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Lua cheia


– Só sei que nessa vida eu não duvido é de nada! Diz que o bicho é assim grande, dest’amanhão, maior que um homem, e que tem os olhos vermelhos da cor de fogo; tem uns dentão e o corpo todo peludo; cara de cachorro, orelha de jumento e os pés são mesmin’ os pés d’um porco; e diz também que quem topou com o tal, não viveu pra contar a história não!

– Ô Seu Benigno, me diga uma coisa, se quem já topou com o bicho nunca sobreviveu, como é que o senhor sabe como ele é?

– Doutor tudo gosta de pergunta! E eu lá sei! É o povo que conta assim.

– Essa história está pela metade, Seu Benigno.

– É, mas eu ouvi assim. E outra, toda regra tem sua exceção. Você se lembra daquele rapaz que era vaqueiro da fazenda Serra Grande do finado Antônio Medeiros?

– Vaqueiro lá passou de mó, como é que eu vou saber?

– Aquele que matou a paulada o moço mais novo de Seu Honório Galego mais Dona Zefinha...?

– Sim! sei... Está preso ainda, né?

– E não sai tão cedo, visse? O menino que ele matou era afilhado de um juiz da comarca não sei lá de onde que mexeu aqui e ali pro cabra passar bem muito tempo atrás das grades. – Mas não é isso que eu quero falar. Como é que se chama mesmo esse vaqueiro?

– É José alguma coisa... Não lembro.

– Zé Bernardo!

– Pronto, era isso mesmo: José Bernardo. Mas o que é que tem ele?

– Então, quando teve o julgamento, eu fui lá por modo de dizer pro juiz tudo quanto eu vi naquele dia, porque eu ‘tava aqui na bodega de Seu Raimundo quando teve a briga e depois que ele chegou com a tora de pau toda ensanguentada. Quando botaram o homem pra falar, ninguém acreditou na história daquele coitado. Apois, pra esse povo que tem instrução, essas conversas de lobisomem são tudo invenção de tranqueiro. Isso é coisa antiga, Doutor, lá onde chega a modernagem, essas coisas vão deixando de existir. Sempre foi assim, sempre será: o novo vem e bota o velho de canto. Que se pode fazer? Mas eu estava lá, eu me lembro do que vi, pode botar fé no qu’eu digo.

– Ora, mesmo que não botasse. Todo mundo aqui viu os estragos que o tal bicho fez nas reses de tudo que era criador daqui e, ao contrário do que você está dizendo, Seu Benigno, teve muita gente que o viu! Mas foi assim: apareceu as reses mortas, o povo avistando um cachorrão no cruzeiro da estrada (como se estivesse rezando pedindo perdão à Deus) e, do nada, o menino de seu Honório morre e acabou-se, nunca mais aconteceu nada. Até aqui não ficou claro como tudo começou e acabou. Pelo menos eu não consegui cozer uma história na outra.

– Mas se fui justo por causa desse dessa morte e desse vaqueiro preso, Doutor! O senhor não sabe não?

– Não.

– Oxe, todo mundo aqui sabe dessa história doutor, nunca ouviu?

– Se estou dizendo que não, é porque não!

– Ora, mas’tá! Apois eu conto agora. Você sabe que esse filho de Seu Honório Galego era meio estranho, né? Nã’ falava quase nada, nem saía muito; vivia enfurnado dentro da casa agarrado com aquele radinho que ele carregava pra cima e pra baixo; só saía quando o pai ia na cidade fazer feira, mesmo assim, só ficava colado no braço do velho, cabeça baixa e calado. Não lembro nunca de ter ouvido a voz daquele menino.

– A família todinha é assim, porque as irmãs dele andam parecendo que se escondem do povo, não gostam de gente...

– Tem quem diga que é porque eles são judeus, mas não é isso não, Doutor. É que esse menino é que era o lobisomem!

– ‘Tá! Isso eu duvido, Seu Benigno, mofino daquele jeito...!

– Te juro, Doutor! Nesse dia todo mundo ficou sabendo. Me admira é o senhor não saber...

