ESCASSEZ

"A vida evoca vibrante que seiva dos veios não vase. De vociferante voz se vale, esvaziando-se de valentia. Fenda feita, faz o fluído fátuo da ferina faca fluir em queda farta e fatídica. Uma abrupta e invisível força que age pelas mãos do seu nefasto candidato a possuidor. Grita, estremece, chora. A luta vã se torna uma chama fraca e vacilante deixa correr uma lágrima. A última súplica da vítima indefesa. Nos braços trêmulos do monstruoso assassino, cai tal qual a árvore transformada em tronco depois da última machadada. No derradeiro golpe o violento lançar de lascas, dilaceração de seus vasos e canais e sua fecundidade extirpada ainda nas flores em botão. Sem respiração, sem exalar calor, sem pensamentos. No ato de um assassinato uma vida termina, nada mais depois disso fará parte dela e tudo antes será parte do ato frio e brutal da morte em si. O assassinato, o cálculo, a crueldade. A culpa (se houver). Os vestígios deverão ser apagados. Nas mãos do assassino o resultado da sua própria prática. A beleza e a vida, de uma vez se vão. Para onde? O que fica é o esfacelamento iníquo e feio de um ser humano. A desconstrução da obra-prima da criação. O oco, um borrão, uma marca, um furo, um corte, um nó. Ele não cria, ele extingue, fulmina. O destruidor da vida destrói a si mesmo buscando restauração em seu ato. Uma crescente e vazia busca que termina e começa depois e durante cada assassinato. O ciclo recomeça e incessante segue. Nada a perder, tudo a perder. Sempre fica a pergunta. O que eu sou? O que significa isso? O que impulsiona cada sopro, cada brisa? De onde vem o vento, para onde ele vai, quem o soprou?"

Parecia o início de um romance promissor. Mas logo a página escrita em meio se foi fora; uma bola jogada no cesto, entre tantas que jaziam nati-mortas. Nada germinava no terreno infértil da sua criatividade. Ele queria que jorrasse um romance; sim, como já uma vez aconteceu quando escreveu "Cartas aos Mortos". Assim mesmo, cigarro atrás de cigarro, uísque atrás de uísque e ideia atrás de ideia; uma puxada por outra como uma locomotiva com uma infinidade de vagões. Foram seis meses e estava pronto um romance de 400 páginas. E agora dois meses e um completo vazio. O que o fazia invariavelmente desistir e voltar para as telas. Mas a sensação de fracasso persistia, parecia querer condená-lo completamente, em tudo que fizesse. Claro que não era um artista plástico e neste quesito não precisava se cobrar tanto. Era só um passatempo que poderia distraí-lo e quem sabe render-lhe frutos para adornar a árvore seca que se tornou seu cérebro. Pensava em morte, em desilusões, tristeza, a solidão e assim usava seu pincel grosseiramente.

Projetava traços bem marcados de rudeza e caos. Uma tela antes branca, agora em plena construção; constava de um retângulo preto em volta, como uma moldura. Traço disforme, descontínuo, lembrando uma longa corda feita de cabelos. Então no canto superior direito, vermelho sangue, uma lua viva e apavorante. Com borrões e finas falhas (como rachaduras) laranjas e roxos para as crateras e sombras. A paisagem se erguendo do chão crescia como brotada de um pesadelo (árvores secas e distorcidas, montanhas escarpadas de formas agonizantes, como fetos em estado de sofrimento e dilaceração). Parecia ser a materialização de todos os seus tormentos e era como se os passando para a tela se livrasse deles, tornando-os vivos para poder matá-los.

Era a maneira em lidar com a morte o que mais lhe afligia na construção do romance, ou a maneira como não lidava com a morte. O fracasso ao tentar penetrar na mente do seu assassino, personagem principal da estória. Não queria simplesmente descrever os assassinatos em sua mais dura e chocante aparência, mas pôr para fora tudo que o executor desses crimes sentia ao cometê-los. Para que o leitor também pudesse ser o assassino, se transportando para dentro de sua mente como por bisonha empatia, através da riqueza e realismo que beirariam o perfeccionismo. Isso o estava enlouquecendo, claro. Por isso pintava quadros cada vez mais delirantes e sem significado, que ultrapassavam o senso coletivo do tão tênue critério usado para definir hoje em dia o que é arte ou não; e nisso via sua distante ambição de um dia se tornar um artista plástico, ainda mais distante.

A última pincelada tão apaixonada e cheia de fúria o fez viver por um momento a noção de realidade, como se a loucura acabasse de lhe deixar ao largar o pincel. E encarando sua obra com olhos criteriosos e lúcidos outra vez ficou tomado de um ódio e um repúdio tão grandes que com pincéis e tinta furou, rasgou e emporcalhou toda a sua trabalhosa obra a qual empenhara já duas horas, sem parar, de seu precioso tempo.

