Era Uma Vez Um Macaco Chinês

" E durante muitos anos crimes insolúveis, todos igualmente macabros, aterrorizaram a China" - Diário de Pequim - 13 de outubro de 2000.

" As investigações nunca foram concluídas" - Depoimento colhido do Chefe de Polícia Pong Shu - Diário de Pequim - 15 de outubro de 2000. ...

A pequena estatueta ficava numa daquelas lojas que proliferam em galerias e estreitos bequinhos do centro comercial mais antigo da cidade, iguais a outros milhares de becos, de modo que nunca sabemos se estamos na esquina certa ou se deveríamos ter entrado duas ruas atrás, e, na maior parte das vezes, nunca conseguimos voltar ao lugar certo.

A diferença daquele beco para os outros, era que antes de chegar à loja, havia uma casa de sopas, com o caldo sempre a borbulhar nos grandes tachos, produzindo uma fumaça branca e olorosa. ... A família de Ling entrou, quase por acaso, no pequeno antiquário, fugindo dos roteiros estabelecidos pelas excursões. Havia leques abertos enfeitando graciosamente a vitrine. As prateleiras de madeira eram trabalhadas e lotadas de caixas de papelão de todas as cores, formatos e tamanhos, que o balconista ia abrindo com grande entusiasmo mostrando seu conteúdo exótico e levantando nuvens de poeira pelo ar.

Enquanto todos examinavam os bibelôs das caixas, Ling ficava vagueando os olhinhos puxados pelas prateleiras dos fundos, procurando o seu “escolhido”.

Não demorou muito até que notasse o brilho verde de um vistoso macaquinho de jade, com cativantes olhos de berilo, tão brilhantes que faiscavam entre as sombras das prateleiras escondidas da loja. Tomada de um incontrolável impulso, Ling levou rapidamente o pequeno objeto para o bolso quadriculado de seu avental de verão, e foi para frente do antiquário, perto de seus pais e tios que escolhiam lembrancinhas , animadamente. Ao fim de uma hora, todos já haviam feito suas compras, inclusive Ling, que levava uma caixinha azul com uma bonequinha de porcelana.

Quando saíram, a menina soltou um suspiro de alívio, sabendo-se a salvo de ser pega por sua pequena pilhagem. Passearam mais durante o resto do dia, até que foram ao terminal rodoviário de Pequim e viajaram cheios de assunto até a pequena cidade onde moravam.

Chegando em casa Ling colocou o bonequinho no armário ao lado da janela de seu quarto.

Como não podia explicar aos pais a existência dele, ela o colocou em uma caixa onde guardava o chapéu coco que usara na escola municipal, no ano anterior. Antes, porém, colocou-o carinhosamente sobre sua cama e deitou-se apoiada nos cotovelos para melhor observá-lo.

Era realmente um macaquinho muito gracioso. O corpo de jade perfeitamente liso, cujo fulgor era arrematado elegantemente por translúcidos e cândidos olhos de berilo. Encantada, a menina o embrulhou suavemente em um lencinho de seda pura e o escondeu na caixa.

No dia seguinte, logo que acordou, correu até a caixa e a abriu entre sobressaltos. Lá estava ele, reluzente e repousado sobre a seda macia. Ir para a escola seria um problema. Deixando-o, havia o risco de que o encontrassem. Levando-o, de que se quebrasse, ou que ela o perdesse. Na dúvida, era melhor que o deixasse onde estava, e passar toda a manhã angustiada e oprimida por pensamentos de crime e castigo.

Chegando a casa, Ling subiu de par em par os degraus que a separavam da porta do quarto e antes de descalçar as botas pegou a caixa do chapéu e tateou o seu interior em busca do embrulho de seda. Foi quando sentiu uma pequena e penetrante fisgada no dedo anelar da mão esquerda. O sangue, uma gota só, saía por um pequeno orifício na pele, como se tivesse sido feito pela ponta aguda de um alfinete.

Cuidadosamente, a menina retirou a estatueta do tecido e a inspecionou procurando o que havia causado o ferimento. Foi quando descobriu uma coisa que não observara antes: o macaco tinha unhas! Longas, finas e recurvadas de modo que as mãos ficassem côncavas em relação ao resto do corpo. Era só isso. Teria cuidado para não se ferir novamente. Colocou-o outra vez sobre a sua cama, e ficou olhando para os olhos de berilo, que pareciam vivos de tão brilhantes.

No dia seguinte, Ling já estava na escola quando lembrou de um fato aterrador. Aquele era dia de limpeza da casa, dia em que a diarista iria abrir todos os armários e mexer em todos os livros, roupas e caixas... Na caixa do seu chapéu! E ia encontrar o objeto roubado... Estava perdida!

As horas daquela manhã transcorreram muito lentamente, e a cada segundo marcado pelo relógio da sala de aula, ela imaginava o momento em que Lian, a faxineira, se deparasse com aquele objeto tão bem embrulhado e o mostrasse para a sua mãe.

Foi para casa cheia de ansiedade. A porta estava destrancada e ela foi entrando pela sala, sem que ninguém a detivesse.

