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  • Elisa Ribeiro

Mayara Sereia

Estava cansado de passar carnaval no Rio. Bloquinhos de rua me entediavam. Desfile de escola de samba também não era diversão para mim. Seria minha primeira vez em Belém. Turismo por conta da empresa. Passagem, hotel e diária, tudo na faixa. Quando meu chefe perguntou se eu podia ir, respondi na lata.


– Sem problemas, chefe. Pode mandar emitir a passagem.


Sou um cara de exatas, formado em Engenharia, profissional de TI desde os dezenove anos. Nunca fui de ter medo ou acreditar em coisas sobrenaturais, mas na véspera da viagem me bateu uma insegurança esquisita, sensação inexplicável de catástrofe. Como tudo já estava acertado, entretanto, descartei o presságio, às favas a intuição. Era jovem, pensei, o que quer que desse errado, ainda me restavam muitos carnavais para serem devidamente aproveitados.


Assim que desci em Belém tive uma amostra do quanto seria selvagem aquela experiência amazônica. O tal clima equatorial, mesmo eu tendo embarcado no Rio de Janeiro, quarenta graus à sombra, me chocou. Eram quase sete da noite, não sei que temperatura fazia, mas o bafo quente deixou minha camisa molhada instantaneamente. Fiquei meio tonto e letárgico, como se tivesse bebido ou fumado coisa estragada.


O colega da companhia – Vicente, chamava-se – me esperava com o ar-condicionado do carro no máximo. Respirei me acalmando, mais um pouco daquele calor e acho que teria desmaiado.


– Conheces Belém? – Vicente perguntou, com aquele sotaque que eu já conhecia.


Às vezes conversávamos por telefone, assunto de trabalho, e eu dizia comigo mesmo que namoraria tranquilamente uma belenense só por causa daquele jeito de falar.


– Não, é minha primeira vez na Amazônia.


– Queres que eu te mostre a cidade?


Respondi que não, ainda sentia um pouco do mal-estar da chegada, pedi que fôssemos direto para o hotel, sem escalas.


Seguíamos conversando amenidades sobre a cidade e o trabalho quando, parados em um sinal, o Vicente me mostrou uma barraquinha de rua cercada de pessoas tomando uma sopa fumegante.


– Que raios é isso, Vicente?


– Tacacá. Nós aqui temos o costume de tomar no fim da tarde, comecinho da noite. Mas tem que ser bem quente... – fez uma pausa, espiou minha reação – pra refrescar o calor – completou, rindo da minha expressão de quem não estava entendendo nada.


– É muito bom também, anota aí, carioca, para curar ressaca.


Em menos de meia hora estávamos na porta do hotel.


– Tem uma festa boa hoje. Pré-carnaval. Pena que tu não estás te sentindo bem.


O que restava da minha indisposição sarou imediatamente.


– Não, cara, eu já estou melhor. Vou ficar inteiro depois de um banho.


– Égua! Passo para te pegar às onze, então.


Depois de uma chuveirada, um cochilo e um lanche no quarto, estava pronto. Vicente me pegou passava um pouco das onze.


– É uma pool party. O lugar é um pouco afastado, mas incrível. A piscina é de água corrente do rio. Tu nunca viste nada igual, carioca.


Show! E as mulheres?


– Muitas, a nata da cidade. E muita pipa avoada também...


O lugar era um espetáculo. Um casarão rústico com um rio passando na frente, a piscina formada pela água represada, cascalho fino no fundo, cheia de peixes. Em volta a floresta, as árvores altas abafando o som, tecnobrega eletrônico paraense era o que tocava. Entre o casarão e o rio, uma ou outra pessoa fantasiada, todo mundo dançando.


Depois de algumas vodcas, caí de amores por uma sereia. O rosto era largo, tipicamente paraense. Todos os traços – boca, nariz, olhos, bochechas – arredondados. O corpo, por baixo da roupa verde chamativa, era perfeito. Peitões sobrando no decote, cintura fina, quadril largo, coxas roliças, tornozelos grossos, bunda redonda, empinada. Cheguei perto, dancei me encostando, chamei “sua linda” no ouvido e ganhei um beijo que explorou minha boca de um jeito que eu me apaixonei.

Quando fui ao bar pegar mais bebida, vodca para mim e um drink azul para a sereia, um sujeito alto, grandalhão, boa-pinta, todo vestido de branco, até o sapato, com um chapéu panamá na cabeça, me abraçou como se cumprimentasse um amigo e falou no meu ouvido.


– Desculpe meter o bedelho, mas preciso te dar um conselho. Essa mulher que tu estás, a sereia, não é bem o que parece. Foge dela, te acautela. Aquela lindeza toda é disfarce do sete-peles.


Mal terminou de falar, afastou-se de braço dado com uma loura peituda de shortinho de couro que eu tinha visto chegar sozinha à festa umas duas ou três vodcas atrás.


