• Elisa Ribeiro

Matador

São 6h45min da manhã. Toda vez que tenho serviço acordo cedo. Ansiedade, como se eu fosse um menino, como se já não tivesse quase dez anos de prática. Acordei às 6h15min, antes dos primeiros raios de sol. Preparei meu café, tomei banho e estou pronto para ir à academia.


O serviço de hoje é fuzilar um bandido do tipo perverso. O cliente, um deputado, é cunhado da vítima que por um triz escapou do desgraçado. A vítima, um sujeito de uns quarenta e poucos anos, foi roubado, tomou uns tiros e foi abandonado agonizante numa floresta de eucalipto a uns quinze quilômetros da cidade. Por um milagre conseguiu chegar, se arrastando à beira da estrada, e sobreviver até que uma alma caridosa o socorresse e o entregasse na emergência do melhor hospital da cidade. Isso foi há uns dez meses. Faz uns dois meses, esse sujeito, a vítima, sem nem estar ainda completamente recuperado, começou a ser ameaçado. A família tentou a polícia, o caminho reto, mas como o tal deputado, nosso cliente, está cansado de saber que o atalho funciona melhor, acionou minha agência, que me indicou para o serviço.


Talvez eu não seja a pessoa mais adequada. Sou um cara de mais de sessenta anos, branco e bem-apessoado; o bandido é jovem, preto e maltratado. É difícil para um homem como eu parecer invisível nos ambientes que um marginal como esse frequenta. Mas já planejei como vai ser. Vou usar uma espécie de disfarce – uma roupa de mendigo. Também vou usar maquiagem para parecer que sou um sujeito assim meio mulato.

10h30min


Já estou do lado de fora da academia, de banho tomado, fazendo um lanche na padaria. Sinto meus braços um pouco trêmulos ao levar o sanduíche à boca porque exagerei na carga. É sempre assim quando tenho serviço. O pico de adrenalina e testosterona me faz treinar com muito mais vontade.


Foi num pico hormonal desses que despertei a atenção dos donos da minha agência. Eles frequentavam a mesma academia que eu. Um casal normal, exceto pela massa muscular avantajada. Simpáticos, sociáveis e com duas filhas gêmeas, ninguém suspeitaria que o negócio deles era uma agência de extermínio.


Aproximaram-se de mim num dia em que eu socava como um possuído um saco de pancadas na sala de treinamento de boxe. Tinha descoberto que minha funcionária de confiança na lotérica da qual eu era proprietário me roubava havia meses sem eu nem de longe desconfiar. Batia no saco para acalmar a vontade de matar de pancada a desgraçada.


O casal me abordou comentando a excelência do condicionamento físico que eu exibia na minha idade, 54 anos na época. Lembro bem, fazia três anos que tinha me aposentado e dois que havia adquirido a lotérica, e com ela o passe da bandida que me roubava, às claras, ofendendo minha inteligência e minha masculinidade. Roberto, o cabeça do casal, sugeriu treinarmos boxe juntos, porque tínhamos o mesmo pique e mais ou menos a mesmo peso e altura. Assim teve início nossa amizade.


Logo em seguida começamos a fazer uns programas do tipo pedalar ou correr no final de semana. Pouco tempo depois, o casal já me convidava para jantar e, por fim, passei a frequentar a casa deles. Na festa de confraternização de fim de ano do pessoal da academia, realizada na chácara que eles tinham perto da cidade, acabaram me prendendo, a pretexto de ajudar a colocar as coisas em ordem, até depois da saída do último convidado e então me fizeram o convite. Fiquei mais surpreso que chocado. Não sabia que esse tipo de coisa acontecia na vida real. Prestação de serviço de extermínio para mim era coisa de filme ou livro de ficção.


Eles explicaram que não pegavam qualquer serviço, que o negócio deles tinha uma ética e que matavam basicamente bandidos, sujeitos comprovadamente nocivos à sociedade. Só depois, alguns anos mais tarde, apareceram os extermínios misericordiosos, minha especialidade.


Quando falaram em exterminar bandidos, pensei na cadela que me roubara durante dois anos na lotérica, na minha impotência ao tentar incriminá-la, na indenização que tive de pagar quando ela entrou na Justiça com uma reclamação trabalhista. Pedi uns dias para pensar, mas antes de uma semana comuniquei que aceitava o trabalho com gosto e perguntei quando começava.

12h10min


Estou num carro alugado circulando pela vizinhança de onde mora o sujeito que logo mais à noite vou encomendar. O lugar não é bem uma favela, mas uma espécie de comunidade carente. Tem muito barraco construído de sobras, mas as casas, em geral, são de alvenaria, erguidas no estilo incremental, com puxadinhos para todo lado.