A chaleira apitava. Sonoridade irritante e cotidiana, como um baque; aviso incomodo que o mundo o chamava. Aí pareciam vir os outros sons da rua. Despertou desgostoso e mole, arredio. Fez seu chá preto, algumas bolachas salgadas e sentou-se no sofá. Sem nenhuma utilidade para o resto das coisas assim como o resto das coisas para ele era sem utilidade.

Os canais além de filmes e programação ruins tinham muitos comerciais e lembravam bem o velho e desgostoso mundo. Tão agonizante, moribundo e perplexo diante de si mesmo. Como um disco arranhado ou um conto infantil com as velhas lições de moral, alguns sem moral. Sabe-se o meio e o fim, ignora-se o início. As velhas e bisonhas origens às quais nunca se faz justiça. E origem para ele remonta ao primeiro assassinato e ele fica pensando em Caim e Abel e na maldade no coração do primeiro homem para que matasse seu irmão por ciúmes e isso soa tão sem sentido. Poderia ser o ponto de partida para que pudesse entender os mecanismos misteriosos que levam ao assassinato? O mesmo impulso irracional que fez Medéia matar os filhos por se sentir repudiada por Jasão. Ou mesmo a loucura de Héracles, que possuído pela deusa ciumenta matou a família sem ter consciência do próprio ato, dizem ou justificam assim os gregos.

O velho Richard Wanley, seduzido pela jovem e ambiciosa Alice Reed em Um Retrato de Mulher, ocupava a tela. Ambos mentirosos, um pela circunstância; outra que às próprias circunstancias moldava suas artimanhas e armadilhas para conseguir o que queria, ou seja, pôr suas mãos no dinheiro que achava que o velho tinha. O pintor “famoso” que vivendo uma vida sufocante e opressiva tanto no trabalho quanto em casa, com a mulher dominadora e insuportável, passava o tempo pintando quadros de certo valor sentimental. Mas o filme, já o tinha visto mais de dez vezes, embora qualquer filme de Fritz Lang para ele poderia ser visto a cada vez como se fosse a primeira, causava agora nojo e ansiedade, mas não era culpa do filme, como ele sabia. Era sua a culpa.

A temperatura do corpo parecia subir rápido e uma vertigem passou a lhe perturbar. Naquela sua visão mais realista das coisas, uma projeção paralela, mais acima da sua própria visão do mundo e das coisas, onde tudo era como tinha de ser; foi que ficou claro, como sempre acontecia, o que tinha de fazer para fugir da sufocante atmosfera que o deprimia.

O parque ao entardecer era romântico. Com as flores e os cheiros que se misturavam, tanto da natureza quanto das pessoas, os animais e tudo que era bombardeado para a atmosfera. Os cigarros, as fumaças dos carros, os hálitos que expeliam seus aromas.

O passeio de bicicleta pelo parque o fez tão bem como nada que tivesse experimentado antes. Deu-se conta da sensação claustrofóbica e desesperadora que sentia em seu apartamento, infestado das suas nefandas obras inacabadas. Isso o estava enlouquecendo e o tornando refém de sua capacidade, ou incapacidade de realizar coisas.

Como foi maravilhoso então descobrir que sendo tão ordinário como qualquer um para quem torcia o nariz, teria a revelação de algo inalcançável como escritor? Era preciso se rebaixar para entender todos os mistérios? Como os deuses que desciam do Olimpo com frequência para partilhar com os humanos das suas fraquezas, seus equívocos, temores. O deleite dos imortais deve ser o suprassumo que preenche os ossos ocos da débil estrutura dos homens.

Da luz do poste, que acabara de se acender, às pessoas. A efervescência dos movimentos comichava nele e o incomodava. Sentia tudo, parecia irradiar delas até as vibrações mais leves. Foi então que uma mulher em especial lhe chamou atenção. Captava auras no ar e a dela era como a de um anjo. Loura, longo cabelos encaracolados, uns lábios pecaminosos e vermelhos, marcantes. Os olhos, como luzeiros, iluminavam e mostravam a direção. As distrações todas para se desviar e se perder estavam ali e começando pelos olhos a presa poderia se render.

Maria Clara, passeava pelo parque. Sentou-se num banco, à sua frente e começou a ler um livro que tirou da bolsa. Tão fora de si como um adolescente apaixonado ele ficou ali observando atento, mais que atento, estava fascinado. Era um culto, o objeto do culto uma deusa, radiante, tangida pelo Éter, inatingível e insuperável. Causava todos esses efeitos nele, como uma droga forte.

Maria Clara. Ele e Maria Clara agora ali, os dois, sim os dois. Lado a lado. Ele estava lendo para ela e a aproximação foi tão natural quanto chuva de verão, que vem sem esperar, embora já deva ser esperada.


“As palavras se movem,

a música se move Apenas no tempo;

mas só o que vive Pode morrer.

As palavras, após a fala,

Alcançam o silêncio”.


