O Homem Dourado


Dedicado à memória de Graciliano Ramos...


Quando a mãe o levava até a cobertura do prédio alto em que agora moravam, Davi não tirava os olhos do farol. Se fosse noite, o farol olharia para ele também com seu brilho dourado. As luzes conversavam com Davi, ele as tocava. A orla de Sete Coqueiros era ainda mais linda vista daquela altura. O Sol se afastava deixando um crepúsculo tímido e avermelhado.

- Meu amor... depois de lá, olhe - a mãe apontava para o alto mar, um navio sumia aos poucos no horizonte - existem outras terras e muitos meninos como você, sabia? - ela já sabia a resposta: silêncio.

Mas Regina percebia que o farol sempre o atraía a atenção, havia algo nele que o filho gostava, talvez ele lembrasse de quando assim que chegaram na nova cidade ela aproveitou a maré baixa e o levou até lá caminhando por sobre os corais. Ele o apontava e emitia alguns sons desconexos. Doze anos se passaram e ela ainda buscava compreender o que a ciência e a medicina haviam denominado “autismo”, ao tentar olhar no fundo dos olhos do filho procurando enxergar sua alma confinada em um corpo perfeito mas que talvez jamais se encontrasse, e isso sempre trazia lágrimas aos seus olhos, ela só queria que ele fosse feliz... já que não poderia ser uma criança normal...

- Eu te amo muito meu Rei... a mãe vai tá sempre aqui, tá?

Davi a olhava com olhos escuros e desviados. Feixes cintilantes desbotavam do cabelo dela, a mãe vibrava e seu corpo emitia uma luz diferente da luz que ele via nos outros... a luz dela era boa... colorida... ele ficava feliz quando ela o tocava... mas ainda assim seu plano secreto já estava definido... papai não sabia que ele sabia onde ele guardava a Chave...

Um afago e um beijo em sua cabeça eram como se nada tivesse sido ofertado, mas lá no fundo, bem lá no fundo, Regina sentia com todo o amor que o filho retribuía o sentimento da maneira que Deus o permitira expressar... em silêncio... mas Deus era perfeito, ele também era o silêncio... sabia o quanto ela havia desejado um fruto... e sabia também que depois dele ela não poderia mais florescer, não seria nada simples próximo dos cinquenta, e ela andava tão ocupada com tudo. Se pudesse, Regina teria tido vários filhos, e a casa seria barulhenta de risadas e das melhores expectativas...

Silêncio. E a brisa vinda do mar. Davi era silêncio. O silêncio também era amor?

De volta ao apartamento, um duplex facilmente enquadrado como pertencendo à classe A, Davi estaria no mundo a ele ofertado. Seu quarto, maior do que muitas casas, estava repleto de brinquedos dos mais variados, assim como pelúcias e um videogame moderno quase nunca usado. Pelo chão, estavam o passatempo preferido dele que não entendia o que era o tempo: uma infinidade de lápis de ceras e folhas em branco, muitas rabiscadas com desenhos abstratos e formas assimétricas que eram vistas por Regina como a arte mais pura. Eles viviam bem, na verdade, muitíssimo bem, eram mais que privilegiados tendo em vista a situação real do país.

- Dona Severina, o Flávio vai chegar um pouco mais tarde hoje, a construtora tá fechando uns negócios importantes e ele vai precisar se reunir com os sócios e uns investidores americanos e você sabe né, essas reuniões não têm hora pra acabar, só que eu também vou precisar dar uma saída, vou me encontrar com alguns advogados pra tratar de um caso muitíssimo importante e também não sei de que horas vou voltar. Por favor Dona Severina, não tira os olhos do Davi, certo? Eu sei que eu nem preciso me preocupar, mas a senhora sabe né? Ele ainda não se acostumou com esse calor de Maceió.

- Oxe Dona Regina, nem se peorcupe não, fiqui sossegada, pode sair e vortá quano quisé que eu tomo de conta dessi menino lindo tranquilinha! Ele num dá trabaio nenhum pra mim! E quano Seu Frávio chegá, o jantá já vai tá prontinho se ele quisé cumê, hoje eu vou fazê aquela sopa de legumes que ele gosta, ele diz que é iguá da vó dele, ispia só! - Severina não entendia por que a patroa sempre dava tantas satisfações e falava tanto com ela sobre processos, juízes, varas, advogados, acordos, ela mesma não entendia nada, mas ouvia tudo balançando a cabeça. Ela era uma boa patroa, pagava bem e a respeitava, era Promotora de Justiça, devia ser algo muito nobre. Mas de uma coisa ela sabia: dinheiro não era felicidade, porque se fosse, o casal de patrões seria o mais feliz de todos. Eles pareciam sempre muito cansados e preocupados, e o único filho ficava sempre em casa, a professora ia dar aulas a ele no quarto, ele era um garoto especial...