Ling achou estranho não encontrar ninguém, então foi subindo até o seu quarto, que também estava vazio. Abriu o armário e retirou a caixa. Dentro dela apenas o chapéu e o lenço de seda. O MACACO HAVIA SUMIDO.

Fora descoberta! Passou por cada cômodo da casa sem encontrar qualquer pessoa. Já estava meio desesperada quando ouviu risos na parte lateral da casa. Lian e sua mãe estavam pendurando lençóis brancos no varal. Conversavam animadamente e quando Ling chegou, apenas sorriram e a cumprimentaram.

Como estava esperando um grande inquérito sobre o objeto furtado, achou muito esquisito aquele comportamento, mas não achou ruim. Almoçaram e em seguida ela subiu para o quarto, ainda intrigada. Mais tarde, após as tarefas da escola, os pais de Ling a chamaram para passear.

Quando estava separando as roupas que ia vestir, a mão da menina tocou em uma superfície fria, como uma pedra, e ela sentiu um objeto rijo entre as suas meias. Ela o puxou para fora. Era o seu macaco. O macaquinho da loja. Afinal, Lian devia tê-lo derrubado durante a limpeza, e não se deu conta, pois, a estatueta caíra, afortunadamente, na gaveta das meias, não provocando ruído. Eis a explicação.

A menina já estava se sentindo bem mais feliz quando, olhando com maior cuidado para a pequena escultura, viu, aterrorizada, que a face do animalzinho parecia ter sofrido uma modificação. A boca estava uma tanto aberta, mostrando dentes pontiagudos que se projetavam para fora, e sua expressão era um esgar de fúria, como se a estatueta a ameaçasse.

Ling jogou o macaquinho no chão. Estava arrependida de tê-lo pego na loja. Estava sendo castigada pelo seu ato criminoso. Tinha que se livrar do brinquedo.

Lembrou-se de que iria passear, e resolveu colocá-lo na bolsinha de tecido que usava. Pegou o macaco no chão sentindo repugnância em ter que tocá-lo

Naquela noite haveria festejos religiosos. Ling e seus pais foram a uma praça para assistir ao desfile anual do horóscopo chinês, tradição em sua terra. A menina ficou sentada sobre uma mureta de pedra, vendo passar as alegorias e os assustadores personagens com suas máscaras brancas.

A noite estava pesada. As luzes da rua, a despeito do seu brilho, misturada às cores das alegorias, criavam figuras assustadoras, que pareciam investir contra a multidão.

No momento em que entrava na avenida o nono signo, o MACACO, Ling achou que seria o momento ideal para livrar-se do inoportuno ocupante de sua bolsa. Abaixou-se então e colocou a estatueta na calçada, olhou para seus pais, que observavam o desfile, e sugeriu que fossem todos ao outro lado da praça para comer macarrão e espetinhos de porco.

Enquanto andavam, Ling olhava vez por outra para trás, e podia ver o macaquinho verde com os olhos brilhando como se a encarassem. O resto do passeio foi tranquilo e Ling foi dormir muitíssimo aliviada por ter apagado o macaquinho possuído de sua vida... Estava livre!

Foi dormir cedo. Porém, como era uma noite muito quente, a menina não teve um sono tranquilo. Um pesadelo a fez acordar assustada e com muita sede. Ling estava banhada de suor. Ela resolveu descer até a cozinha para beber água, e para não acordar seus pais, pegou uma pequena lanterna e foi descendo a escada escura.

No último degrau seu pé direito esbarrou em um objeto aguçado como uma faca. Ela soltou um grito de dor e acendeu a luz da sala. Não podia acreditar no que via. O macaco estava ali, olhando para ela! As garras afiadas, os dentes ameaçadores. E agora havia uma pelagem hirsuta esculpida por sobre a superfície do corpo de jade, outrora lisa.

Ele havia voltado. Agora Ling estava realmente apavorada. Começou a gritar bem alto até seus pais acordarem. Chorando, a menina contou para eles toda a história. Quando eles pediram para que lhes entregasse o objeto, ela foi pegá-lo e viu que ele não estava mais lá.

Naquela madrugada, ela dormiu na cama dos pais. Como não houvesse macaco nenhum para mostrar, não deram muito crédito a sua história, mas permitiram que ela ficasse com eles, diante de seu estado de espírito.

Nem mesmo a menina acreditava que aquelas coisas pudessem estar acontecendo consigo. Começou então a imaginar que, se sentido culpada teria criado estes mecanismos para punir a si mesma, que a visão que tivera na escada era um pesadelo, apenas, e que talvez estivesse ficando louca, vendo coisas.

Qualquer explicação seria melhor do que ter um bonequinho tétrico crescendo e se metamorfoseando horrivelmente, que estava atrás dela para se vingar por ter sido furtado da loja. Infelizmente não era só imaginação.

No dia seguinte, Ling estava no banho quando ouviu a porta abrir e sentiu um vento frio nas costas. Alguém havia entrando... Ela desligou o chuveiro e estendeu a mão para pegar a toalha. Foi quando o viu. Ele estava sobre a pedra de granito da pia, de costas para ela, como se fitasse o espelho. Havia crescido. Os pêlos esculpidos no jade pareciam mais eriçados, as unhas estavam mais longas.

