• Elisa Ribeiro

Em Praga, um cisne

Branco é o animal ferido,

as asas de anjo encolhidas,

prostrado no asfalto frio.

Seu parceiro de uma vida,

o coração partido,

desliza sozinho no rio.


Isso, o amor desfeito

antes do anjo caído,

intriga o turista

que escorrega pelas ruas da cidade

também sozinho,

em despedida.


Pensa em salvá-lo

— tão alvo, tão liso —

com aquele bico indefinido

se de tédio, maldade ou riso.

Mas vai molhar o casaco,

impregnar sua lã macia

com o cheiro marrom do rio.

Além do mais,

como rogar ajuda a alguém,

interromper o trânsito,

avisar à polícia, talvez,

(como se polícia servisse

para salvar cisnes feridos)

naquela língua?


Desculpa? Desdém pela vida do bicho?

A certeza de que a morte chega um dia

para todos

— as aves incluídas —

o paralisa.


Não que não sinta a dor do cisne

o impulso de ajudá-lo

o medo de que morra,

mais ainda, de que sofra

ou o horror de vê-lo esmigalhado,

sangue e penas por todo lado

sob as rodas de algum carro.

[Não que não coma

a coxa, a pata

de seus primos — gansos, patos —

esquartejada

acompanhada de batata,

purê de maça e repolho.]


Mas logo enfim chega alguém

que felizmente fala a língua

e não pensa em morte ainda.

Sobre o branco da blusa limpa

veste o colete verde

e dá o troco:

suspende o bonde

cujos energizados fios

interrompem tantos voos.


E o turista a quem a morte assombra e alivia

parado por mais um instante

assiste ao socorro canhestro

distante,

lamenta uma vez mais pelo cisne

e volta a flanar,

encher-se de ar

pelas ruas, pela vida

antes de sua partida.

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