Ignorei o conselho, só podia ser alguma piada. Passei o resto da noite dançando com a sereia. Disse que se chamava Mayara e que o sobrenome era Sereia mesmo. Vendo minha cara de espanto, deu uma gargalhada com a boca tão aberta que eu pude ver-lhe todos os dentes, grandes, sem nenhum defeito e quase azulados de tão brancos. Dei o nome do hotel onde estava e chamei-a para passar o resto da noite comigo.


– Hoje não posso – desconversou –, mas passo lá na segunda. Podes me esperar.


Mentira, pensei, e continuei nos amassos. Pouco depois deixei-a para ir até o banheiro. Quando voltei, ela não estava mais lá.


Acordei estragado no domingo. Saí da cama passava das duas. Depois de escovar os dentes, enquanto tomava banho, me veio do nada a lembrança da Mayara. O hálito de fruta, a língua invadindo minha boca, o modo de beijar me sugando, os dentes absurdamente brancos. Depois do desejo da boca veio a vontade de grudar meu peito no dela, de novo apertar-lhe a bunda, as coxas. Ainda bem que estava no chuveiro, porque me melequei todo.


Almocei no hotel mesmo, um peixe local de comer ajoelhado, como diria minha avó. Depois saí para conhecer alguma coisa da cidade. O calor era o mesmo da véspera, nenhuma brisa. Movia-me em câmera lenta, imaginando-me um bicho-preguiça, qualquer agitação extra parecia aumentar o calor úmido insuportável.


Fui à Basílica de Nazaré, distante mais ou menos um quilômetro, rezei um Pai-Nosso, tirei meia dúzia de fotos e voltei. Já próximo à quadra do hotel, tomei um susto quando um menino pequeno, que mais parecia um anão, saiu de trás de uma das mangueiras que ladeava o passeio e se postou na minha frente. Tinha uma cabeleira desgrenhada vermelha e no rosto uma expressão assustada e ao mesmo tempo irônica.


– Tenho cara de menino, mas não sou criança, não. Vim pra te dar um aviso, presta bastante atenção. Comer rabo de sereia, em noite de lua cheia, na semana de Carnaval, vai te fazer muito mal.


Fiquei olhando, espantado. O garoto deu uma risadinha mostrando os dentes serrilhados como os de um peixe. Depois apareceu um sujeito vindo da outra calçada na nossa direção.


– Uirá, meu filho, você assustou o moço.


– Está tudo bem – falei. – Só não entendi muito bem o que ele quis dizer.


– Não liga para o que ele disse, não, senhor. Esse menino é abusado, não sei a quem puxou – agarrou o garoto pelo braço e o arrastou. – Vamos embora, Uirá, diga adeus pro moço.


O garoto não falou mais nada, só continuou me olhando, a mesma expressão de antes, enquanto se afastava puxado pelo homem.


De volta ao hotel, entrei direto no chuveiro frio, vi um pouco de TV e me preparei para dormir, queria acordar bem-disposto. Já deitado, olhei pela janela e vi a lua grande e branca, faltando só um pedaço para ficar completamente cheia.


Acordei com o alarme do celular às seis e trinta. Em meia hora já suava aguardando na porta do hotel pela carona do Vicente.


Depois de uma reunião cansativa que durou quase a manhã inteira, fomos almoçar em um restaurante próximo que servia comida típica paraense. Caminhamos por cerca de quinhentos metros à sombra de mangueiras enormes, entre fachadas escurecidas – maltratadas pelas chuvas, explicaram – e meios-fios tão altos que formavam uma vala entre a calçada e o asfalto.


Minha impressão era de que a floresta equatorial persistia a despeito da urbanização da cidade e que a qualquer momento uma cobra ou um jacaré sairia dos sumidouros de água pluvial que mais pareciam buracos negros.


Comi tanto e de forma tão variada que achei que só conseguiria me alimentar de novo no dia seguinte. Mas não resisti e acabei provando o tal tacacá com os colegas depois do expediente, antes do chope. Não consegui engolir, dei a desculpa de que ainda estava com a barriga cheia do almoço, mas, na real, minha garganta travou com o aspecto, cheiro e sabor daquela bebida embaçada servida dentro de uma cuia.


Já cochilava em frente à TV quando, da recepção, avisaram que uma mulher que perguntara por mim estava subindo para o meu quarto. Aberta a porta, Mayara me sorriu com a boca vermelha e a língua convidativa entre os dentões brancos.


Não lembro o que conversamos, só que fizemos amor como bichos. Ela, o predador; eu, a presa. Sem camisinha nem noção do perigo, fruição total do momento. Bebemos tudo o que havia no quarto e também uma bebida forte trazida por Mayara. Que se danasse o Uirá, pensei, ao ver a lua cheia iluminando-lhe as largas ancas morenas. Lancei-me sobre ela com gosto. Ela urrava de prazer ondulando, primeiro embaixo, depois em cima de mim, como se estivesse possuída por mil demônios.