Os caminhos são labirínticos. Já mapeei as rotas de fuga do lugar, mas nunca é demais tornar a observar com atenção cada detalhe. Algum imprevisto pode acontecer, posso me ver impelido a uma fuga inesperada, tenho que estar preparado. O ideal seria uma andada a pé, mas não convém arriscar.


Estaciono num lugar de onde dá pra ver a casa do bandido. Toco na tatuagem do antebraço esquerdo – uma cruz e uma espada entrelaçadas – para ativar minha atenção. Depois de esperar uns 10 minutos, vejo o bandido sair de mãos dadas com uma menina que deve ter uns sete anos. A filha que ele leva na escola. São curiosos esses bandidos. Quando a gente sabe dos malfeitos deles, teme, acha que eles são uns monstros. Quando os espia de perto, quase se engana com sua vulnerabilidade, com a trivialidade da vida que levam. Observo bem o bar por onde ele está passando agora. É lá que joga sinuca quase toda noite. É no caminho desse bar, de volta pra casa, que vou fuzilá-lo.

15h30min


Estou em casa depois de almoçar o melhor hambúrguer da cidade. Ligo a televisão, tentativa vã de acalmar a ansiedade. Estou muito inquieto, não sei como vou preencher o resto da tarde e o início da noite.


Tenho que dar um jeito na barba e no cabelo. Não tem cabimento querer parecer um bêbado sem teto com cabelo grisalho de galã e barba impecavelmente aparada. Olho satisfeito a figura refletida no espelho. Sou um vencedor na batalha contra o tempo. Vejo a imagem de um homem forte, surpreendentemente melhor do que vinte ou trinta anos atrás. Meu cabelo é bom e a barba me dá uma aparência notável. Despir-me dela é como usar um disfarce. Meus olhos brilham como os de um rapaz em dia de sair com a namorada.


Enfio a tesoura na barba e no cabelo de qualquer maneira, a intenção é dar-lhes uma aparência descuidada. Fico satisfeito com o resultado.


Começo a sentir a excitação que antecede a execução de um serviço. Essa sensação costuma atingir o auge no momento do último suspiro do desgraçado. Às vezes acho que sou uma espécie de vampiro. Que não envelheço porque de alguma forma absorvo a vida dos sujeitos que extermino. Sei lá. Sempre me achei estranho por executar esse tipo de trabalho com tanta naturalidade.


Faz cinco anos que tudo começou. Conforme eu contei, foi numa festa de réveillon que o Roberto e a Maíra me fizeram o convite. Acho que eles perceberam de alguma forma que eu era o cara. Deve ter algum DNA, alguma característica comum aos matadores que eles identificaram em mim. Em quinze anos só conheci um dos matadores deles. Nas horas vagas, é professor de literatura e alpinista. Quando não está matando gente está subindo montanhas ou falando sobre Romantismo na faculdade.


Depois que aceitei o convite tive de fazer um treinamento numa fazenda em São Paulo. Foi difícil manter o segredo com a Beta, minha falecida e querida mulher. Acabei contando. Sempre acabava contando tudo a ela. Beta ficou menos surpresa do que eu. Disse, sei lá se era verdade, que achava mesmo o Roberto e a Maíra estranhos e que, se o serviço era matar apenas bandidos, estava tudo certo. O pai dela era policial e morreu, antes de ela completar doze anos, metralhado numa operação na periferia da cidade.


O primeiro serviço foi fácil. Um estuprador. O sujeito pegava as meninas no campus da universidade. Era um rapaz de seus vinte e cinco ou trinta anos, louro de olhos azuis, bem aparentado, se confundia com os estudantes. Andava de bicicleta, que era um dos meios de transporte comuns entre os edifícios da universidade, à noite, escolhendo suas presas.


Todo simpático e educado, convidava as meninas para um passeio na garupa da bicicleta, ou no quadro, se a menina fosse mais atirada. Então, ia pra um cantão ermo da universidade, consumava a perversão e largava a guria, só de calcinha, no meio do mato. Depois, sumia um pouco até o caso ser esquecido. As moças, envergonhadas, não levavam o caso à polícia e o bandido tocava em frente sua estratégia banal e bem-sucedida. Até o dia em que ele se atreveu com a neta do nosso cliente, um delegado linha-dura aposentado. A garota, evangelizada pelo avô sobre a maldade do mundo, só saía de casa com um spray de pimenta dentro da bolsa. Na hora em que o tarado mostrou seu propósito, a garota contra-atacou e fugiu na bicicleta. O delegado pensou a princípio em punir o bandido, castrá-lo num estilo olho por olho, dente por dente. Contataram o Roberto e a Maíra, mas eles não prestavam esse tipo de serviço. Como o delegado era um homem prático, que queria resolver o problema sem demora e sem falha, contratou o extermínio. E lá fui eu, arma em punho, debutar.


