La Grange

Altos e baixos serpenteiam o mês de setembro de um fatídico 2019, dias de sábados e sextas-feiras se repetem ao longo da semana. Sozinho no seu quarto, dando razão aos fatores que influenciavam a mesma música repetindo várias e várias vezes, falando a respeito de um homem não santo, em meio a fins de tardes que nunca terminam; Roupa suja, casa suja e você pior ainda.



I Névoas


Aposto vinte contra um que os próximos meses serão dias de chuva até o fim do ano,

Mesmo que não molhem, mesmo que não queimem.

E indo um pouco mais além, as previsões só pioram.

Assim foi o meu último aniversário:

O sol resolveu se retirar,

E com tantos jardins bonitos espalhados por aí,

Duvido que ele passe por aqui.

Ele não seria louco o suficiente para se explodir assim.

Por algum motivo, estranho e bonito,

Ele prefere as névoas

E as névoas,

As folhas secas nos jardins.

II

Quando Estiver Sozinho


Quando estiver sozinho em casa:

Evite os livros, evite a música,

Evite ficar preso no seu próprio quarto

E arremessar a chave pela janela.

Evite cortar a mão, evite acender as velas,

Evite as frituras da esquina.

E se você não for capaz de evitar coisas assim,

Evite a si mesmo.

É claro e oportuno dizer:

Você não vai gostar nem um pouco de ver o seu lado mais sombrio preparando o jantar,

Quando você é a única refeição possível.


III Untitled #1


Reprovação, indisposição constante

E uma vontade enorme de não fazer nada.

Não vivo um melhor momento,

E sempre me vem à mente:

Que estas ruas insistem em me falar de solidão.


IV

Untitled #2


Saindo da área de lançamento,

Ainda faltava muito para entrar em órbita,

Onde a única resposta possível chegava por ondas de rádio.

Jovem demais, displicente demais,

Resolveu explodir-se muito cedo, muito antes do seu tempo.

Enquanto você pensava,

Ele dizia: "propulsão, radiação e radioatividade."

Ríspido e arrogante:

Um foguete em direção ao infinito.

V

Universo de Areia


Sabe quando você pega uma rua por engano

e vai parar num lugar totalmente desconhecido?

Quando evita pegar o telefone

e ligar para aquele velho amigo?

Quanto tempo faz? Você não sabe, né?

Tão preocupado com os argumentos que não percebe as alternativas,

E considera que as ruas, todas elas, estão vazias.


E aquela sensação de que amanhã as coisas darão certo?

Sim, é o que você terá.

Mas não do seu jeito.

Elas precisam de um tempo para respirar,

E normalmente, esse tempo não é o seu.


Olho pro teto e percebo que as palavras não surtem mais efeito.

Desesperado você tenta:

Arremessa farpas e espinhos, cuspe, o que tiver na mão.

E nesse estágio, meu amigo,

Você não sabe mais nem do que você é feito.

O seu corpo, já fora de forma, se amolda à própria antimatéria.


Tem sido assim dia após dia,

Não consigo lembrar quando começou,

Na verdade, chego a duvidar se teve um ponto de partida,

Um instante, um dispositivo ou qualquer coisa que o valha.

É como se, de alguma forma, precedesse a minha própria existência.

Como pegadas na areia de uma praia lavadas pelas ondas que quebram,

Mesmo sem saber que podiam quebrar.

VI

Universo de Areia II


E então aparece,

Mesmo quando você já se considera vazio em relação a tanta coisa em sua volta,

A coisa acontece.

Nesse sentido, tudo fluiu muito bem.

E os dias foram dias de sol,

Mesmo quando chovia e você rangia os dedos nos anéis.


Andando em círculos, não necessariamente perfeitos,

Mas ainda assim, círculos.

Erráticos limiares que separam a dor,

Cada um à sua maneira,

E de lá pra cá

O silêncio tem sido ensurdecedor.



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