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Giovana


Ela não iria parar, o plano era seguir em frente e chegar o quanto antes à estação, a viagem seria longa e mesmo que ela já estivesse acostumada sempre a cansava um pouco ter que voltar pra depois voltar outra vez de onde havia partido, haveria sempre essa necessidade porque seu coração batia em dois lugares. Unificar seu coração significaria ter que voltar e encontrar a outra parte, e essa parte sempre está à sua espera com olhos brilhantes e gargalhadas de uma inocência intocada, a outra parte do coração dela se chamava Giovana...

Só que durante o caminho, caminho esse que assim como todos os caminhos pode vir a ser outros caminhos, ela começou a ver sem ter que usar os olhos, por trás das lentes que a permitiam melhor enxergar o mundo que se projeta diante da mínima intenção de viver, ela passou a ver as cores dos sentimentos, sentir o cheiro das lembranças, tocar a maciez de um desejo e sonhar sem moedas nos bolsos. De repente, a praça que a tanto ela conhecia ganhou formas que antes sua saudade não lhe permitira contemplar.

A vontade de sentar no banco sem qualquer obrigação ou objetivo empurrou-a com carinho e ela percebeu que há tempos não se permitia a alegria de um nada, ela que precisava ser tudo porque se não fosse, a outra parte de seu coração a lembraria que ela jamais seria só outra vez... diria de longe que não era preciso ter medo... um dia ela cresceria e elas conversariam, se olhariam, e se amariam com esse mesmo amor que agora a apressava ao mesmo tempo em que pedia pra que ela parasse um pouco e apenas olhasse ao redor. Sentisse. E ela sem perceber já estava sentada, e diante dela o que somente ela entenderia desfilava pra que ela fosse capaz, sem que quisesse, de observar o rumo das coisas. Coisas que foram, são e serão. Discreta, a vida lhe fizera um convite e discreta, ela aceitou.

O vento estava bom. Tranquilo. Lembrava algo perdido. Tanta coisa havia se perdido em tão pouco tempo... não... Não seria preciso ter que reviver tudo, seria?

No entanto, acontecimentos vividos eram revividos, ela não queria e ainda assim sabia que reviver era uma lei pra quem já perdeu um dia, a perda fica naquele lugar que você nunca mais quer ir outra vez só que para abraçar o “novo”, precisa passar por ele e sentir suas unhas arranharem com frieza o orgulho que nos faz prosseguir. Se ela conheceu o sofrimento, não se saberia ao certo, ou se o que um dia ela pensou que fosse felicidade talvez fosse apenas o reluzir de uma vela que abre caminho rumo ao desconhecido de todos os dias, tudo seria sempre o momento... Sempre momentos que se deixam acariciar e depois somem... Momentos que nos dão pra depois tomarem sem dó o que só a lembrança por piedade replicará. Observando crianças caindo e se levantando, ela lembrou que antes para ela cair não era nada além de se levantar, e agora, estaria ela caída sobre si mesma? Estaria sendo a vida sua professora mais cruel e amiga?

Entre momentos e o momento ela então se deu conta de que se fosse realmente amor... se fosse realmente... então o que seria a dor? Um sem o outro assim como ela agora lembrava que estava sem ele eram tão solitários como a verdade indubitável... Ela pensou que seria pra sempre, a parte eternamente moça dela quis com suas mais puras forças que tivesse sido. Mas nem só de querer vive um sonho... a ilusão que o despertar desfaz apaga qualquer caminho e reescreve com lágrimas o único caminho que pode trazer o que não se tem. Vivendo e morrendo a cada dia, ela agora percebia que recomeçar é um ato que independe do agir, e logo ela que escolhera agir pra mostrar a si mesma que o que se desfez ainda poderia ser refeito dentro dela porque ela ainda teria o restante do dia, e tantos outros dias... e tudo que ela nem sabia... tudo que vivo dentro dela clamava pra que ela acreditasse que é possível. É possível. Sim. Ela sabe. Sabe sem precisar saber...

O sol já dava seu último suspiro quando ela despertou e olhou a hora. Nossa! Quanto tempo havia passado? Isso não importava. Seu coração batia feliz porque em instantes ele estaria completo de novo, sim... ele clamava por um nome que era também uma esperança... um nome que seria pra sempre o de uma criança... o nome mais lindo que seu futuro agora chama... o nome que também é dela... ela que também é Giovana...

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