O serviço foi entregue com a documentação completa: várias fotos, descrição da rotina do sujeito, com os endereços dos locais, horários etc., e com sugestões das melhores circunstâncias para o abate. Tudo muito profissional. Nesse caso, o plano era muito simples. O degenerado, um enfermeiro, dava plantão a cada nove dias. Esperei o dia do próximo e o segui desde a saída do hospital até o estacionamento. Depois peguei o carro e fui esperá-lo na porta do prédio onde morava. Percebi que, para executar o serviço, o estacionamento, ermo às 5h30min da manhã, era mais adequado que a vizinhança do prédio onde ele morava.


No plantão seguinte, encostado num automóvel, fiquei aguardando o infeliz no caminho que levava ao estacionamento onde o carro dele estava. Quando ele passou, fuzilei com dois tiros à queima-roupa. O último rosto que ele viu foi o meu. Antes de ir embora, fiz uma prece encomendando a alma do desgraçado e fechei seus olhos. Nem sempre dá para fazer isso. Do local do crime fui direto para o parque correr. Corri até o sangue cansar de circular, desorientado, nas minhas veias. Depois fui para casa. No dia seguinte, tatuei uma cruz e uma espada entrelaçadas, estilo cavaleiros da távola redonda, na parte interna do antebraço esquerdo.

17h10min


Sempre que tenho serviço dou um jeito de visitar minha filha antes, no próprio dia ou no dia anterior, para tomarmos um café ou um chá juntos e também para abraçar meus netos. Faz parte do meu ritual. Olho o relógio dentro do elevador e vejo que são 17h10min, justamente a hora do chá. Minha filha me recebe com a mesa posta e diz que está tirando do forno um bolo de cenoura – detesto – sua especialidade.


Devia ter feito a visita antes de ter enfiado a tesoura no cabelo. O Daniel diz que fiquei parecido com o Dimitrion, personagem do video game que ele mais gosta. A Luísa me manda voltar urgente na pessoa que estragou meu cabelo e exigir que conserte. Minha filha ri, certamente achando que o estrago no cabelo foi alguma parvoíce de velho. Aquele ambiente familiar me faz lembrar com saudade da minha falecida Beta.


Já que as pessoas que amamos têm de morrer, melhor morrerem antes da gente, e assim sejamos nós a sofrer e não elas. E, se é para morrer, que seja de morte anunciada, como foi a da Beta. Após descobrir a doença que a matou, durou pouco mais de três meses hospitalizada. Tempo mais que suficiente para eu me despedir amorosamente dela, mas também longo o bastante para me fazer rogar à morte que a levasse antes de o tormento da dor se instalar. Felizmente, foi isso que aconteceu.


Antes da doença da Beta, eu já havia feito mais de um extermínio misericordioso, ou facilitação de passagem, como o Roberto chamava esse tipo de serviço. Mas, depois da doença e da morte da Beta, confesso, passei a praticá-los com muito mais segurança e habilidade.


Minha primeira “facilitação de passagem” foi Dona Laura, uma senhora de noventa e um anos. O neto dela, médico, contratou o serviço a pedido da própria.


Dona Laura ia levando bem sua velhice, lúcida e saudável, até levar um tombo de um ônibus, cujo motorista, estressado, arrancou antes que ela tivesse descido completamente as escadas. O tombo a deixou surda de um ouvido e com um ombro e a bacia fraturados. Estava de cama havia cinco meses, fazia três optara por ser hospitalizada, tentativa de desonerar a família. Com o passar do tempo, contudo, se deu conta de que não ia melhorar e, antes que a lucidez a abandonasse, decidiu tomar a rédea da situação e escolher o dia e a hora de fazer sua passagem. Mas para executar o plano precisava escolher o parceiro certo. Escolheu o afilhado e neto predileto, médico no hospital onde estava internada. Sabia que podia confiar nele, desde pequeno tinha uma visão particular do sentido da vida e da morte.


Pois bem, tudo isso Dona Laura me contou na conversa que tivemos antes de eu aplicar-lhe, vestido de enfermeiro, a injeção letal preparada pelo neto e entregue dois dias antes à secretária do Roberto.


