• Elisa Ribeiro

Inveja dos pássaros

De olhos fechados, havia sempre um céu. Com nuvens brancas, estrelas ou carregado, tingido de cinzas sobrepostos.


Gostava dos céus cinzentos que pressagiavam os temporais. Lembrava-se de quando era criança e ficava observando o movimento das nuvens, os trovões, os raios, os primeiros pingos de chuva, as árvores envergadas pela força invisível dos ventos, os pássaros desabrigados no chão quando o tempo estiava. Era com encantamento que assistia toda aquela violência enquanto secretamente confirmava sua convicção silenciosa de que o Deus do

catecismo não existia e a vida era só natureza e acaso.


Com os olhos abertos, havia também um céu. De uma cor indefinida, entre o bege e o amarelo pálido, irreal. Sabia que havia uma luz branca e fria em algum lugar, mas mesmo girando os olhos ou a cabeça não a enxergava. Já não tinha forças para pedir que a diminuíssem ou apagassem então desligava, ela própria, essa luz incômoda deslizando as pálpebras sobre as pupilas e voltava aos céus verdadeiros que só via agora com os olhos fechados.


Não supunha que os sonhos lhe seriam um dia tão valiosos. Frutos da imaginação tão veladamente cultivados a vida inteira, os sonhos – não apenas os havidos durante o sono, mas também os urdidos de olhos abertos com as pontas soltas da realidade – haviam ampliado seu repertório. Como um olho adicional a criar memórias que agora acionava para preencher com narrativas assombrosas sua larga espera. Não apenas a lembrança embaçada do que vivera, mas as memórias extravagantes do que sonhara.


A dança suspensa por uma lesão no joelho e abandonada depois por causa de uma gravidez não planejada seguida do casamento apressado. Os lugares explorados com as pontas dos dedos nas revistas de viagem. O medo paralisante de voar. As passagens compradas e reembolsadas, as malas tantas vezes desfeitas depois de canceladas as viagens. As grandes frustrações, o principal alimento dos mais férteis devaneios e dos mais sombrios pesadelos pela vida afora.


Aprendera muito cedo a não temer os sonhos maus. Por mais aterrorizantes que fossem, bastava descerrar as pálpebras e ancorar o olhar em algum objeto real à sua volta: uma cadeira, a mesa de cabeceira, a ponta do lençol. Logo, o pesadelo cedia à banalidade da vida e o sono voltava. Com o tempo, nem precisava mais abrir os olhos, distinguia-os da realidade pelos excessos, pelos cenários fantásticos, pelas situações inusitadas. Às vezes explorava-as até o limite e então uma espécie de excitação a despertava para a realidade opaca à sua volta.


Porque treinara ao longo da vida, agora trafegava com desembaraço pelas avenidas que seu inconsciente traçava. Só abria os olhos quando o incômodo causado por algum médico ou enfermeira era tamanho a ponto de seus sonhos nele não se encaixarem.


Também abria os olhos quando insistiam que comesse. Torturavam-na com uma comida tediosa e a única maneira de voltar a cerrá-los era ingerir algumas colheradas. Às vezes era a filha que estava lá a dizer-lhe: “coma, mamãe, senão você não vai sair desse hospital”. Adivinhava pela tristeza no rosto da filha a gravidade do seu estado, mas também lia na amargura das linhas que vincavam-lhe o rosto, um conflito. Um quase desejo de que ela partisse logo daquela sobrevida inútil, sem expectativa de melhora.


Se ao invés da realidade trágica daquela UTI, a filha conseguisse ver a vida que começava quando a mãe fechava os olhos, não se atormentaria em conflitos, tampouco insistiria para que a mãe persistisse acordada para mais umas garfadas, um gole de suco, a sobremesa sem graça.


Por trás das pálpebras cerradas, a mãe voava alto e rápido, ou lento e baixo, por sobre ou entre as coisas. Os pássaros a invejavam. Finalizava o voo com uma pirueta tripla sobre uma única perna, seguida de um salto, suspensa no ar por três segundos, um sorriso feliz nos lábios ao ouvir o “Ohh!” da plateia antes das palmas entusiasmadas.


Aterrissava do salto nos braços do grande amor nunca experimentado, o homem por quem seu coração se dissolvia e ela se tornava só entrega. Com uma das mãos, ele pressionava seu braço esquerdo no local preciso onde a cinta do aparelho que monitorava sua pressão estava colocada, enquanto rodopiavam, juntos, do palco até a mesa de um restaurante muito elegante onde um garçom lhes servia com um sorriso nos lábios pequenas porções de pratos exóticos que ela comia moderadamente, apenas o suficiente para recuperar a energia e continuar a sonhar.


Depois de comer, voava de novo, braços ao longo do corpo, sozinha agora, para uma das cidades que seu antigo medo de avião a impedira de visitar. Cidades onde havia sempre um lago rodeado de vegetação bem-comportada, à beira do qual se sentava. Não resistia à sedução dos verdes e azuis e mergulhava sem medo encontrando o prazer descomplicado de sentir seu corpo deslizando na água morna, imitando os peixes, ondulando naturalmente ao sabor das correntes e da maré.


Sorria a mãe às vezes, um leve esticar dos lábios com os olhos mantidos fechados. A filha nunca viu tais sorrisos ou talvez nunca os tenha reparado. Convicta, enganava-se serem apenas com dor e sofrimentos que as horas da mãe se arrastavam.


As enfermeiras, somente as mais atentas, algumas vezes notavam o sorriso, especialmente quando a asseavam. Acostumadas a ver de tudo naquele hospital, sabiam que havia os que aceitavam resignados a morte, os que brigavam com ela e os raros que pareciam gozar a proximidade do fim como um alívio, uma dádiva.


Foi só no terceiro dia depois que a mãe parou de abrir olhos até mesmo quando a alimentavam ou a incomodavam para o asseio e a troca de lençóis, que o médico plantonista avisou à filha que essa tal extrema apatia se instalara.


Insistindo em dar um propósito à visita que lhe pareceu tão inútil após esse comentário e já não sabendo mais que preces sussurrar ao ouvido da mãe, a filha escolheu ao acaso um dos noturnos de Chopin e colocou-a para tocar no celular.


Estava a mãe justo à beira de um lago ouvindo o ciciar do vento nas folhas, a conversa dos pássaros, o marulhar da água alisando as pedras e o cascalho das margens. O tempo demorava a passar como quando era criança e isso era uma benção agora.


Sua música predileta integrou-se naturalmente ao cenário. Os raios oblíquos do sol filtravam-se pelos ramos da árvore à sua frente em matizes rosas e dourados. Entardecia. Em instantes, a cegueira da noite cobriria de cinzas e marrons aquela paisagem fantástica. Fechou o casaco não porque sentisse frio, mas para conter a alma, temendo que ela se integrasse à atmosfera daquele crepúsculo inesperado.


Foi a pirueta desajeitada da árvore ao som da música que lhe deu a certeza. Aquilo não era um sonho. Relaxou. Não permitiria que a alma lhe escapasse.

0 visualização

© 2019 porandubarana. Orgulhosamente criado com Wix.com