(IN)FELIZ RETRATO

A fotografia mostrava uma mulher jovem, bonita, com seus trinta e tantos anos, um sorriso despreocupado, de satisfação e disposição joviais. Ruiva, com sardas, usava brincos de brilhantes e vestido preto decotado. Estava numa festa, ao fundo outros convidados, nas mesas, em pé conversando, garçons servindo, passando. Um momento feliz na vida dela. Na vida de Estela.

A foto que capturara aquele momento alegre agora oscilava sobre sua barriga, acompanhando a fraca respiração. Tinha apanhado muito e resistia, estirada no chão, aos trapos, como um pano rasgado e sujo, mas que ainda é um pano.

O silêncio a apavorava. Não prever quando ele voltaria, o que faria, qual seria o próximo golpe. Quem sabe a matasse, o que mais restaria? O seu corpo destroçado não poderia mais suportar. Ela morreria lutando, era forte e não se entregaria.

Na cozinha a gaveta de talheres era remexida. Ouvia-se o som dos metais se chocando. O desespero como um cão a mordia no calcanhar, para depois abocanhar um pedaço da sua alma. Alma embalada pelo medo, mas que recorria a um resto de fé, que já se esgotava. As mãos tremiam muito e dificultavam ainda mais a tentativa de soltar as amarras. Eram presilhas que quando puxadas mais apertavam e estava se machucando muito, até perceber que se queria continuar viva teria de pensar em outra coisa.

O grampeador no alto da escrivaninha era inatingível, pensou e agindo rápido contorceu-se como minhoca pelo chão até o móvel e passou a chutá-lo. Depois de umas três vezes o grampeador caiu no chão, aberto, os grampos pularam fora e ela conseguiu pegá-lo. Tentou, com as mãos amarradas, usá-lo para cortar as amarras, mas o grampeador era grande demais e as mãos tinham pouca liberdade de movimento, jogou-o no chão de novo e dessa vez segurou-o mais na ponta, conseguindo o movimento necessário, com a sua limitação, para grampear e grampear várias vezes, fazendo cortes na fita plástica. Ela ainda tentava se libertar da fita quando o homem se aproximou. Vinha com uma faca e ao vê-la em pé tentou ataca-la, mas Estela se libertou e usou o grampeador contra o homem o ferindo no olho, ele por sua vez a cortou no braço esquerdo, um corte profundo, mas estava temporariamente cego de um olho, debatendo-se, tateando o ar com as mãos e ela conseguiu escapar, foi até o banheiro, enrolou o braço em uma toalha várias vezes e amarrou, para estancar o sangue.

Na delegacia Estela contou tudo que passou. Todos os detalhes, as lembranças que ainda a faziam chorar. Não se perdoava por sua ingenuidade, ter-se deixado seduzir e pensava nas outras mulheres. Vítimas fatais, que não tiveram a mesma sorte, que nunca mais sentiriam uma brisa no rosto ou o cheiro de café pela manhã, porque estavam mortas.

Ivan Belikov, russo naturalizado, 39 anos, tão grande quanto as descrições literárias mais exageradas, como exemplar talvez o caçador de A Chapeuzinho Vermelho, com sua espessa barba ruiva, seus cabelos emaranhados e sujos debaixo da touca de lã, baforava sobre o corpo recentemente inanimado de Isadora. Olhava para a foto, depois para ela, fria, passando a mão no seu rosto, a beijando. Uma atitude doentia ou um arrependimento velado que aparecia. Mas era assim com suas vítimas, todas elas. E Isadora, a quinta delas, tal qual as outras seria contemplada em sua morte. Enquanto ainda tinha cor nas bochechas e a lívida, imutável rompedora de sonhos não esvaziara aquele simulacro de toda a energia da qual um dia fora portadora, ele buscava semelhança com a fotografia, que capturara naquele rosto sorridente seu último momento de felicidade. A noite se aproximava, àquela luz do crepúsculo que penetrava da janela da sala, Isadora finalmente revelava a dura e fria face da morte, que a possuíra por completo.

Gelada, só compunha a cena, como um objeto qualquer, não diferente de um sofá ou da mesinha de centro. Mais tarde, quando estava silencioso e só se ouviam os ratos mastigando nas lixeiras da rua, Ivan pôs o corpo de Isadora no porta-malas do carro. Sem cobri-la, não aceitava a morte como o fim e na sua loucura via o seu ato como um favor à própria vítima.

No caminho parou em um posto de combustível. Na loja de conveniência comprou cigarros, um pacote de Doritos e meia dúzia de cervejas. Agia naturalmente, conversando com o atendente, algo sobre o tempo e sobre o posto ter sido assaltado um dia antes. Ainda no estacionamento abria o pacote de salgadinho e uma cerveja e comia e bebia enquanto dirigia. Após uns vinte quilômetros pela estrada asfaltada ele encostou o carro num campo ermo. Fez uma ronda pelo local para se certificar de não ser surpreendido e então rapidamente ergueu o corpo o carregando e o dispondo cuidadosamente debaixo de uma árvore, como tinha feito outras quatro vezes. Todos os corpos foram encontrados sob árvores em locais isolados e distantes da cidade. Sobre o corpo a foto.

A pele branca, maquiagem carregada, a franja jovial que atribuía inocência em contraste com o batom vermelho e provocante. Um olhar vivo, de amor, de sonho. Agora não restava nada, nem sonho ou alegria. O sereno caia em gotas geladas que não podiam ser sentidas. Ivan ainda estava ali, tomando sua cerveja calmamente no carro. Talvez premeditasse seu próximo crime ou quem sabe pensasse no que faria para o jantar.

