque da invisibilidade novamente, pensei.

Procurei Elvis por toda parte, mas ele só foi reaparecer quando ligamos a televisão, depois da sopa. Não ficou no tapete sob os meus pés como seria o esperado para um cachorro comum, mas sentou muito empertigado na poltrona que mamãe costumava usar e começou a diminuir enquanto sua pele fazia ondulações assustadoras. Quando o processo de transformação terminou ele havia virado um “hamster” cinza claro e foi se alojar no meu colo. Então dormiu.

Aquilo tudo aconteceu com papai sentado conosco na sala. Desde a chegada do Elvis à poltrona, passando pela sua estranha mutação, meu pai não deixou um segundo de assistir a um programa de perguntas e respostas que ele adorava. No último ano não conversávamos muito, e era raro vê-lo interessado em qualquer coisa que não fosse motores de carros, então eu o deixei lá, fazendo o que gostava. No dia seguinte eu o apresentaria ao meu novo amigo.

Quando acordei, Elvis estava pousado na janela. Soube que era ele porque o pequeno pássaro me deu bom dia. Perguntei se ele podia me transformar também. Ele fez sim com a cabecinha azul. Cheguei ao parapeito da janela e fechei meus olhos esperando o milagre. Quando os abri continuava apenas um menino, mas Elvis estava diferente. Sua densidade havia diminuído drasticamente, tanto que era possível enxergar as coisas através do seu corpo.

– Estou há muito tempo aqui, garoto. Meus poderes estão enfraquecendo. Chegou a hora de voltar para casa.

Naquele dia ele ficou muito fraco pela tentativa em me transformar também. Coloquei seu levíssimo corpo de passarinho numa caixa acolchoada e deixei que dormisse o dia inteiro.

Pensei o resto do dia em minha mãe. A hora em que mais sentia falta dela era quando ia dormir. Ela sempre vinha ao meu quarto para me cobrir com um lençol cheiroso, me beijar e fazer comigo a oração do anjo da guarda. Dizia que se nunca mais abrisse os olhos o anjo me levaria voando até o céu. Mas uma noite eu fechei os olhos e quando acordei soube que ela havia partido.

Nunca tinha visto o meu pai chorar até aquele momento. Alguns vizinhos se espalhavam pelos nossos cômodos. O carro novo havia sumido também, assim como as roupas dela. Demorei a entender toda aquela confusão e por qual motivo as pessoas falavam sobre o homem do banco. Eu olhava para o armário aberto com um lado todo vazio e pensava se havia feito alguma coisa errada para que aquilo acontecesse.

Era jovem demais para saber que minha mãe havia fugido com o seu amante, o pai do Patrick, mas senti na carne os efeitos desta decisão. As surras na escola, o desprezo das pessoas pelo meu pai, os carros esvaziando no pátio, o dinheiro mais curto. Mas nenhuma destas coisas me fazia ficar com raiva dela, eu só queria que ela voltasse para nós.

Na noite em que jogaram pedras nas janelas de nossa casa, papai começou a formular planos para irmos embora. Eu não queria ir, mesmo com a situação em que estávamos vivendo, pensava estar em nosso sítio para receber mamãe se ela voltasse. Mas às vezes sonhava com uma casa nova com quintal, onde pudéssemos viver sem passado e sem pedras. Contei os planos de meu pai para o Elvis. Meu amigo apenas me olhava, calado e paciente, sem querer atrapalhar todo aquele fluxo de entusiasmo pueril.

– Não posso ir com vocês. – Por que? Papai não se importa. Você vai gostar, Elvis.

– No dia em que a nave partiu eu estava na mesma mata onde você me encontrou.

Então ele se calou e olhou para o céu, e naquele olhar expressou a imensidão de sua saudade. Também me calei pela falta de qualquer argumento. O céu para ele era como a minha mãe para mim, não podia pedir que ele fosse conosco.

A cada dia que passava eu via o meu amigo ficar mais fraco, ainda assim ele fazia questão de me acompanhar pela floresta até um ponto bem perto da escola, quase no mesmo lugar onde nos vimos pela primeira vez, e depois ficava esperando, pacientemente, que a minha aula terminasse para que voltássemos ao sítio.

A vida seguia calma. Elvis se aproximou de papai, mas nunca usou nenhum de seus superpoderes para impressioná-lo. Ao contrário, agia como se fosse um cachorro absolutamente comum, e até permitia que papai passasse os pés no pelo de suas costas quando se deitava na frente do sofá da sala. Aprendeu a gostar dos programas de perguntas e respostas, mesmo ficando um pouco frustrado por saber quase todas e não poder responder.

As pessoas pareciam ter começado a esquecer da traição da minha mãe, e até chegavam mais carros para meu pai consertar, as coisas se ajustavam e papai falava cada vez menos em ir embora. No domingo, quando chegamos da missa, Elvis mal podia se conter para falar comigo. Pediu que eu o acompanhasse até os fundos da casa e apontou para uma estrela exatamente igual a todas as outras. Fiquei lá olhando sem entender até que ele me explicou:

– Olha, George! Ali! E tentava fazer um triângulo com suas patinhas felpudas. – Ali está a minha nave, olha! Estão voltando!

Eu continuava sem conseguir distinguir a nave dele no meio da miríade de estrelas que cobria o céu como um bordado brilhante. Mas isso pouco importava, Elvis estava radiante e sua alegria me fazia sorrir.

