- Maferefun Olokun -



OS últimos vestígios de luz desapareciam no horizonte dando lugar às estrelas, enquanto o navio movia-se no ritmo incerto das ondas, cruzando o mar em direção ao Novo Mundo. Em seu ventre centenas de homens e mulheres recebiam sua porção diária de ração: um punhado de mingau de milho e uma caneca d’água. Nus, banhados em suor e envoltos em seus próprios excrementos, comiam com as mãos imundas, sujando-se com a pasta malcheirosa e insipida que lhes era jogada. Ali, a fome fazia com que lutassem entre si pelas porções e o desespero dilatava a miséria de cada um deles. Mesmo tratados como animais há tanto tempo, alguns ainda mantinham o pouco de humanidade, contudo não demoraria a que desistissem e quando isso acontecesse nada mais seria capaz de libertar suas almas do cativeiro. No convés do tumbeiro, correntes de ferro fundido pesavam sobre o corpo desfeito em sangue e sal grudado à pele queimada, nas carnes corroídas pelo sol moscas se esbaldavam no líquido viscoso que escoria das feridas purulentas sem que ela pudesse expulsá-las. Tinha o pescoço e os braços — em carne viva — presos a um dos mastros, assim era mantida numa posição humilhante, com suas ancas descarnadas expostas como um animal rebelde. O peso dos grilhões a impedia de levantar a cabeça para olhar o céu em busca de consolo e, esmagada sob a dor e a vergonha, ela sentia o sol se despedindo e as sombras da noite que chegavam para talvez amenizar seu sofrimento. Estava ali desde que havia sido flagrada tentando roubar um pouco de água enquanto a distribuição diária era feita. Depois de açoitada, fora amarrada e esquecida para padecer de fome e sede sob o sol inclemente dos trópicos. Desde então, dois dias já haviam se passado e, mesmo sem água ou alimento, ela resistia. Há horas sentia as pequenas fisgadas no ventre, apenas mais uma das muitas dores que castigavam seu corpo ferido, contudo, aos poucos aquilo foi se transformando até se tornar uma dor atroz e desconhecida que pareceu partir seu corpo ao meio. Desesperou-se ao compreender o que aquilo significava, no mesmo instante a criança se moveu com força dentro dela, como se já soubesse que a vida seria para ela uma luta injusta desde o início — como se sentisse a mesma revolta que a mãe sentia — e quando o líquido escuro escorreu por suas coxas teve a certeza de que a hora se aproximava. Mordeu os lábios engolindo a dor, de repente respirar se tornou um suplício e por vários minutos ela precisou de toda força para inspirar o ar que a queimava por dentro. Por vezes acreditou que iria desfalecer, sem qualquer aviso, até que a dor cedeu abandonando-a completamente. VIU-SE de volta à sua terra natal, ela era outra vez uma menina livre em meio às mulheres de sua tribo, com seus passos curtos aproximou-se devagar do círculo de mulheres e viu no centro uma jovem que sofria as dores do parto. Entendeu que todas estavam ali por aquela mulher e pela criança que chegaria em breve, porque em sua terra nenhuma mulher tinha seu filho sozinha, o parto era um ritual sagrado onde as mulheres mais velhas acalmavam as mais novas com chás de ervas e mel enquanto as meninas e moças cantavam as canções ancestrais que evocavam as forças naturais e traziam boa sorte e saúde à criança e à mãe. Sentiu o cheiro familiar da infusão aquecida ao fogo onde uma mulher de mãos enrugadas e cabelos impossivelmente brancos molhou um pedaço de pano que depois passou com cuidado entre as pernas da moça que gemia, e aquilo fez aliviar a dor imediatamente. Ali não existia nem tempo nem medo, apenas aquele momento em que ela podia outra vez cantar com as mulheres que eram como ela. Quando o choro do bebê foi ouvido, todas as mulheres saudaram a chegada da criança e, em meio aos risos e à alegria, nenhuma delas percebeu surgir uma mulher que se distinguia de todas as demais e era tão bonita que parecia irreal, seus cabelos caíam em cachos negros até as coxas e muitos eram os colares dourados que pendiam de seu pescoço, seus seios estavam expostos, seu quadril e pernas estavam envoltos por um tecido da cor do sol e em sua cabeça equilibrava uma moringa com água de rio. Enquanto as mulheres se regozijavam com a nova vida que havia chegado sem se dar conta da presença sobre-humana que estava entre elas, a mulher foi até a jovem que acabara de dar à luz e molhou delicadamente seu ventre e sua testa com a água que trazia na moringa, os olhos da moça se ascenderam com um brilho novo e só então ela tomou a criança em seus braços e levou-a aos seios para que se alimentasse. Ọ̀ṣun