Helena, a quarta vítima foi diferente. Custou a matá-la, demorou-se encarando seus olhos doces antes de sufoca-la, fraquejou perante a sombra de qualquer nobre sentimento. Fosse aqueles olhos, tão cândidos penitentes, fosse a vontade que tinha em querer beijá-la, ele não sabia, mas vacilou e nessa noite se puniu por isso, de forma dolorosa. As chibatadas flagelavam o corpo e curavam a alma. O mal tem que ser puro, não pode haver manchas. Nenhuma bondade, sem piedade. Contrariando sua própria regra de não cobrir o corpo ele velou o rosto dela. Não conseguia encará-la morta. Os olhos que o fizeram fraquejar ainda abertos exibiam sua culpa como se fora refletida neles. Teve dificuldade mesmo em carregar o corpo e deixa-lo perecer.

Anastácia era a menina rebelde e esperta. Jovem, dada aos prazeres da vida. Não custou em se livrar dela. Representava tudo que detestava no mundo. As baixezas, a falta de autocontrole, rebaixando-se facilmente aos ardilosos desejos mesquinhos. Não era um homem religioso, ao contrário, mas considerava o homem o deus de si mesmo e o supremo exemplar da natureza e tinha convicções firmes quanto a seu caráter e poder filosófico e intelectual, que superava o de qualquer criatura. Considerava a virtude um dom herdado do próprio homem e quando alguém se esquecia disso e vivia de forma a abnegar essas qualidades intrínsecas, fazia crescer nele um ódio, que era irremediável, vigoroso.

Anastácia divertiu-se na noite da sua morte, cantou no caraoquê do bar, dançou para ele, com ele. Esvaziou sua cabeça de todos os problemas. Da vida dura que levava, do pai que não pagava pensão para o filho, o crápula que a pôs de barriga e depois deu o fora. De quanto teve que batalhar a vida toda para sustentar ela, a mãe doente e a filha e assim soltava-se nas noites como uma folha no vento, sem ter lugar certo para cair. Foi mãe muito jovem e ainda tinha uma boa parte da sua juventude para aproveitar. Mas Ivan só via nela a jovem delinquente, não conhecia toda a história, embora achasse que sim e ignorar o passado de Anastácia fez sua morte ser uma das mais terríveis. Ele apunhalou-a no coração. Apenas cravou o punhal no centro do seu coração e a deixou caída agonizando, morrendo. Os vizinhos não se perturbavam com nada, pois nas suas festinhas diabólicas sempre tocava música alta e a macabra música de morte era abafada.

Penélope, sua segunda vítima, era uma mulher forte, física e emocionalmente. Era lutadora, cuidava do corpo, bastante vaidosa e destemida. A conheceu em um restaurante. No primeiro contato ela o desprezou, então Ivan recuou, mudando sua abordagem, o que pareceu funcionar depois de uma longa conversa. Saíram mais vezes. Penélope foi a mais difícil de ser conquistada. Quando a matou foi envenenada. Jantaram. Ele fez o jantar, com os ingredientes especiais da dieta restrita dela, sem glúten ou lactose. Ela caiu com o rosto no prato, depois de sufocar e debater até a morte.

Graça, como o nome, era pura, virtuosa, ainda virgem, com vinte e um anos. Não tinha pecado e Ivan a matou sem método, por vontade. Ele mesmo a induziu ao pecado e ela pecou aquela noite, como pecou. Fez coisas das quais se arrependeria se tivesse tempo para isso. Bebeu tanto que se esqueceu de boa parte daquela noite. Acordou no apartamento de Ivan deitada no sofá. Ele colocava o disco para tocar e com o dedo indicador na boca fez um “xi” para que ela silenciasse.

Tá tudo bem. Você bebeu demais, só isso. Vou cuidar de você. Fique deitada. Vou fazer um chá!

Assustada ela relutava, questionava se não tinha mesmo acontecido nada entre os dois até que convencida por ele deitou e relaxou. Ele fez o chá e serviu com bolachas salgadas. Ela sentiu conforto na hospitalidade dele. Até que o golpe inesperado veio e ela sem nem perceber o que a atingira caiu desmaiada entre o sofá e o chão. Mais dois golpes a fulminaram e sua frágil vida esvaiu-se então.

Agora a sexta vítima se mostrava saindo das sombras. Tinha a fraqueza do ego e da prepotência. 39 anos, corpo bem feito, emplumava-se como um pavão. Disfarçadamente continha todos os defeitos espúrios das suas vítimas. Ivan, preso naquela noite, acusado inconteste de cinco assassinatos, todos comprovadamente de sua autoria, não fazia questão de maquiar ou destruir pistas. No ato de sua prisão, no seu apartamento, Estela apareceu triunfante. Só conseguia rir dele como louca. Todos se assustaram com a sua atitude, mas entenderam. Ivan de cabeça baixa tentava ignorar, mas então desabafou:

Você foi a que mais me desejou. Me quis tanto que me bateu quando eu resisti a você. Agora você ri tão satisfeita. Mas vai sempre se perguntar se eu continuaria resistindo a você. Sim eu resistiria, como resisti a todas. Vocês resistem o máximo que podem, mas quando se entregam não suportam rejeição. Você pode viver com essa verdade e aceitá-la. Devoradoras da energia vital do homem, isso que vocês são!


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