Leão de chácara


Mais uma jornada de trabalho encerrou-se. Já era a segunda semana em que nada acontecia, nenhuma intercorrência. Galo Cego já estava a quase dois anos trabalhando na Maison de Lapin. Ele gostava de lá, mas achava que já estava ficando muito tempo ali. Mais tempo do que costumava ficar em qualquer lugar


Já eram sete horas da manhã quando ele chegou ao quarto e cozinha que alugava. Um espaço minúsculo onde mal cabiam a velha televisão, suas revistas de faroeste e umas poucas coisas. Ele não precisava de luxos ou conforto.


Desde os oito anos de idade que Galo Cego se virava sozinho. Quando sua mãe morreu, de uma doença que ele sequer sabia pronunciar o nome, teve que ir morar com uma tia que nunca ligou muito para ele. Pai ele não conheceu, a única informação que tinha era que ele era motorista de caminhão. Foi criado pelas ruas, aprendendo tudo o que ela oferecia: coisas boas e ruins.


Tomou um banho e deitou-se para descansar. Seu corpo musculoso e cheio de cicatrizes encaixava-se certinho no buraco que fora moldado na cama em anos de uso. Tentou dormir, mas não conseguiu. Esfregou os olhos sentindo a velha cicatriz que originou seu apelido logo acima da pálpebra esquerda. Ficou pensando em Charlotte. A Maison de Lapin dispunha de um acervo de muitas meninas. Seu Arouche, um espanhol baixinho e com uma halitose horrível, sempre trouxe as moças mais bonitas que podia para trabalharem na sua boate. Galo Cego não achava Charlotte a mais bonita, ela era até um pouco baixinha demais para o gosto dele, mas havia alguma coisa nela lhe fascinava. Talvez fosse o som da sua voz que ele achava melodioso ou fosse o jeito que ela andava. Ele não sabia dizer ao certo porque gostava dela.


Galo Cego nutria uma paixão escondida por Charlotte. Todas as noites seu pensamento voava até ela. Faltava, no entanto, coragem para declarar-se, restando a ele tê-la apenas em sua solitária imaginação.


Ainda com o pensamento em Charlotte terminou adormecendo. Acordou depois do meio-dia com a sua senhoria batendo-lhe a porta para cobrar o aluguel atrasado.


- Seu Galo, o senhor já tem o dinheiro da casa? – Perguntou lhe Dona Saló.


- Já tenho sim. E que não tinha vindo para cá nesses dias. – Mentiu Galo cego.


Após pagar o aluguel voltou a pensar em Charlotte. Ele não tinha coragem de aproximar-se dela. Ela nunca iria olhar para ele. Galo Cego era um homem feio e achava que uma mulher como ela não iria querer nada com um sujeito como ele. O que tinha iria para oferecer a ela? Suas revistas de faroeste e uma vida sem paradeiro? Jamais ela lhe daria uma chance.


Galo Cego era segurança de boate há muito tempo. Fora criado em ruas violentas, era um “porradeiro” como o Seu Arouche gostava de dizer. Era destemido, capaz de enfrentar no braço qualquer um que estivesse incomodando dentro da boate. Nunca praticou essas coisas de luta de academia, sua técnica de luta foi forjada em situações de perigo real. Valentões não lhe metiam medo, só a presença de Charlotte quando se aproximava dele e, por algum motivo lhe dirigia a palavra, é que deixava Galo Cego nervoso e sem saber o que fazer com as mãos.


******


Mais uma noite de trabalho. A música que tocava era uma daquelas que ele não gostava e que, desgraçadamente, inundavam a boate. Muitas das meninas já tinham ido com clientes para os quartos. Outras ainda estavam pelo salão fazendo os desgarrados gastarem com bebidas. Charlotte era uma das que tinham subido para os quartos. Galo Cego estava encostado perto do balcão de bebidas só observando o ambiente. Alguns clientes alcoolizados e falando alto demais, outros rindo com as meninas. Nada demais. Tudo transcorrendo dentro da normalidade até que um grito de mulher se fez ouvir e, em seguida, a voz de um homem gritando e chamando palavrões.