Quando levantei de manhã, Mayara havia partido. Estranhei, mas achei bom. Acordar ao lado daquela mulher que eu mal conhecia depois de tudo que havíamos feito seria, no mínimo, embaraçoso.


Logo no primeiro cafezinho no trabalho, percebi que havia algo errado comigo. Enjoo, sensação de fastio, não consegui comer quase nada no almoço e no jantar deixei pela metade o sanduíche que pedi. Ao deitar, fiquei horas me revirando, tentando encontrar uma posição, parecia ter comido um boi e meio.


Na quarta-feira o botão da calça não fechou. Disfarcei com a camisa para fora. No caminho para o trabalho, novamente de carona, comentei com o Vicente:


– Cara, não sei o que está acontecendo. Não consegui comer nada ontem, e hoje a barriga está tão grande que a calça não fechou.


– Liga não, carioca. Deves estar estranhando a comida forte daqui.


Na manhã seguinte, acordei pior ainda. Sem comer havia dois dias, sentia-me fraco. Parecia que algo crescia dentro do meu abdômen fazendo pressão nos outros órgãos. O simples ato de inspirar causava dor. Não conseguia me concentrar no trabalho. Falei bobagem durante uma reunião, os colegas se entreolharam, pedi desculpas e o chefe me mandou ir para o hotel, dizendo que eu descansasse e voltasse novo no dia seguinte.


Na sexta liguei informando que não tinha condições de trabalhar. O Vicente se dispôs a me levar ao melhor hospital da cidade, mas depois lembrou que não podia, tinha trabalho para entregar e à tarde viajaria.


Fui como pude, não no melhor, mas no hospital mais próximo, sozinho mesmo. Os médicos me viraram do avesso em exames sem encontrar nada que justificasse o inchaço ou a dor. Receitaram um remédio para gases, disseram para eu voltar se não melhorasse em dois dias, recomendaram dieta e repouso.


Na saída do hospital, enquanto eu aguardava o carro que havia chamado, um mendigo de muleta, sem uma das pernas, o outro pé virado para dentro, boné vermelho encardido na cabeça, com uma espécie de porco-do-mato amarrado numa coleira, pitando um cigarro de palha fedido, se aproximou.


– Dá um dinheiro pra ajudar, moço, esse velho manco e coxo.


Tirei uma nota amassada do bolso traseiro.


– Deus lhe pague – disse e, olhando para a minha barriga, acrescentou: – O que tu tens aí dentro, não há mais nada a fazer. Tem uma coisa crescendo, logo tu vais saber.


Arrepiei. Era a terceira vez desde que eu havia chegado naquela cidade maldita que um desconhecido falava, daquele modo rimado, coisas estranhas comigo.


Passei o sábado deitado. Os remédios não surtiram efeito, a barriga parecendo a de uma grávida no nono mês. À noite, uma cólica tremenda. Corri para o vaso e uma coisa que parecia não acabar escorregou de dentro para fora de mim. Quando olhei para o fundo da latrina, não acreditei no que vi. Uma criatura enrodilhada me olhava. A lógica me fez pensar que era um verme, mas o aspecto era de serpente. Foi ganhando corpo, expandindo-se rapidamente até transformar-se numa cobra grossa e grande, espalhada por todo o piso do banheiro. Paralisado de espanto, hipnotizado pelo bicho, nem sequer me movi quando a criatura bizarra abriu a boca disforme e me engoliu por inteiro.


Passado o primeiro susto, debati-me desesperado tentando escapar daquilo. Já sem forças, cercado pelas entranhas escuras e quentes do bicho, me dei conta de que aquilo ou era o fim de tudo, ou o começo de alguma coisa que eu não sabia direito. Conformei-me, aconcheguei-me como pude e, aquietado naquele ambiente que mais parecia um útero, acabei adormecendo.


No domingo de carnaval, lá pelas tantas, o monstro me expeliu, pela mesma bocarra que havia me engolido, transformado em uma nova criatura. Por dentro ainda era eu quem pensava, mas por fora o corpo era de mulher fogosa com apetite de sereia, cujo único propósito era enfeitiçar algum sujeito antes das cinzas da quarta-feira. Só sei dizer que fiz com capricho o que a minha nova natureza mandava que fosse feito.


Na madrugada da terça-feira me destransformei, não sei como, durante o sono e voltei a ser eu mesmo – por fora e por dentro. Até fui trabalhar, embora esgotado, na tarde da quarta-feira. Na sexta retornei para o Rio de Janeiro. Algo me diz, entretanto, que meus próximos carnavais nunca mais serão os mesmos.

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