Espelho Turvo



“Em que espelho ficou perdida A minha face?” - Cecilia Meirelles -

A luz do sol esparramou-se pelo jardim, venceu as cortinas e invadiu o quarto me despertando. Num estado de tranquila letargia, permaneci por algum tempo deitada em silêncio, sem abrir os olhos e absorta em meus pensamentos, desfrutando de uma tranquilidade morna, até que um relógio esquecido em algum canto da casa bateu as horas e me despertou completamente. Ainda espalhada em meio aos lençóis, fui subitamente tomada por uma forte sensação de estranhamento. Porém, não poderia dizer o que me incomodava, senão que estava certa de que algo faltava naquele cenário, como se o mundo tivesse amanhecido incompleto.


Apurei os sentidos atenta a tudo o que estava ao meu redor em busca de uma resposta. Então me dei conta de que era impossível reconhecer aquele silêncio que impregnava o ar, pois não era comum que àquela hora ainda não se ouvisse a menina pela casa. Levantei-me depressa e me envolvi no roupão perolado, sentindo o toque macio da seda em minha pele, o que provocou em mim um estremecimento prazeroso.


Saí para o corredor que estava completamente vazio, percebi que havia movimento no andar térreo onde a criadagem preparava o desjejum para minha família. Segui em direção ao quarto da menina e, ao abrir a porta, assustei-me ao me deparar com o cômodo em perfeita ordem. Havia algo de imaterial ali que me provocou uma sensação desagradável. Reparei que os brinquedos estavam todos nas prateleiras, intactos, e que tampouco a menina estava ali. Talvez naquela manhã ela tivesse se levantado antes de mim e aquela inesperada quebra em nossa rotina me assustou.


Desci a escadaria chamando por ela, mas não obtive resposta. Andei pelos cômodos claros, limpos e sem vida, porém não a encontrei em lugar algum.


Inesperadamente, ouvi o som de música sendo tocada e aquilo me perturbou, pois nenhum de nós tocava piano. Aquele som lúgubre me causou um aperto no peito e senti a necessidade urgente de encontrar a menina e abraçá-la, protegê-la e lhe dizer que ela nunca deveria sair de perto de mim.


Senti-me perdida e sem ter certeza do que fazer chamei pelos criados e naquele momento tive a nítida impressão de que, ao ouvirem minha voz, eles pararam tudo o que faziam e se colocaram em silêncio absoluto. Aquele comportamento me fez acreditar que eles tramavam algo contra mim e uma súbita sensação de pavor espreitou-me.


Temendo algum mal que eu não pudesse reparar, corri até a cozinha onde me deparei com uma das criadas. Chamei-a rispidamente e quando ela se aproximou percebi que tremia e que o medo transbordava por seus olhos. Não passava de uma jovem estúpida e de pouca inteligência que me olhou como se estivesse vendo um fantasma.


Perguntei-lhe onde estava a menina, porém ela manteve-se em silêncio e, mesmo quando agarrei seu braço com força ordenando que falasse, ela não disse uma palavra, mantendo os olhos fixos no chão, como se não tivesse a mínima ideia do que eu dizia.


Aquele silêncio impertinente me revoltou.


— Onde está a menina, sua inútil? — Gritei e lhe esbofeteei o rosto.


Um filete de sangue brotou de sua narina dilatada e feia, fazendo-a chorar baixinho. Não demorou a que outros criados acorressem à cozinha, possivelmente alarmados por meus gritos. Uma das mulheres que aparentava ser a mais velha do grupo e a quem eu não reconheci apesar de sua fisionomia me ser vagamente familiar, puxou a criada que chorava para junto de si, como se para protegê-la de mim.


— O que estaria acontecendo? — Perguntei-me enquanto aquelas pessoas me olhavam com seus olhos bovinos numa mescla de temor e pena, como se houvesse algo de errado comigo. Inquietei-me sobremodo, pois, por mais que aos gritos e ameaças eu exigisse que eles me dissessem onde estava minha filha, ninguém me respondia.


Eu estava assustada com tudo aquilo, mas não podia deixar que eles soubessem que naquele momento eu começava a temê-los. Eles me escondiam algo, eu tinha certeza. Tentei pensar, pois algo gritava do subterrâneo de minha mente, mas que eu não conseguia ouvir. Então fui tomada por um pensamento terrível — talvez eles a tivessem levado!


Apavorada, percebi o sangue pulsando com terrível força por todo o meu corpo e um intenso mal-estar apoderou-se de mim. Senti como se minha alma estivesse sendo extraída de meu corpo e em meio a loucura que parecia me dominar, me lembrei da piscina. Sim! A menina adorava aquela piscina, talvez tivesse se levantado e ido para lá. Talvez estivesse sozinha sem ninguém para vigiá-la.