Declamava para ela, inflamado de paixão, deixando letras caírem da boca com a dramaticidade que exige a poesia, como trovões espalhando ondas devastadoras de sua presença poderosa pela expansão infinita dos ares. Não tinha como se conter e não sabia de onde tanto furor surgira. Tudo que pedira em suas orações às musas e que buscava em copos de uísque, em cafés e cigarros e demais drogas, agora alcançara assim, de supetão, ao declamar uma poesia.

Então veio a assustadora questão. Era a poesia ou a situação; aquele momento, a jovem? Aí sentiu pavor e confirmou a suspeita, como quando se percebe um corte e vem a dor, porque antes de saber-se ferido, você não sente nada.

Estava ferrado, enredado, enlaçado. Como? De cinco relacionamentos em sua vida? Todos fracassados e tão equivocados que fariam até o mais desgraçado dos homens sentir-se um rei virtuoso diante de tão destrambelhada e azarada criatura?

De tudo, encenando sempre o mesmo drama, no mesmo palco, sendo o mesmo patético e limitado ator, que se ao menos fingisse como fazem os atores, aí se sairia bem. E em todo esse emaranhado de sentimentos e sensações ele a levou para casa.

As mãos se tocaram, os olhos se iluminaram e todo o resto meloso que as novelas e os romances já inventaram também.

Os quadros quebrados, a tinta que rendilhava o apartamento, manchando toda realidade e impingindo nuances de um filme noir, deixaram Maria Clara assustada a ponto de ir embora. Mas o que a fez ficar nem ela sabia ao certo. Aquela atmosfera era asfixiante e mesmo assim uma paz e uma confiança estranhas a acompanhavam. Ela passou a fazer parte daquele mundinho pequeno dele. Todas aquelas telas grosseiramente pintadas, os borrões e excessos que escorriam, como se não contivessem tanta sagacidade. A lixeira cheia de bolas de papel.

Maria Clara desamassou uma e começaria a ler, mas ele não deixou. A censurou tapando sua boca com um beijo. Então tudo ficou mais estranho, menos controlável e ele sentiu medo. Não por estar com uma mulher, mas por não poder antever o que viria. Estar com uma mulher naquela situação era uma experiência esquecida para ele, dos tempos de escola. Sua medíocre vida adulta perdeu-se em bares, sarjetas e prostitutas. E a inexperiência de Maria Clara a contraponto não ajudou em nada e tudo pareceria terminar em desastre. Mas aí as carícias e beijos foram menos apressados e provocativos e passaram a ser ternos, vagarosos, degustativos.

Os dedos e as bocas procuravam sem achar e escorregavam tenuamente. E ele passou a sentir um desejo estranho e pensamentos que tinham ficado esquecidos apareceram. O assassino do seu livro. O desespero enlouquecedor de não conseguir lhe dar veracidade e Maria Clara ali, uma vítima involuntária, que tinha aparecido de forma completamente oposta ao que desejara.

Iria matá-la para provar sua teoria? Para poder entender o assassinato e assim dar ao seu personagem uma convincente performance? A performance de um monstruoso assassino. O criador teria que se transformar na criatura? E Maria Clara completamente imobilizada sob ele, viu seu rosto gentil mudar de forma tão repentina e terrível. Uma bocarra contorcida num sorriso medonho, os dentes caninos tão pronunciados e os olhos esbugalhados como se ao invés da intenção de matar fosse ele quem estivesse morrendo.

A força crescente e enfurecida daqueles braços musculosos, logo sessaram toda a vida do corpo de Maria Clara. Apavorado ele saiu de cima dela e em desespero a observava. Os braços estendidos, nua, morta. Morta, estava morta.

Tentou reanima-la, deu tapinhas no rosto, buscou um copo d´água e jogou nela. Tentou respiração boca a boca e todas as ações de uma pessoa desesperada. A beijava, chorava copiosamente sobre seus seios, pegava em sua mão, contemplava seus olhos abertos e inertes, sem brilho. Nada mais a se fazer. Essa era a sensação, agora sabia. Mas a que preço? Ela estava morta e em seu ato de arrependimento lançou-se dali pra baixo sem nem pensar e estatelou-se após cair de uma altura de 8 andares.

Acordou no UTI do hospital Santa Catarina, com o corpo engessado dos pés à cabeça. A perna direita suspensa e o quarto cheio de flores e presentes. Dentre os presentes uma Olivetti Lettera 10, e aquela ideia fixa martelando na sua cabeça: Preciso escrever, preciso. É preciso escrever.

– Rita? – Ele chamou, ela estava no umbral e virou-se.

– É você, bisonho? Oi, bisonho? Lembra do apelido que te dei?

– Eu lembro, esquisita. O Seu era esquisita. – E sorriu depois de muito tempo. Um sorriso que se desmanchava como se se esparramasse de uma vez.

– Sei que a máquina de escrever é presente seu. Eu quero escrever. Posso ditar pra você? É preciso. Eu tive que matar e morrer pra buscar essa inspiração. Pode acreditar.


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