Logo que cheguei, Dona Laura perguntou “É você?” Era o horário marcado – onze da manhã de dezenove de fevereiro, hora e dia em que o marido dela expirara havia vinte e dois anos. Era também sábado de Carnaval, o hospital estava lotado; e eu, completamente agitado. Não respondi nada, ela continuou: “Esperava alguém mais jovem...” Não era em absoluto minha intenção conversar com aquela senhora tão frágil, ali deitada, mas aquele comentário me pegou desprevenido. Encarei-a e seu olhar embaçado me comoveu. Conversamos um pouco, ela me contou sua história e eu, meio embaraçado, perguntei se ela desejava alguma coisa antes que eu terminasse de fazer meu trabalho. Ela disse que sim, que queria comer um Haagen Dazs de morango. Eu me arrependi na hora de ter perguntado, mas a bobagem já havia sido feita e não tive estrutura pra desconsiderar o desejo da moribunda, que eu próprio tinha despertado. Desci e comprei. Servi-lhe na boca meia dúzia de colheradas, até ela começar a tossir sem parar, me fazendo pensar por um instante que ia economizar a injeção. Levantei-lhe a cabeça e lhe dei água devagarzinho até a tosse parar. Então ela disse que eu era um anjo e pediu para eu terminar meu trabalho.


Antes de deixá-la, dei-lhe um beijo na testa. Se tivesse tempo – estava quase na hora de o enfermeiro de verdade, das doze horas, chegar – talvez derramasse uma ou duas lágrimas.

20h


Passa das 20h, acabou de escurecer, estou pronto. Até o bairro onde vive o bandido, vou gastar quase uma hora. Saio. No carro, ligo o som bem alto. O trânsito a princípio flui melhor do que eu esperava, mas vai piorando à medida que me aproximo dos bairros mais pobres, na periferia da cidade. Às 21h19min estou com o carro estacionado a cerca de um quilômetro do local onde planejei consumar o assassinato. Visto o boné roto que compõe meu disfarce e vou andando para o lugar em que planejei esperá-lo.


Chego a tempo de vê-lo entrar no bar, a tal sinuca onde ele bate ponto quase todas as noites. Encosto num canto imitando um mendigo bêbado, com uma garrafa de pinga do lado. A espera é longa, mas aproveito para observar como é a vida à noite naquele lugar miserável. Fico um pouco receoso de algum aprendiz de marginal querer me agredir e eu ser obrigado a adiar meu serviço, mas meu disfarce parece estar funcionando muito bem: estou invisível, completamente integrado aos becos imundos, ninguém me nota.


Às 22h50min avisto o sujeito saindo do bar. Está sozinho e toma a direção de casa, em três minutos vai passar na minha frente. Saio do beco escuro onde estou e caminho trôpego, andar de mendigo bêbado, em direção a ele. Quando chego perto, peço um cigarro. Ele diz que nunca me viu por ali, e enfia a mão no bolso. Gelo, meus músculos travam, os dedos tocam no cabo da arma sob a camisa larga. Ele saca o maço de cigarros do bolso e tira um para me dar. Pergunto se tem fogo e, antes que ele tenha tempo de pegar o isqueiro no bolso, atiro em seu peito três vezes, sem sacar a pistola. Ele cai de joelhos, depois, de cara no chão, mas antes disso já estou de volta ao beco escuro. Esfrego a cruz e a espada tatuadas no antebraço esquerdo para ativar o sangue nas veias e garantir destreza e sorte na fuga.


Corro como um louco por ruelas labirínticas, escuras e imundas. Quando passo por lugares mais movimentados, me esgueiro pelos cantos, com passos rápidos, mas sem correr, tentando não ser notado. O quase quilômetro que me separa do carro parece não ter fim. Tenho a sensação de que me seguem, o suor escorre, o sangue parece que vai arrebentar as veias, entro por novos labirintos que pareciam não estar ali antes. Enfim, avisto o carro.


Dirijo como um louco por uns vinte minutos, até escapar daquela zona mais pobre da cidade. Depois começa a me dar uma moleza, os olhos pesam, sinto uma fraqueza profunda. Suponho que tenha sido a corrida, em seguida temo que o esforço e a tensão possam ter provocado um enfarte. Mal consigo vencer o trajeto pelas escadas e o elevador. Abro a porta e me jogo no sofá. Antes de fechar os olhos vejo um rosto, o rosto do Daniel, meu neto, e penso ouvir sua voz dizendo algo como “Boa noite, Dimitrion” e uma voz feminina mais ao longe, “Vai dormir, menino, amanhã você acorda às seis e quinze, desliga esse jogo!” Apago.

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