- Não Dona Severina, não faça sopa não, ele me ligou pedindo pra eu comprar sushi pra ele, disse que tá desejando. Eu heim, não gosto de nada cru. Vou ligar pra pedir e deixar o dinheiro aqui pra senhora pagar porque eu já vou sair, diga a ele que eu chego lá pelas dez, qualquer coisa ele me liga. O Davi tá pintando no quarto, já já a senhora dá uma olhadinha nele por favor, e não esqueça do remédio dele, a senhora sabe que ele dorme bastante quando toma, ele tá precisando descansar um pouquinho - Regina deixou a nota azulada e arrumou a bolsa com ar apressado.

- Tá certo Dona Regina, pode ficá tranquila. Vou fazê um lanchinho bom pra o Davizinho, um sanduíche de peito de peru que eu sei que ele gosta muito, com um suquinho de laranja. Pode deixar que eu dou o remédio certinho. Até mais tarde Dona Regina.

No quarto, Davi estava rodeado pelas sombras que sussurravam. Uma delas disse “E então, Rei Davi, agora que você sabe onde seu pai guarda, qual a desculpa pra não voltar ao seu Reino?”, outra, completou, “O caminho está no farol... mas você pode voltar sem sair do quarto, se tiver coragem...”. O Urso Paquito, interveio, “Mestre Davi, não precisa fazer isso, essa história de ser diferente não é algo ruim, você é especial, seus pais o amam... não volte ao seu Reino... não dê ouvidos às sombras!”

- Desculpe querido amigo Paquito... não sou normal... minha mãe e meu pai deveriam ter tido um filho de verdade... eu não sou de verdade... eu não posso mais viver sem conseguir falar sobre o que vejo e o que sinto... não escolhi ser assim... mas escolhi voltar... e vai ser hoje... me desculpe caro amigo... pode ficar com meus desenhos... e diga à mamãe que eu a amo... mesmo que eu nunca tenha falado isso...

Quando o Sol se afastou e a noite deu lugar a um luar prateado que se refletia num mar calmo, Davi caminhou sem ser percebido até o quarto dos pais. Abriu a última gaveta da cômoda ao lado da cama, retirou as meias do pai e abriu um outro compartimento que ficava na base do móvel, retirou de dentro uma caixa e a abriu... e de dentro dela, retirou a Chave para sua volta ao Reino... como haviam dito as sombras que sussurravam...

Dona Severina levou seu sanduíche, ele comeu como sempre, lhe deu o comprimido e pediu para que ele tomasse com seu suco, só que dessa vez o comprimido permaneceu embaixo da língua... e quando ela saiu de seu quarto, ele se deitou e esperou. Teria que ser paciente para que o plano desse certo. Precisaria fingir um pouco.

- Deus o abençoe menino Davi... pelo menos seus pai tem boa condição pa você vivê bem... acho que cê entende tudo de nóis, mas só Deus entende o que cê fala...

Minutos depois, ela abriu a porta e viu que ele dormia... ela ficou algum tempo o olhando antes de sair e fechar a porta devagar. Meia hora depois, o ritual se repetiu. Davi estava dormindo. Dona Severina pensou que já que o patrão tinha ligado pedindo pra ela guardar o tal do sushi na geladeira porque ia chegar perto das nove, dava tempo de tirar uma soneca, ia colocar o despertador pra tocar depois de uma hora. Deitou no sofá e em instantes adormeceu profundamente, estava cansada como uma boa doméstica se cansa quando oferece o melhor de seu serviço.