sorriu satisfeita ao ver mãe e filho juntos, então, voltou-se na direção dela, que observava tudo e caminhou sem desviar seus olhos cheios de orgulho e fúria e, sem lhe dizer qualquer palavra, tocou sua boca com a ponta do dedo que parecia em brasa. Subitamente a dor invadiu seu corpo levando sua alma de volta ao convés e fazendo a tristeza transbordar por seus olhos. ELA sugou o ar preparando-se para o que viria a seguir. Sabia que aquilo se repetiria por muitas vezes até que o choro da criança anunciasse seu nascimento, mas não era a dor que ela temia, então, a cada nova contração, unia as pernas com força, pressionando-as numa inútil tentativa de impedir que a criança deixasse seu corpo. Tinha perdido a noção do tempo, não sabia se as dores haviam começado há algumas horas ou há muitos dias, mas a lua cheia que escorregava na borda do mundo era testemunha de que ela travava aquela batalha de dor e angústia contra seu próprio corpo há muito. Não queria que o filho nascesse para aquele mundo desconhecido e hostil, por isso continuava lutando contra a natureza que não se deixava dominar. Quando as contrações se intensificaram, ela pôde sentir os ossos do quadril se movendo, a dilatação provocou uma dor lancinante e seus gritos, agora mais agudos e desesperados, atraíram parte da tripulação que se pôs a observá-la. Enquanto ela gemia e se contorcia, os homens escarneciam e curiosos discutiam entre si questionando se as fêmeas negras pariam suas crias da mesma forma que as mulheres brancas davam à luz a seus filhos. Sangue, excrementos e urina escorriam sem que ela conseguisse impedir, empesteando o ar com um cheiro forte de carne crua, como num matadouro , mas nem todo aquele sofrimento foi capaz de impedi-la de sentir ódio por aqueles que a insultavam e, mesmo prostrada, desejou degolar cada um deles com as próprias mãos. De repente, sentiu que algo escapava de dentro de seu corpo e por um momento acreditou que fosse a criança, mas o bebê respondeu com um movimento silencioso em seu ventre. De seu corpo pendia um pedaço de carne arroxeado, o cordão que a unia ao filho e os homens, ao verem a carne disforme exposta, diziam aos berros que a negra estava dando cria a algum tipo de animal monstruoso. Ouvir aquilo fez nascer em suas entranhas um soluço que prendeu-se na garganta e logo se converteu num choro do qual o filho também participava, um choro de tristeza e solidão, medo e humilhação. Ela tremia e convulsionava enquanto seu ventre era dilacerado e tornou-se impossível não obedecer ao desejo de fazer força, a traição de seu próprio corpo a revoltou. Ela continuou lutando contra aquilo, porém, seu corpo desobedeceu seguindo inconscientemente ao instinto e sem que ela pudesse impedir, empurrou, pela força dos espasmos, o bebê. Empurrou tanto, mesmo sem querer, que a criança começou a escorregar lentamente para fora e, na posição em que ela era obrigada a permanecer, pode ver a pequena cabeça despontando. No ápice da dor, o ombro e o resto do corpinho foram surgindo até que a criança caiu para fora, presa ao cordão umbilical. Enquanto nascimento e morte duelavam, ela tentou envolver o pequeno corpo com as pernas e puxá-lo para perto de si, tomada por um desejo irracional de protegê-lo, porém, o verniz gorduroso que o cobria fez escorregar para longe. Enquanto ela se esforçava para alcançá-lo, sentiu o leite brotar de seus seios e escorrer em direção ao chão de madeira, sem ninguém para alimentar. O choro baixo e fraco provocou na mãe um misto de amor, raiva e frustração por sua impotência diante daquele pequeno ser, porém logo cessou. Angustiada, ela sussurrou palavras para o filho que sequer conseguia alcançar, acreditando que ele podia ouvi-la e quando o silêncio prolongou-se infinitamente, a mulher voltou a gritar implorando que alguém ajudasse a criança. Nenhum dos homens que assistia ao grotesco espetáculo demonstrou compaixão por ela ou pelo bebê, até que exausta pela longa batalha na qual fora vencida caiu numa profunda apatia. Apenas quando o pequeno corpo já ressecado pelo sol e envolto por uma nuvem de moscas escuras começou a cheirar à podridão, um dos homens se aproximou despertando-a de sua inércia, partiu o cordão que unia mãe e filho e, sem sequer olhar em direção à mulher que implorava baixinho suplicando que a criança fosse colocada em seus braços, lançou o corpo do bebê por sobre a amurada do navio. Ao compreender o que havia acontecido, a mulher sentiu o desespero de ter a alma extraída do próprio corpo e seu lamento rasgou o ar quente do entardecer.

