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Inês foi a primeira a ver a tempestade

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** EU VI INÊS IÇAR-se desorientada, olhar para a fresta da janela para averiguar que ainda estava escuro, depois para o relógio que marcava pouco mais de três horas. Custou-se na beira da cama distraída com nada, pescando a memória do sonho. Perdeu vários minutos assim. Depois se esticou toda até sentir que todos os ossos da coluna estavam em seu lugar, calçou as sandálias que estavam debaixo da cama e se levantou arrastadamente.

***Na cozinha, apanhou um copo, encheu com água da torneira e levou para o altar, retirou do relicário o terço de contas de vidro que herdou de nossa mãe, acendeu as velas, ajoelhou-se como pôde (sentindo ranger as juntas do joelho) e começou a debulhar o rosário, conta a conta, vagarosa de sono, tropeçando nos bocejos que cortavam o maquinismo da reza e encompridavam ainda mais a obrigação da fé.

***Eu fiquei olhando sem nenhuma pressa porque sabia que ela iria esquecer de novo, como toda vida fazia depois de velha.

***Apesar de ter sido muito bonita moça, ela nunca quis se casar. Era uma pessoa estranha, meu pai dizia, não gostava de gente, nascera pra virar tia velha, ficar no caritó. Ela acostumou-se com as coisas que papai dizia como sempre terminava se acostumando a tudo. Mas nenhuma ideia acertou-lhe mais que a de nunca casar, afinal — e papai estava certo — não gostava mesmo de gente, principalmente de homem. Depois, com o tempo, alguns parentes foram-se embora pra ganhar a vida longe e se perderam por lá, outros morreram por cá mesmo e ela terminou sozinha nessa casa enorme, esquecida do tempo e do mundo.

***Como é esquecida a Inês! Mas, por ironia, é a única que ainda se lembrava de mim.

***Ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria... (bocejo) Rogai por nós, santa Mãe de Deus, para que sejamos dignos... (bocejo) das promessas de cristo. Amém.”

***Eu vi quando ela se levantou com certo esforço, apoiada no joelho bom e na mesinha do altar. Já guardava o terço de contas de vidro no relicário quando — eu bem sabia que ela iria esquecer, ela ultimamente esquecia com mais frequência — quando derrubei o copo de vidro de cima do altar. Ele se espatifou no chão e molhou a barra da camisola dela. De primeiro ela se assustava sempre que eu fazia isso, mas agora ela apenas olhava consternada em minha direção tentando adivinhar onde eu estava. Precisava disso?

***Ela acostumou-se com meu jeito de lhe dizer as coisas. Simplesmente ajoelhou-se de novo, fazendo ranger outra vez o pobre joelho, outro bocejo, e rezou um pai-nosso para mim.

***Da porta da cozinha dava para ver que a madrugada clareava em um tom estranho de amarelo, como numa foto sépia, prenúncio de um temporal.

** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** Para Fernanda Rodrigues

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