Erráticos


Naquela noite, acordei com pingos de chuva molhando o meu rosto. Fazia muito, muito frio e o mar não estava revolto, apesar da tempestade que se movia no céu.

Relâmpagos, trovões, rajadas de vento ao longe...

Estava muito escuro e vazio.

Com o pouco que pude enxergar — graças aos lampejos no céu — pude perceber pequenas dunas e uma vegetação rasteira, além de grandes estruturas negras erguidas na areia ao longo da costa. Minha mãe, meu primo e o meu cachorro descansavam perto do fogo.


O silêncio da noite pesava nos meus ombros, trazendo consigo uma angústia que é difícil explicar. Salvo breves roncos de trovões que se espalhavam no horizonte e as ondas do mar na sua calmaria cinzenta. Não havia sinais de civilização, faróis, entrepostos, torres de comunicação, nada que pudesse nos direcionar para algum lugar ou um pensamento. Eu e minha mãe sentimos falta do nosso cachorrinho, um poodle misturado com vira-lata, nem muito grande, nem muito pequeno, já na fase final da sua vida.

Ele simplesmente sumiu, sem fazer barulho, sem deixar rastros.

Não sei dizer se ele foi levado ou atraído.

Mas, mal esquecemos de pensar nisso, pudemos ouvir seus grunhidos e fomos em sua direção.


O seu corpo havia se alongado para três vezes ou mais, suas patas ficaram muito longas e magras, com isso ele não conseguia se firmar. Ademais, se tremia muito e nos olhava com um olhar que me rasgava no meio, como se eu pudesse sentir o aço da dor que lhe consumia.

Voltamos correndo para ver se havia algum medicamento nas nossas mochilas que pudesse lhe servir. Quando minha mãe e eu chegamos, as mochilas estavam jogadas perto da fogueira. Olhamos em volta tentando encontrá-lo, até que com o clarão de um relâmpago, conseguimos vê-lo na água. Ao se aproximar e perguntar-lhe o que ele estava fazendo ali, ele começou a falar coisas que me fizeram estremecer:


Vocês não conseguem perceber que estamos presos neste lugar?

Olhem os seus relógios, olhem as bússolas, já faz três dias desde o acidente, as bússolas não indicam a direção, a tempestade nunca chega até essa parte da praia. O mar não se levanta nem mesmo com o tempo de chuva, numa incrível precisão ele mantém o nível o tempo inteiro. Não há sequer uma ave marinha, animais noturnos ou roedores, como era de se esperar num lugar como esse.

É como se o tempo não passasse.

A vida não prospera e não se desenvolve por aqui. Há apenas uma falsa sensação de vida, como se as coisas fossem dar certo a qualquer momento,

Mas esse momento nunca chega.

Enquanto vocês dormiam eu estive observando o céu: as constelações estão todas disformes. Eu consegui encontrar apenas a Ursa Menor e ela estava no Leste, e vocês sabem o que isso quer dizer? Ou este é o nosso planeta depois de um cataclismo sem precedentes na nossa história, ou estamos definitivamente fora dele, num lugar totalmente desconhecido.

Qualquer pensamento fora dessas possibilidades deve ser descartado.


O meu primo começou a passar muito mal e o levamos para a areia. Balbuciando, ele ainda nos alertou que podia ser a água do mar. Nossos suprimentos estavam no fim, então ele resolveu se arriscar ingerindo uma pequena quantidade.

Com muita dificuldade para respirar, ele pronunciou:

— Encontre a Estrela Polar, o Norte fica no Leste. — Assim que ele desfaleceu nos meus braços, eu percebi que minha mãe havia sumido também. Eu saí correndo feito um louco deixando o meu primo no chão, mas não a encontrei em lugar algum. Fui até onde estava o meu cachorro e nada, não havia nada: Nem mochilas, nem fogueira... Tudo havia sumido. Isso me fez sentir uma agonia que me lembrou os tempos de escola.


Algumas horas depois, a tempestade começou a se dissipar.

Em silêncio, passei a olhar as coisas em volta,

Sentindo o peso dos dias no cabelo em meses, anos e aflição...

Além da quietude, o dia nunca amanhecia por aqui.

A lua estava muito distante, pelo menos duas vezes menor do que o seu tamanho normal e o vento soprava sempre na mesma direção.

As nuvens estavam indo para longe, assim eu pude enxergar melhor o que se passava no quadro celeste:

Rabos de cometas, constelações, poeira cósmica, supernovas...

Inclusive um sol, com um tom de azul-anil, seguido por enormes planetas alinhados que se moviam diante dos meus olhos...

A Leste, lá estava ela,

Polaris

Indicando, no horizonte marinho, como um enorme rabo de baleia:

A minha solidão.




0 visualização

© 2019 porandubarana. Orgulhosamente criado com Wix.com