Dos cabelos molhados dela caíram alguns pingos, fazendo um ruído mínimo, quase imperceptível. Como se pudesse ouvir o som dos pingos sobre a pedra, o pequeno macaco voltou-se para ela, torcendo a cabeça totalmente para trás. Então a fitou com seus olhos de berilo, piscando um de cada vez.

E tudo ficou escuro.

Ling já não sabia mais o que era fantasia ou realidade. Acordava muitas vezes sem saber há quanto tempo estava dormindo, e a cada vez parecia estar cercada de pessoas estranhas que se movimentavam pelo quarto. Não sabia onde estava, nem o que acontecera com seus pais. Isso tudo era um terrível pesadelo, e ela queria acordar.

Em um momento de lucidez, conseguiu falar com uma mulher que estava sentada próxima a sua cama. Vendo-a acordada, a mulher chamou outras pessoas, que correram até o quarto e a seguraram.

- Afinal, o que está acontecendo aqui? - Então, você não sabe menina? - Onde estão meus pais? -Mortos, eles estão mortos... - Mortos? Como? - Você os matou, não lembra? A facadas e dentadas...

Não era possível! Finalmente soube onde estava. Um hospital psiquiátrico para onde havia sido levada após um surto. Fora encontrada desmaiada e coberta de sangue, ao lado dos cadáveres de seus pais. Agora estava só e era odiada pelos parentes que lhe restavam. Pediu para falar com o médico. Levaram-na até ele. Contou a história do macaco, esperando que acreditasse nela.

- Ling, já conversamos sobre isso. Este macaco não existe. Você o criou para justificar o crime que cometeu. - Como assim lhe contei, é a primeira vez que venho aqui! - Você não lembra? Conversamos nesta mesma sala todos os dias. E você sempre conta essa história do macaco.

Ling estava desesperada. Parou de comer. Parou de dormir com medo de não se lembrar das coisas que fazia. A sua saúde física começou a causar preocupação.

O médico que sempre a atendia pediu que a levassem até seu consultório novamente. - O que posso fazer por você, menina? Não pode se entregar assim! - Acredite no que eu digo, dê-me uma chance para provar que não matei meus pais. Leve-me até a loja onde encontrei o macaquinho, por favor. O homem imaginou que talvez fosse importante para ela, defrontar-se com a realidade, e prometeu levá-la até o antiquário, para que esclarecessem a história do macaco.

Passaram as três semanas seguintes em Pequim, ela, o médico e duas enfermeiras. Aceitou dormir amarrada na cama do hotel, pois seus acompanhantes achavam que ela podia tornar-se perigosa.

A loja ficava num beco igual a milhares de outros. Parecia nunca ter existido.

Uma tarde, entretanto, ao sair para mais uma busca, Ling viu de longe os leques coloridos na vitrine. Era ali! Perto a casa de sopas com sua fumaça se espalhando para fora da porta. Ling sentiu um enorme alívio. Finalmente iria acabar aquele tormento.

Quando os quatro entraram na loja, lá estava o mesmo vendedor, mostrando suas inúmeras caixinhas coloridas para outra família. Uma família animada como fora a dela.

Ela olhou para o homem que pareceu reconhecê-la. - Por favor, me ajude. Estou aqui por causa de uma estatueta de jade que levei da sua loja da última vez que estive aqui. Eu a queria devolver, mas não sei onde está. Ela matou meus pais e nunca mais a vi. - Como disse? Uma estatueta matou seus pais? Desculpe, mas é uma história difícil de acreditar. - Espere! O senhor deve lembrar dela. Era a estátua de um macaco verde com olhos brilhantes. -Desculpe, garota, nunca vendi macacos aqui.

Ling sentiu o chão se abrir sob os seus pés. Então o tempo todo fora um espírito maligno que tomara a forma de enfeite para destruir sua vida! Cansada, ela se encostou ao balcão e começou a chorar copiosamente. Com pena, o vendedor a chamou para as prateleiras dos fundos da loja e pediu que ela escolhesse qualquer artigo que quisesse, já que não pudera ajudar.

Entre as prateleiras mais altas havia uma linda bonequinha de porcelana, como a outra que comprara no ano anterior, junto com seus pais. Quando se virou para agradecer viu que o homem a encarava. Seus olhos eram de berilo brilhante e seus dentes pontiagudos estavam arreganhados como os de um animal prestes a atacar. Ele a fitou e piscou um olho de cada vez, e depois tudo ficou escuro novamente.

A polícia chegou vinte minutos depois. Quatro funcionários do hospital psiquiátrico e o dono da loja estavam mortos, banhados de sangue pelas múltiplas facadas e pelas mordidas.

No meio da confusão em que estava a loja, o mais jovem dos policiais avistou uma linda estatueta de jade. Um macaco verde com olhos de berilo. Colocou discretamente no bolso e resolveu dá-lo de presente à sua filhinha, a pequena Mei...

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