– Eu estava fora naquele tempo, não pude acompanhar o evento. Fiquei sabendo depois que o menino morreu, pelo Doutor Eugênio que foi quem fez a necropsia. Mas até hoje não atentei em procurar saber direito como foi.

– Então? Preste atenção: o vaqueiro Zé Bernardo foi quem matou o menino, mas na verdade ele matou foi o bicho: matou o menino virado no bicho. No dia que o miúdo morreu, Zé Bernardo esteve aqui na bodega de Seu Raimundo mesmo e até bebeu com a gente. Era um moço bom aquele rapaz, fora ter matado o menino, ninguém nunca teve queixa pra com ele. Só era meio mulherengo, como todo vaqueiro, mas mesmo isso não manchava o rapaz, porque não desrespeitava nem menina moça nem mulher casada. Cabra bom o Zé! Aconteceu que Seu Honório nesse dia também veio aqui na bodega tomar uns gorozinhos, não sabe? Trouxe uma das filhas, a do meio pelo que soube depois, e o menino. Na hora que viu a moça entrando, galeguinha bonita, que só as filhas de Seu Honório, Zé Bernardo quase caiu da cadeira e não tirou mais o olho da moça. Seu Honório nem reparou o vaqueiro olhando pra filha, quem tomou as dores foi o menino. Pense numa cara que o menino ficou quando percebeu o olhar do vaqueiro pra a irmã. Mas um menino franzino e quieto daquele jeito, quem ia desconfiar que fosse ficar zangado daquele tanto. Ele amarrou a raiva no pé do pote e esperou crescer. Do nada, se enfureceu e foi pra cima do vaqueiro com uma cadeira, deu-lhe uma relhada de surpresa nas costas que Zé Bernardo quase desmaia. Na hora ele ficou no chão sem entender nada... Agora, pense numa força que esse menino tinha, pra o tamanho dele era estranho. Ele ficou lá bufando, vermelho, encarando o vaqueiro no chão. Era até estranho de ver, um menino-criança como ele encarando um homão como Zé Bernardo no chão. Mas aí, quando Zé Bernardo se levantou, voou no pescoço do galeguinho, pegou a dar murro na cabeça dele... Só parou quando viu Seu Honório chorando e a menina gritando aperreada. Zé Bernardo estava com os olhos vermelhos de raiva, mas soltou o rapaz, disse uns desaforos e mandou ele embora. Ele ainda pagou a conta de Seu Honório nesse dia, ficou com vergonha de ter batido no rapaz em frente ao pai idoso e irmã bonita, apesar de ter levado primeiro. Depois disso ele se acalmou e a gente voltou a conversar, mas só mais um tantinho – não sei se pela dor nas costas ou se Zé se sentia culpado de ter batido no menino – mas ele não ficou mais muito tempo, ficou ali até às Ave Maria, só, depois foi-s’embora. Eu que fiquei aqui terminando uma prosa de dinheiro com Seu Raimundo.

– Mas o que isso tem a ver com a história do lobisomem?

– ‘Pera aí Doutor, tá querendo rezar missa antes do padre chegar? A melhor parte vem agora!

– É para me contar o ocorrido, Seu Benigno, não é para ler a biografia do povo não!

– Bio-o-quê? Ah, Doutor, eu só sei contar a história toda. Paciência! Se o senhor quiser saber de outro é só ir atrás, mas eu estava lá e estou contando conforme eu vi.

– ‘Tá certo, Seu Benigno, prossiga então, mas tente dar menos rodeios!