NEM tripulação nem carga puderam dormir atormentados pelo lamento enlouquecido que ecoou por muito tempo e chegou até o abismo escuro do navio, inquietando os espíritos cativos. O lamento continuou até que se fez noite outra vez até que subitamente ela sentiu arder os lábios exatamente onde a iyaba a havia tocado. Naquele momento a dor que tomava todo seu corpo e sua alma desapareceu e um silêncio de morte a possuiu por vários minutos, então, com a voz rouca, começou a murmurar baixinho as palavras que havia cantado em sua terra natal: — Ìyá mi ilê oro, Ìyá mi ilê oro, Ìyá Gbogbo àse Ìyá mi s’ara má ààbò é é é; Ìyá mi ilê oro. — E a cada palavra soprada ela sentia seu corpo e, sobretudo sua alma, se fortalecendo, e o que era apenas palavras murmuradas como uma brisa fraca foi se transformando em um canto poderoso que soava como uma tempestade: — Ìyá a pòn, a tajú èrú e tòn, Ìyá a pòn omo rè, Ìyá a pòn, olódò mi ó ìya mi ó ìya re, ìyálóòde abèbè, olódò mi ó ìya mi ó ìya re, ìyálóòde abèbè —, ela cantava, sabendo que o filho que nascera, nascera livre. Nas entranhas do navio, os homens e mulheres foram despertados de seu estupor pelo canto que evocava uma outra vida e o som daquelas palavras poderosas já quase esquecidas fez renascer a força e o espírito de cada um deles. Uma a uma, as vozes dos cativos juntaram-se à voz da mulher que havia sofrido a dor de todos e aquilo despertou nas almas acorrentadas o desejo de serem livres outra vez. O poder das centenas de vozes silenciou as ondas do mar e o barulho do vento entre gritos de “Òóré Yéyé ó” e fez a tripulação apavorar-se crendo que aquele povo tinha o poder de invocar o demônio. Aterrorizados, os homens benziam-se e se agarravam a amuletos, cruzes e imagens de santos que traziam consigo, enquanto murmuravam as poucas orações que conheciam, implorando para não serem lançados ao fundo do mar enquanto os mais corajosos estalavam em vão seus chicotes para que a multidão silenciasse e voltasse à passividade anterior, entretanto nenhum deles tinha coragem de obrigar a mulher — ou aquelas centenas de pessoas — a se calar. Diante da covardia supersticiosa de seus homens, o próprio capitão foi até o convés e, alardeando que não temia que um canto de animal afundasse seu navio, golpeou a cabeça da mulher que cantava com olhar perdido nas trevas, fazendo sangue e miolos se espalharem. Um grito solitário que anunciava morte cortou a noite antes que a mulher se calasse, mas o seu silêncio não impediu que todos continuassem a cantar e o poder daquilo era tão grande e havia tanta força naquela canção que até aqueles que há muito haviam se prostrado e mesmo os mais tímidos e fracos, os doentes e feridos, colocaram-se em pé e cantaram com força assustadora enquanto batiam no chão de madeira produzindo o batuque que acompanhava a canção. E àqueles a quem cabia cantar, cantavam, e àqueles a quem cabia dançar, dançavam, e aqueles que tinham o corpo aberto para receber seus guias, os recebiam e era possível ouvir vozes em diversas línguas e cantos em diversos dialetos, pois o Òrìşà havia atendido ao clamor de seu povo e agora estava ali e eles não estavam mais sozinhos. MOVIDOS pela força que os dominava, grilhões e correntes foram partidos e eles se moveram em toda sua força e honra guiados por algo que só a eles era dado ver, e nada havia que pudesse impedi-los de continuar, nem o chicote que estralava nas mãos dos brancos, nem os tiros que eram disparados. Eles já não eram cativos, tinham se tornado outra vez homens e mulheres donos de seu destino e tamanha era a fúria que os havia tomado que aqueles que tentaram impedi-los se colocando em seu caminho foram estraçalhados, esmagados e pisoteados. A multidão desnuda avançou cantando e arrastando consigo tudo aquilo que se interpunha à sua frente e com suas almas em chamas, entregaram-se como oferenda a Olokun, o mar cujas águas ficaram tingidas com o sangue de seus captores. E o mundo cobriu-se de silêncio.



Nota: agradecimento mais que especial ao meu amigo querido, conselheiro de letras e um dos meus escritores preferidos Christi Rocheteau, por toda paciência em revisar e revisar e revisar o texto e por todas as dicas e informações religiosas que precisei para usar como referência nesse conto que, para mim, foi um grande desafio.


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