Noturno

Há mais de um mês que ele a observa e estuda. Ele a acha muito bonita, talvez um pouco pálida demais, mas mesmo assim uma bela mulher. Viu-a pela primeira vez na saída de uma sessão noturna de cinema em um shopping qualquer. Sentiu que ali estava sua próxima vítima.


Valdomiro Pantoja há muitos anos já havia desistido de tentar uma explicação para o fato de gostar de estrangular mulheres. Ele era assim e pronto. Teve amor e carinho dos pais, não sofreu abuso de nenhum tipo na infância, não enfrentou privações ou violências. Valdomiro mata mulheres porque isso lhe dá prazer.


Quatro mulheres já haviam sido mortas por ele, todas enforcadas com cordas de nylon (ele viu isso em um filme antigo e decidiu que faria igual). Nunca fora pego porque estudava bem suas vítimas, só atacava quando tinha certeza que não deixaria pista alguma e, o principal, não saia estrangulando uma vítima atrás de outra, levava anos entre um crime e outro.


Descobriu que sua futura vítima morava sozinha em uma pequena casa de um bairro de periferia e que não tinha um emprego fixo, às vezes trabalhava como garçonete ou como garota de programa. Sempre empregos noturnos. Valdomiro nunca a via durante o dia.


Os dias passavam e a vontade de sentir mais uma vez a vida de uma mulher se esvaindo aumentava em razão exponencial. Ele já se imaginava olhando aquele rosto bonito se contorcendo em agonia enquanto a estrangulava. Sublime prazer era o que sentia nesses momentos. Aquele era o seu segredo mais bem guardado. Ele amava sentir aquele desejo mórbido.


Decidiu que seria naquela noite. Tudo já estava planejado. No dia seguinte haveria uma nova vítima.


Ao entrar sorrateiramente na pequena casa sentiu de imediato algo estranho. Tudo estava silencioso. O que haveria de anormal naquela casa? A ansiedade pelo crime embotava os seus pensamentos. Ele sabia que sua vítima estava em seu quarto deitada, sem saber que em poucos minutos estaria morta. Mesmo assim havia algo no ambiente daquela casa que não estava correto e que lhe intimidava.


Andava cuidadosamente pela sala quando em um átimo de insight descobriu o que lhe parecia estranho quando adentrou a casa: os móveis eram todos antigos e não havia um único objeto que mostrasse ser esta uma casa do século XXI, não havia geladeira, televisão, lâmpadas de teto, etc. Muito estranho. Seu desejo de matar se misturou com um medo primitivo que parecia querer grudar em sua pele.


Sentiu uma urgência em matá-la logo e dar o fora dali.


Silenciosamente adentrou o quarto de sua quinta vítima. Seu coração batia forte e o rosto queimava de excitação quando a penumbra do quarto cedeu lugar para a tênue iluminação de um pequeno castiçal.


- Boa noite! Seja bem-vindo à minha casa. Estava imaginando quando teria a honra de receber uma visita sua.


Valdomiro percebeu com horror que o belo rosto de sua vítima aos poucos se transformava em algo de um horror indescritível.


Tentou correr, mas suas pernas pareciam grudadas no chão. Um cheiro adocicado invadiu o ambiente

                                                          ...


O dia seguinte encontrou o corpo de Valdomiro jogado em uma pequena vala. Ele estava sem uma gota de sangue.

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