• Elisa Ribeiro

Luz de mil lâmpadas

A primeira vez


Aconteceu quando tinha onze anos e visitava junto com os colegas de classe o laboratório de química da universidade, atividade organizada pela professora de ciência do colégio.


Distraía-se com o ambiente e os aparatos do laboratório menos do que os colegas, tampouco empolgava-se com as reações químicas vistosas que o professor da universidade planejara para engajá-los. A última atividade antes do fim da visita foi observar a chama produzida por um bico de Bunsen e fazer anotações no caderno sobre seu aspecto. “O fogo é um catalizador essencial na transmutação das substâncias e na evolução dos processos químicos”, disse o tal professor apontando para a chama azulada. “A observação é muito importante para o desenvolvimento da ciência”, complementou com autoridade e um tom solene a dar sentido àquela tarefa idiota.


À sua esquerda, Larissa Santos escrevia sem parar; à direita, a outra Larissa da classe já havia completado uma página. Breno ainda não escrevera sequer uma palavra. Com a atenção totalmente concentrada na criatura minúscula de cabelo vermelho que ondulava sinuosamente ao sabor da labareda, tentava decifrar pelos movimentos de sua boca o que ela tentava lhe falar.


Quando a professora mandou entregar a folha com as anotações, ele escreveu rapidamente com uma letra garranchosa que a chama tinha três cores: azul embaixo, no meio laranja, em cima amarela. Achou pobre, pensou em acrescentar que o movimento do fogo lembrava uma dança, mas não teve tempo. Sua sorte, seria certamente o tipo de observação nada relevante para o desenvolvimento da ciência na opinião da professora quando lesse seu trabalho.

A segunda vez


Quando na manhã seguinte os primeiros raios de sol escorregaram pela trama da cortina sobre suas pálpebras ainda fechadas, ocorreu-lhe como uma epifania a mensagem que a criaturinha do fogo tentara lhe comunicar na véspera. Ele, Breno, estava destinado a um futuro de glórias e ela, a pequena fada do fogo, era sua guia. Um espírito cujo principal objetivo era proteger sua vida, garantir sua vitalidade ao enfrentar as grandes provas por que passaria e, quando necessário, curar suas chagas.


Ao abrir os olhos, viu a figura minúscula, de cabelos vermelhos, translúcida e vaporosa em seu traje alaranjado dar uma pirueta tripla seguida de um mortal e desaparecer deixando um rastro de pó dourado cheirando a sândalo e brilhando ao sol que escapava pela janela. No chão, salpicado do pó fino, um pequeno sachê, feito do mesmo tecido cor de laranja do vestido, preso a um cordão fino. Dentro, café, canela, noz moscada, pimenta e alho. Um amuleto para sua proteção e purificação. Breno sabia que para sempre deveria usá-lo.


Quando lhe serviu o café da manhã, a mãe sentiu por sobre o aroma marcante do sabonete de calêndula que Breno usava para prevenir as espinhas, que precocemente se multiplicavam em seus ombros e costas, um cheiro estranho, entre ardido e adocicado. Era mais um sinal da adolescência chegando, pensou com tristeza e colocou mentalmente em sua lista de afazeres comprar com urgência um desodorante para o filho usar embaixo do braço.


A terceira vez


Ocorreu certo dia quando, passando pelos fundos da casa da vizinha, Breno resolveu dar um jeito no matagal seco e desorganizado que havia se tornado o que antes fora uma disciplinada horta. A vizinha havia ficado doente e, sem energia para cuidar de nada, havia se mudado temporariamente para o apartamento da filha em outro bairro, assim a mãe lhe contara. Breno passava por ali todos os dias perto de meio-dia no caminho de volta do colégio para casa.


Além de resolver o matagal, o fogo expulsaria os ratos que começavam a invadir o quintal de sua própria casa, calculou e sem qualquer ajuda pôs-se a executar o que havia planejado. Um bastão de comprimento suficiente feito com um galho seco de árvore, um pano de chão embebido em querosene na ponta, uma faísca tirada da cabeça de um fósforo.


Com a tocha improvisada alcançou o matagal. O fogo lambeu o mato seco onde havia sido a horta e transforou-se em uma fogueira alta num instante. Logo chegou à lateral da casa e daí às rosas e girassóis ressequidos do jardim frontal da casa. A fada serpenteava entre as labaredas numa dança lépida e sinuosa. Hipnotizado, Breno admirava-lhe a graça e a agilidade desejando ser tal como ela.


Quando os bombeiros chegaram, a mãe deu um jeito de convencê-los que havia sido um acidente, o mato estava muito seco, qualquer ponta de cigarro poderia ter dado causa.