Poucos dias depois, assim que terminei a lição da escola, Elvis veio me avisar que estava tudo combinado. Havia feito contato com os tripulantes da nave e viriam busca-lo no dia seguinte.

– Mas, já? Perguntei, um tanto aflito com a iminente partida do meu melhor amigo. Pensava que, afinal, este dia jamais iria chegar.

– Nossa tecnologia é muito mais avançada do que a do seu plan… Não chegou a completar a frase pois percebeu que estava sendo rude. Sorri para mostrar que não havia me chateado.

No dia seguinte fizemos como o habitual: fui à escola e na hora da saída andei até o lugar marcado para o encontro  dele. Ia tão distraído pelas emoções que não percebi que estava sendo seguido. Mal havia sentado ao seu lado num galho caído e os garotos apareceram nos cercando. Não acreditei que via a minha frente aquela cara feia do Patrick e seus amigos idiotas. Elvis se levantou imediatamente, rosnando.

– Então é com este vira lata que você tem andado? E a vadia da tua mãe, tem notícia dela?

– Pergunta para o teu pai, Patrick!

Patrick era um menino covarde. Era muito mais velho que eu e só andava em bando para não dar chance de defesa às suas vítimas. Eu olhava ao meu redor tentando me preparar para o iminente ataque. A raiva me fazia tremer. Sabia que ia apanhar muito, mas a adrenalina me deixava corajoso. Parti para cima de um deles que não esperava a minha atitude. Segurei o garoto pelos ombros e dei uma joelhada bem no meio de suas pernas. Os outros demoraram alguns segundos olhando para o amigo rolando de dor no chão, mas antes que eu pudesse fugir, dois deles me agarraram puxando meus braços para trás.

Foi tudo muito rápido. Patrick foi para cima de mim, mas não teve a chance de me socar na barriga, Elvis saltou sobre o menino derrubando-o no chão e apertando os dentes em sua garganta.

Eu me debatia enquanto os meninos me seguravam, e sem que eu pudesse fazer nada vi quando um deles deu um chute na cabeça do meu cachorro.

Aproveitando a fraqueza momentânea de Elvis, um deles tirou o suspensório da calça e enlaçou o pescoço do cão, usando o elástico como uma coleira. Levei vários socos naquele dia. Murros, chutes, pés pisando o meu rosto, mas nada doeu tanto quanto ver aqueles monstros arrastando Elvis para trás das árvores e ouvir seus ganidos enquanto estraçalhavam seus ossos.

Antes de desaparecer, arrastado pelos meninos, ele virou o rosto em minha direção e sussurrou uma frase que só eu entendi.

– Vai ficar tudo bem.

Mas ele e eu sabíamos que não ia ficar. Havia aflição naqueles grandes olhos cor de mel, havia frustração por não poder fazer nada, e o desespero de estar tão perto de voltar para sua casa e ver toda a sua esperança ser destruída por aqueles moleques cretinos e sem serventia alguma para o universo.

Apaguei por algumas horas. Quando acordei já era o começo da noite. Mesmo cheio de dor, procurei Elvis no local para onde o haviam levado, chorando e gritando o seu nome, mas sem ter uma lanterna ou alguém para ajudar, não tive nenhum sucesso. Fui andando devagar até chegar em casa e cair sobre os degraus da porta da frente.

Passei vários dias no hospital. Pedi ao meu pai para que fosse procurar o nosso cão. Ele e alguns vizinhos fizeram várias buscas, mas ninguém encontrou seu corpo. De certa forma isso me dava alguma esperança. Pensava que talvez tivesse sido resgatado pelos seres do planeta dele, ou que tivesse conseguido se transformar em um bicho pequeno antes que o tivessem matado.

A polícia entrou na história e os meninos sumiram para evitar que fossem mandados para alguma instituição correcional.

Nunca mais vi Patrick ou seus amigos, e também nunca deixei de pensar em Elvis e na possibilidade de um dia reencontrá-lo. No fim daquele ano meu pai finalmente cumpriu sua palavra e nos mudamos para uma cidade grande.

Mamãe e o homem com quem havia fugido não voltaram mais para a nossa cidade, mas acabamos sabendo onde estavam morando, e que eles tinham tido uma filha. Ela nunca me procurou e eu resolvi seguir a minha vida apesar desta saudade.

Não segui os passos do meu pai: fiz faculdade, terminei jornalismo e dava aulas na universidade pública da cidade onde morava. Geralmente às sextas eu saía com os outros professores para beber nos bares do centro. Estava no estacionamento, me preparando para ir ao encontro deles quando senti alguém perto de mim. Era um cachorro, não qualquer cachorro. Um grande e amarelo com ar de nobreza e uma cicatriz bem marcada na cabeça. Ficamos nos olhando por um tempo sem nada falar. Em todos aqueles anos vi muitos grandes cães amarelos e nos olhos de cada um deles não encontrei o brilho que distinguia o meu de todos os outros. Entrei no meu carro, abri a porta do lado do passageiro e bati a mão de leve no banco. O cão pulou com toda confiança no assento ao lado do meu. Fechei o carro e partimos. – Porque demorou tanto, Elvis? Ele olhou para mim e sorriu. Teríamos muito tempo para conversar.



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