Temi que algo pudesse ter acontecido à criança — naquela armadilha líquida —, um acidente, uma tragédia. Então deixei aquele bando de seres de pouca inteligência para trás e corri em direção ao quintal sem que ninguém me impedisse. Para meu total desespero, quando cheguei lá constatei que todo o espaço que se estendia da casa até os limites da propriedade era apenas um longo gramado verde. Não havia piscina alguma ali e aquilo me desconsertou de tal forma que cai no chão chorando.


A minha última esperança de encontrar a menina desvaneceu.


— Onde está ela? Onde está a menina? O que vocês fizeram com ela? — Eu gritava e esmurrava o chão e chorava em desespero, sem conseguir entender o que havia de errado com o mundo naquela manhã.


Os criados haviam me seguido até ali apenas para me observar de longe como autômatos. Seus rostos de cera branca, sem expressão, não demonstravam qualquer sentimento. Não havia medo ou remorso, apenas me olhavam apáticos, como se eu fosse um animal em um espetáculo bizarro que eles já conheciam bem.


Ajoelhada na relva onde antes — eu estava certa disso — havia uma piscina, senti um vazio imenso, como se um pedaço de mim estivesse faltando e uma dor atroz cortou meu peito. Eu estava a ponto de perder a consciência quando fui amparada por braços firmes que me envolveram num abraço carinhoso. Era meu marido, belo e forte, e aquela visão me devolveu um pouco de segurança.


— André onde está a menina? O que esses criados fizeram com ela, André? — Perguntei em súplica, como se ele tivesse o poder de desvendar aquele mistério.


— Vó, sou eu, o Felipe... levante-se, vamos. Você precisa voltar para o quarto... você não está bem essa manhã.


— Felipe? — Questionei sentindo um fio de lembrança que há muito se perdera.


— Sim, vamos devagar, eu te ajudo — disse aquele homem que eu sabia ser meu marido, mas que de repente me pareceu muito jovem e cujos olhos tinham agora uma cor diferente da de antes — Tome isso, vai se sentir melhor – falou me oferecendo duas pílulas e um copo d’água.


Confusa, obedeci como se soubesse há muito tempo que aquilo era o certo a se fazer. Levantei-me devagar e me deixei guiar de volta para dentro da casa. Os criados ainda me olhavam assombrados quando, amparada pelos braços de meu marido, passei por eles e pude sentir que havia algo que eu devia saber, mas que mais uma vez me escapava.


O interior da casa agora me parecia muito diferente. No lugar dos móveis de madeira escura estavam peças deselegantes que eu não me lembrava de ter comprado ou de tê-las visto alguma vez em minha vida. Não tinha a mínima ideia de quem havia redecorado tudo sem a minha permissão e com tamanho mau gosto, porém, o que mais me perturbou foi aquele objeto estranho em nossa sala de estar, algo medonho e semelhante a um cinematógrafo de onde jorrava uma luminosidade agressiva enquanto uma mulher com a voz cristalina parecia anunciar as notícias do dia.


Como aquilo era possível? Será que eu estava enlouquecendo? Senti que minha determinação começava a arrefecer, não sei se por efeito daqueles comprimidos que meu marido havia me dado ou pela falta de lógica da realidade à minha volta.


— Porque ele disse que se chama Felipe? — Questionei-me, mas meus pensamentos agora vinham devagar, não mais como uma avalanche de nomes e rostos que se fundem e, enquanto seguia com passos lentos em direção ao meu quarto, as fotos nas paredes do corredor despertaram minha atenção. Havia tantos rostos que eu conhecia ali. Meus pais, meu marido, meus filhos pequenos.


— Onde estariam todos eles agora?


Havia também rostos que eu não sabia de quem eram. Eu queria perguntar por que aquelas pessoas desconhecidas enfeitavam as paredes da minha casa, mas percebi que não conseguia articular as palavras, minha boca, assim como todo meu corpo, estava entorpecida.


Em meio as cenas de casamentos, batizados e festas encontrei uma foto da menina, ela tinha por volta de seis anos de idade e estava vestida com seus trajes de banho, pronta para a piscina e eu me lembrava de que aquela foto havia sido feita no dia anterior.


Detive-me ali para vê-la melhor e fui tomada por uma saudade incompreensível e absurda, como se eu não a visse há décadas. Meus olhos se encheram de lágrimas que deslizaram por meu rosto, sem que eu pudesse compreender aquele vazio na alma. Não podia entender porque levaram a menina de perto de mim, ela era apenas uma garotinha e precisava de sua mãe.


Encorajada por meu marido que ainda me amparava, continuei caminhando com dificuldade em direção ao meu quarto, minhas pernas perdiam as forças aos poucos e eu me sentia sonolenta, então me espantei quando, ao me deparar com o espelho emoldurado no final do corredor, tive certeza de que o rosto que me olhava de volta não era meu, mas sim de uma mulher velha e triste.



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