– Então... não deu bem uma hora que tinha saído, Zé Bernardo voltou, só que todo suado, arrepiado feito gato em portão que tem cachorro, branco que nem um finado, a roupa toda desajeitada e uma ripa de pau nas mãos toda ensanguentada. Quase que o homem não consegue falar. Depois que tomou umas quatro lapadas seguidas foi que ele contou o que tinha acontecido: Ele disse que ia passando a ponte Zé de Bastos pra ir para a casa do Coronel quando viu, do outro lado, um cachorrão preto do tamanho do mundo; disse que na hora ficou sem reação, nunca tinha visto um bicho daqueles. Aí ele que ficou lá, paradão, encarando o bicho, mas não sabia se ia ou se voltava. De repente os olhos do bicho se acenderam feito duas tochas e ele desembestou pra cima de Zé com mais de mil...! Ele não contou conversa, fez carreira no meio do mato por riba de pedra e pau com o bicho foi atrás, pega não pega. Disse que dava pra sentir o bafo quente batendo nas costas e o cheiro forte de carniça. E tem mais, o danado não corria de quatro pé feito cachorro não, ele andava, Doutor, que nem gente, não sabe? Zé Bernardo assustou-se mais ainda. Foi quando viu entre a galhada dos matos a luazona redonda na barra do céu, foi aí que ele ligou as pontas do bordado: era o tal lobisomem, Doutor! – Sei...

– Não acredita? Pergunte a Seu Raymundo, n’é, Seu Raymundo? Quando ele entendeu isso foi que pensou: é ele ou eu. Num derrapo ele se danou no chão catou o primeiro pedaço de pau que viu e tacou na cabeça do bicho, mesmo na hora que esse pulou pra danar-lhe os dentes. Diz que o danado do cachorro ficou tonto, cambaleando em duas pernas. Aí ele deu-lhe outra e mais outra até que o bicho caiu. Daí ele correu pra cidade e veio parar aqui na bodega.

– Então foi que o vaqueiro deu cabo de um cachorro... Mas o que isso tem a ver com a morte do menino? – Você já viu um cachorro andar em duas pernas, doutor?

– Aí é que está: isso eu nunca vi!

– Doutor, a gente rumou pra donde ele disse que tinha deixado o bicho. A gente mais uma ruma de curioso que viu ele passando daquele jeito na rua. Pra garantir, nós ainda chamamos o policial que fazia plantão nesse dia. O tal de Melquezedeque, que ainda era soldado naquele tempo. Quando a gente adentrou o mato perto do local, já subia o cheiro de sangue. Todo mundo ficou assim meio apavorado. Quando avistaram o local, o povo começou a gritar e querer bater em Zé. Ele já saiu de lá preso.

– Oxe, por quê?

– Eu na hora também não entendi foi nada, mas quando eu cheguei perto foi que eu vi: era o menino de Seu Honório que estava lá morto, Doutor, estava nu e com a cabeça rachada de pau. – Credo em cruz... Que jeito ruim de morrer! Mas será que essa história de lobisomem não foi o tal vaqueiro que inventou pra escapar de ser preso não? Digo: ninguém viu o bicho! – É, mas era mais fácil ter escondido o corpo do menino e ter ficado bem caladinho, não é não? Vaqueiro como ele era, conhecedor das brenhas mais embrenhadas da caatinga... ma’! Ninguém nunca que ia achar o corpo! Porque que ele ia aparecer na bodega daquele jeito e ainda levar o povo pra ver?

– É verdade. Mas...

– Além disso, aquele povo de Seu Honório é tudo uma gente estranha, sete irmãs, só o mais moço era menino, além de que o povo de primeiro falava que seu Honório e Dona Zefinha eram irmãos por parte de pai.

– O senhor acha mesmo, Seu Benigno, que o tal menino era um lobisomem?

– Achar eu não ouso dizer que acho, só sei que nessa vida eu não duvido é de nada! Talvez seja por isso que esse povo só anda escondido, sem nunca falar com ninguém. Mas, o fato é que foi só o menino levar as pauladas que o povo parou de ver o coiso, não foi?

– Isso é bem verdade!

– É, Doutor... E vamo-s’embora que hoje é noite de lua cheia e eu prefiro não arriscar, não sabe?

– Mas o menino está morto? O rapaz não está até preso, Seu Benigno?

– Tá sim, mas não sou eu quem vai confiar. Já vi muita gente se fingir de morto, mas bicho dessa qualidade, coisa da ruindade do mundo, morrer de paulada eu nunca vi.

– Está bem Seu Benigno, se o senhor está dizendo...

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