A quarta vez


Aconteceu no seu aniversário de treze anos celebrado em uma pizzaria com a família e alguns colegas da escola. No meio do parabéns, Breno a viu: os cabelos vermelhos, o vestido alaranjado, as mesmas evoluções insinuantes em meio à chama amarela da vela de aniversário.


Adiou o sopro, novamente ela tentava lhe dizer alguma coisa que ele não conseguia decifrar. Quando por fim soprou a contragosto, ao invés de diminuir, a chama aumentou umas cinco vezes em altura. A criatura pequena cresceu junto, um sorriso largo no rosto antes de soprar na direção dele alguma coisa de volta. Um “Oh!” escapou da boca de todos ao redor. Breno aspirou impregnando-se do aroma de sândalo misturado à nova conduta a que a criatura o obrigava: que dormisse sempre no cômodo mais ao sul em qualquer habitação onde estivesse.


A chama voltou a ficar pequena sob olhares estupefatos e foi se extinguindo aos poucos ao mesmo tempo em que pequeninas estrelas douradas se desprendiam da ponta do pavio da vela. A mãe se encantou com o efeito e, esotérica, supôs empolgada que aquela pirotecnia inesperada era presságio de prosperidade, sucesso e riqueza para o filho único a quem tanto amor dedicava.

A última vez


Não deu muito trabalho convencer a mãe. Era um filho bom, ela, mãe dedicada, fazia tudo para agradá-lo. Passou a dormir no antigo quarto de hóspede, que também funcionava como escritório, na semana seguinte, só o tempo de movimentar os móveis. Era o cômodo que ficava mais ao sul na casa. Não tinha certeza de que dessa forma cumpria as instruções sopradas pela fada, mas intuía que isso bastava.


Sem que a mãe soubesse, Breno acendia uma vela todas as noites antes de dormir. Procurava a fada nas ondulações da chama, mas ela, caprichosa, apenas se insinuava na imaginação de Breno, sem corpo ou face, nas labaredas alaranjadas ao sabor da brisa que entrava pela janela. A mesma brisa que extinguia a chama sempre que ele esquecia de apagá-la antes do sono chegar.


Aquela noite, porém, teve que fechar a janela assim que se recolheu ao quarto, o vento estava soprava forte, uma tempestade se formava. Despertou a tempo de ver o relâmpago partindo o céu, antes de o trovão fazer tremer as paredes da casa. Ao seu lado, a chama da vela derretida encostava na ponta do coberta que ele, dormindo, havia afastado para o lado. O coração acelerou, excitação com a coincidência de ter acordado a tempo de impedir uma catástrofe hipotética. Extinguiu a chama abafando-a com a palma da mão. O contato com o fogo não provocou qualquer ardor ou desconforto, apenas um agradável afago.


Antes de voltar a dormir, foi até a janela observar por um instante a tempestade. O céu continuava convulso por trás de seu reflexo no vidro, os raios como uma coroa, ou uma aureola, em torno de seu cabelo cacheado.


O dia seguinte amanheceu ensolarado, o céu sem nenhuma nuvem fazendo a tempestade da madrugada parecer uma miragem. Era o primeiro dia do verão, 21 de dezembro, um sábado. Partiu bem cedo com os colegas do colégio para hotel fazenda onde passariam o final de semana. Um evento organizado pelos professores para os estudantes extravasarem, enfim longe dos livros e da lousa, sua vitalidade adolescente depois de um ano de tarefas, estudos no colégio.


Criou um pouco de caso quando soube que o quarto onde iria dormir ficava na ala norte do hotel. Acabou trocando com um colega guloso seu pudim, a sobremesa servida no jantar, pelo lugar dele na ala sul da pousada.


De madrugada, sentiu que a cama esquentava, apesar do ar condicionado aos seus pés ligado no máximo. Em seu ouvido direito, a fada do fogo, antes muda, sussurrou que se aquietasse, era o corpo dela, lareira cálida, que o abrasava. Deixou-se estar, o ardor da fada mais que um afago, logo um vulcão transbordando magma incandescente, fumaça para todos os lados. Os dois unidos como se apenas um coração pulsasse, puro instinto, luz de mil lâmpadas antes da escuridão fatal.


Já não estava mais lá quando os garotos gritaram, tampouco quando o sacudiram protegidos com os lençóis e as cobertas, desesperadamente tentando acordá-lo, para que fugisse dali antes que a fumaça tornasse o ar irrespirável.


Exceto Breno, todos os meninos se salvaram. Certamente desmaiara mais rápido com a fumaça por estar mais próximo ao foco do incêndio, uma guimba de cigarro mal apagada, foi a conclusão equivocada a que os bombeiros chegaram.

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