No meio do caminho...


Manuel sempre acorda antes do galo cantar, ele já está acostumado com isso. Quando era pequeno seu pai saia cedo para ir trabalhar, trabalho pesado de cuidar das poucas cabeças de gado, de capinar e arar as plantações de feijão, milho e arroz. Aos poucos Manuel foi aprendendo o ofício. O tempo passou e seu pai morreu de uma doença feia. Agora é ele quem cuida de tudo.


Todos os dias é a mesma coisa: levantar cedo, fazer um café preto e forte, ingerir ele com farinha ou alguma outra coisa e se preparar para um trabalho pesado. Há dias que vem chovendo, o tempo está frio e a vontade de continuar na rede é muito grande. Mesmo assim Manoel se levanta deixando a velha rede e o lençol furado para trás.


Vestido com sua roupa de trabalho ele já está em seu caminho de sempre, uma estrada estreita de terra batida que agora está toda enlameada. O vento frio das cinco da manhã bate em seu rosto fazendo lembrar-lhe do calor do corpo de sua mulher. Ele sabe que agora tem que trabalhar em dobro porque ela está prenhe do seu primeiro filho.


Manoel já está bem desperto e praguejando por causa do caminho todo encharcado que dificulta um pouco os seus passos. O cigarro de palha no canto dos seus lábios irradia um leve calor. É uma madrugada triste e solitária. Não era para ele ter saído de casa. Aquela estradinha silenciosa, cujo único som eram os dos seus passos no terreno enlameado e o vento que soprava por entre as arvores, transmite-lhe uma sensação estranha. Manoel fica se perguntando se não será medo o que está sentindo. Uma repentina vontade de dar meia volta e retornar para o aconchego de seu pobre casebre assalta-lhe o espírito.


Nunca se considerou um caboclo medroso, mas aquela estrada estava silenciosa demais e ele, definitivamente, não queria estar ali. O vento frio parece moldar formatos estranhos nas árvores e isso faz Manoel lembrar das histórias de visagem que seus pais contavam quando ele era criança. Recordava que ia dormir todo enrolado com medo.


Siga em frente, não falta muito para amanhecer é o que Manoel fala para si mesmo. Acende um outro cigarro e, fazendo isso, o medo parece diminuir.


Caminhando um pouco mais ele tem a nítida impressão de ter visto algo. O que será? O que é isso que está a sua frente? Não dá para ele ver direito pois está escuro. Manoel para de repente, assustado e com a respiração subitamente ofegante. Sua mão corre para o facão na cintura. O que seus olhos veem parece algo esbranquiçado, baixo e atarracado. Pareceu-lhe um pedaço de tronco de árvore. Ele não sabe ao certo o que é. A coisa à frente pula em sua direção. Pula alto e ele tem a nítida impressão de que ela vai ficando maior. Seu coração dispara e suas mãos calosas seguram com mais força o facão. A coisa avança em sua direção e novamente pula. Desesperado ele tenta acertar-lhe com o facão. Em vão, apenas o ar é cortado por sua arma. De repente sente que algo lhe roçou. Alguma coisa lhe tocou. Algo quente e viscoso.


Em desespero Manoel tenta correr, mas escorrega e cai. Sua queda é feia e ele se enlameia todo. Enquanto se levanta pensa na sua mulher prenha e em orações que não consegue se lembrar. Seu facão ziguezagueia em sua mão tentando desesperadamente manter afastado algo que ele não consegue ver direito.


Sumiu! Manoel se desespera olhando enlouquecido para todos os cantos, mas a escuridão limita muito a sua visão e isso lhe assusta. Para onde foi a coisa? O que era aquilo?


Em desabalada carreira Manoel procura o rumo de sua casa. Cai, levanta. Perde uma das botinas. Enquanto corre cosntantemente volta-se e olha para trás com medo de que haja algo lhe seguindo. Os movimentos das árvores pelo vento parecem aterradores. A chuva torna a cair.


Assustado, molhado e com frio Manoel finalmente vê a silhueta familiar de sua casa. Entra correndo e empurrando a velha porta de madeira que toda noite ficava apenas encostada. Sua mulher, carregando uma gestação de sete meses, ainda está dormindo. Prepara um café bem forte e tenta se acalmar. Sentindo-se um pouco mais aquecido ele volta para sua rede e se embrulha tremendo dos pés à cabeça.


Logo o dia vai amanhecer...

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