Era Charlotte quem gritava e que descia correndo a escada só com a roupa de baixo, sem sutiã e com um filete de sangue na boca.


- Ei, putinha, vem cá que eu estou pagando. E se estou pagando e porque quero o serviço completo. – Gritava um homem alto e de aspecto forte bem no meio da escada.


Galo Cego ficou em alerta. O homem desceu a escada. Vários clientes levantaram-se já pressentindo uma confusão das grandes. Charlotte correu para trás do balcão onde antes estava Galo Cego.


Saber que alguém havia machucado Charlotte deixou Galo Cego com raiva. E isso não era bom.


Aproximando-se do homem grande que estava alterado Galo Cego falou de maneira calma e incisiva:


- Ok, amigo! Acabou, está na hora do senhor ir para sua casa – Havia visto essa frase em um filme velho de bang-bang e às vezes usava quando ia interpelar alguém.


- Isso não é contigo, cara! – O cliente subia mais o tom de voz aumentando a tensão para um conflito imediato.


- Fique calmo, amigo. Está na hora do senhor ir para sua casa ou então tentar acalmar-se.


- Foda-se! Sai da frente seu fodido! Ela vai ter que terminar o que eu paguei. – O homem grande coloca a mão no peito de Galo Cego e o empurra. Fez isso provavelmente porque estava acostumado a intimidar as pessoas com o seu porte físico.


A reação é rápida e contundente. Uma perna de Galo Cego afasta-se para trás propiciando uma base de apoio para este, em seguida, arremessar um murro de direita em pleno nariz do oponente. O sujeito grande, talvez surpreso com tão rápida reação, é arremessado pela força do impacto e dá dois passos para trás.


Mesmo com a força do murro o sujeito grande recupera-se e parte para cima do seu oponente.


Galo Cego, criado em ruas perigosas e sabedor que oponentes grandes tem que ser vencidos em luta agarrada, passa com rapidez para a cintura do adversário e o derruba. Uma vez no chão aplica-lhe um estrangulamento até este perder os sentidos.


Deu trabalho, mas água gelada no rosto e um pouco de humilhação ajudarão o cliente valentão a acalmar-se.


- Obrigado, seu Galo. Aquele filho da puta desgraçado gosta de trepar batendo na gente. Cada merda que aparece aqui.


- Não foi nada, Charlotte. – Um nervoso Galo Cego responde com certa timidez.


- Ei, me chama de Berenice. Esse é o meu verdadeiro nome.


- É um nome bonito – Galo Cego fala tentando dar um sorriso.


- Que nada! Eu acho meu nome feio. Parece nome de gente velha. – Fala isso e dá uma gargalhada.


- E o seu nome como é? Aposto que é melhor que o meu.


- Ah, só me chamam de Galo Cego, ninguém nunca me chamou pelo meu nome verdadeiro - Ele está nervoso, a conversa estava se prolongando, isso nunca tinha acontecido antes e ele sente que está a ponto de gaguejar alguma palavra.


- Mas qual é o seu nome? Fala só para mim. Prometo que não vou contar para ninguém.


- Tá bom... Meu nome é Juvenal...


Berenice solta um leve sorriso e fala baixinho – Seu nome também é de gente velha.


Galo Cego está meio sem graça e mal consegue dar um sorriso. Berenice pega em uma de suas mãos e fala que algum dia após o expediente irá convidá-lo para beber uma cerveja. Um arrepio gostoso lhe percorre o corpo quando sente o toque de Berenice.


******


Outra noite de trabalho que termina. Daqui a pouco é hora de ir para casa e dormir no seu velho colchão. Quando estiver deitado para descansar Galo Cego ficará pensando em Berenice com um sorriso nos olhos e um desejo no coração.


Ele não tem nada para oferecer a ela além de um rosto feio, algumas cicatrizes e uma coleção de velhas revistas de faroeste.


Ainda sentindo o toque das mãos pequenas de Berenice ele adormece.

0 visualização

© 2019 porandubarana. Orgulhosamente criado com Wix.com