Davi se levantou silencioso, abraçou Urso Paquito, juntou as folhas com seus desenhos e os arrumou sobre a cama, pôs a chave para o Reino em um saco de tecido que guardava suas figurinhas, saiu do quarto e viu Severina roncando, ao redor de Severina uma luz parecida com a da mãe se espalhava e ele percebeu que gostava dela, o sanduíche que ela fazia era muito bom, esperava poder encontrar um tão bom quanto ele quando estivesse de volta ao seu Reino. Caminhou com passos leves como os de um gato, pegou a chave da porta sem fazer nenhum ruído, abriu-a e logo estava no corredor. As paredes se inclinavam sobre ele, as plantas nas caqueras o observavam e o perguntavam para onde ele estava indo sozinho. Davi não deu ouvidos a elas, sabia que se o zelador ou qualquer pessoa o visse, avisaria imediatamente a alguém já que ele nunca era visto só. Todos sabiam que ele era diferente. Mas ele tinha um plano. Usou o elevador de serviço, e assim que a porta se abriu, ele viu que o portão da garagem estava aberto, um carro da lavanderia estava fazendo sua entrega, e Davi aproveitou para sair rápido sem ser visto pelo porteiro que conversava com o entregador.

Do lado de fora, Davi estava com o coração aos pulos, havia sido mais fácil do que imaginara. Olhou para o céu e viu que a Lua estava dourada, estava tão grande quanto o Sol. Bastava agora atravessar a avenida até alcançar a calçada da orla, caminhar alguns minutos até chegar no farol, então usaria a Chave... e não precisaria mais ficar triste por não ser normal... não precisaria mais tomar os remédios... a mãe não choraria mais escondida dele conversando com o pai... e ele conheceria outros meninos diferentes como ele, meninos que conversavam com as luzes e com as plantas, meninos que encontraria quando atravessasse o portal que estava escondido no farol... Ao longe, Davi podia ver o farol que em intervalos regulares emitia sua luz em sua direção. Seria lá. Mas enquanto caminhava pela calçada por entre pessoas que caminhavam, pessoas em bicicletas, skates, patinetes, pessoas que emitiam cada uma tipos diferentes de luzes, que na visão de Davi se tornavam uma aquarela mágica em constante movimento, ele foi sentindo no peito algo que ainda não havia experimentado, algo pesado, era algo que estava fazendo com que sua garganta se apertasse e seus olhos ficassem embaçados, era algo que ele via em sua mãe quando às vezes ela alisava seus cabelos e ele olhava para algum lugar distante... Pôs a mão dentro do saco que carregava e sentiu o frio do metal da Chave para a volta ao Reino prometido pelas sombras que sussurravam... colocaria a Chave de frente para a fechadura que ficava na sua coroa e em instantes atravessaria o portal... mas estava triste... triste porque também gostava de ser quem era, ser diferente também o tornava único, mas agora não poderia mais voltar, havia ido longe demais, tão longe como nunca antes fora, se voltasse, as sombras o chamariam de covarde... e de seus olhos um líquido cristalino escorreu e ele parou. Observou as naves que os pais chamavam de carros e suas luzes passando de um lado para o outro assim como as pessoas, o mar escuro que recebia da Lua uma leve carícia. Estava chorando. Pela primeira vez. Os olhos embaçados captavam as luzes de uma maneira ainda mais forte, os sons se amplificaram como se alguém tivesse girado ao máximo o botão do volume em sua cabeça. Ele continuou andando porque o farol não estava tão longe... não iria desistir... não... a chave estava em suas mãos...

Então ele viu o Homem Dourado.

Ele o olhava, caminhava em sua direção, mas não saia do canto, ao seu redor os coqueiros dançavam como se celebrassem ao vento. O Homem Dourado olhava para ele e com uma das mãos pediu para que ele se aproximasse. Davi se aproximou, segurou com força o saco que tinha nas mãos.

- Pra onde você está indo rapazinho? Não lembro de já ter visto você por aqui... não me diga que você é de Cambacará, você é? Conheci um rapazinho de Cambacará uma vez e ele se parecia muito com você. Ele se chamava Raimundo, ou era Pirundo... não me lembro bem...

- Eu moro aqui tem pouco tempo - Davi percebeu num relance que podia falar com aquele homem assim como falava com Urso Paquito - não sou de Cambacará mas estou indo de volta para o meu Reino, preciso chegar até o farol ali na frente.

- Hum... deixe-me ver... Reino... farol... e se não estou enganado, nesse saco está a Chave para a volta ao Reino, não é? - Davi balançou a cabeça afirmativamente - E se também não estou enganado, foram as “Sombras Sussurrantes” que disseram pra você fazer isso, não foram? - Davi confirmou mais uma vez, olhava fascinado o Homem Dourado

- Elas disseram que eu era diferente dos outros meninos, e que só assim eu poderia encontrar outros como eu... não quero mais ser diferente... quero ser igual...

- Como se chama rapazinho? Davi? Bem... então é você mesmo... uma grande amiga minha, a Caralâmpia, me disse que seu nome verdadeiro é Piripaví, e que você é um príncipe. Mas aqui, nesse Reino, te chamaram de Davi, que também é um nome muito bonito. Ela me pediu para dizer que ainda não é o momento para você retornar ao seu Reino verdadeiro, ela me disse que sua mamãe e seu papai precisam muito de você... e disse que seu amigo, Urso Paquito, agora mesmo está chorando sentindo a sua falta.

- Mas senhor, como posso voltar e continuar sendo diferente assim com eu sou? Eu queria ser igual aos outros meninos, brincar, sair, não queria mais ver as luzes nem conversar com as sombras...

- Preste bem atenção, Príncipe Piripaví: nenhum de nós é igual ao outro; todos temos dentro de nós um mundo só nosso, cores e sombras que somente nós podemos ver. E por sermos únicos, temos que nos aceitar como somos. E só existe um jeito de conseguirmos isso; vendo o quanto somos amados pelos que nos aceitam assim como somos. Cada menino diferente de você é diferente de qualquer outro, e você é diferente de todos os diferentes, e é essa a verdadeira chave para sermos felizes nesse Reino. Na hora certa você irá voltar, mas antes precisa cumprir sua missão aqui, precisa voltar pra casa e abraçar sua mamãe e seu papai e dizer que os ama, e então as luzes irão adormecer e você irá perceber que mesmo sendo diferente, você sempre foi especial... só precisava enxergar sozinho... sem aqueles remédios, sem aquelas sombras mentindo pra você. Agora, não posso mais falar nada, foi só isso que a Caralâmpia me pediu para contar. E... espere um pouco rapazinho! Tem algo mais: ela pediu que você jogasse essa Chave no mar que ele saberá o que fazer com ela, a levará pra bem longe. Mas isso, depende só de você... - e nesse instante o Homem Dourado abaixou um pouco a cabeça e assumiu um ar pensativo. Os coqueiros pararam sua dança. As pessoas passavam sem nada ver além de um menino e uma estátua...

Davi sentia uma energia tomar conta de todo o seu corpo. Passou pelo Homem Dourado, o agradeceu, desceu da calçada até a areia da praia. Parou e sentiu as ondas molharem seus pés. Segurou a Chave com as duas mãos e a atirou com toda a força em direção da água que refletia o brilho da Lua. Quando o saco tocou o fundo do mar, a pistola foi enterrada pela areia...

Davi fez todo o trajeto de volta à casa, e percebeu que as luzes já não eram como antes, as sombras também não. Subiu até seu apartamento pela entrada principal, foi cumprimentado pelo porteiro, abriu a porta tranquilamente e viu que Dona Severina ainda estava dormindo. Foi até seu quarto e abraçou Urso Paquito, que o olhava com o sorriso de sempre. Deitou em sua cama e adormeceu... sonhou com uma menina muito bonita...

Mais tarde naquela noite, quando despertou, ele ouviu as vozes de seus pais conversando na sala enquanto assistiam um filme. Se aproximou devagar, e quando foi percebido, logo pararam o que estavam fazendo e o olharam com ternura. Então ouviram... pela primeira vez...

- Eu amo vocês... mamãe... papai... - como um milagre nascido do silêncio...

Após aquela noite, Davi assumiu seu trono até que voltasse ao seu Reino verdadeiro... aprendeu a falar com a boca e isso o deixou muito feliz. No ano seguinte, estava na escola normal, jogava bola, e até paquerava...

E sempre que passeava pela orla de Sete Coqueiros de mãos dadas com a mãe, o Homem Dourado, em sua eterna caminhada, lhe piscava um olho como se para fortalecer o segredo que guardavam... e quando um dia Davi perguntou seu nome, ele disse...

- Ah meu rapaz... os amigos me chamam de Graça... pode me chamar de Graça, Príncipe Piripaví...


***


*A estátua de bronze de Graciliano Ramos fica na Praia de Pajuçara, Maceió, Alagoas, e é um dos pontos turísticos da capital. Uma singela homenagem a um de seus filhos menos admirados...


*Caralâmpia, Raimundo e Pirundo são personagens do livro "A Terra dos Meninos Pelados", de Graciliano Ramos, uma obra voltada ao público jovem,de caráter atemporal, onde (ao meu ver, ao lado de "Angústia") a personalidade do autor surge em sua maior expressão.









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