O poço dos esquecidos





A única diferença entre a loucura e a saúde mental é que a primeira é muito mais comum.

Frase de

- Millôr Fernandes






O médico caminhava tranquilo pelos corredores vazios do sanatório. Seus sapatos italianos bem engraxados mal emitiam ruído ao pisar no chão velho e sujo do complexo. Ocasionalmente se escutava um gemido baixo ou algum lamurio distante atrás das portas de madeira desbotada do lugar. Havia bem poucos deles, porém nos tempos áureos aquele lugar ficava apinhado de almas doentes, loucas ou decadentes. Agora com a proximidade de sua desativação e demolição a grande maioria dos pacientes tinha sido avaliada e transferida para outras instituições bem melhores que aquela.


A julgar pelo movimento no complexo só deveriam restar um pouco mais de uma dúzia de internos limitados área de segurança máxima, por onde ele caminhava agora sem muita pressa. Seu trabalho ali não era avaliar todos os restantes, mas sim uma paciente especial, na área que foi apelidada pelos funcionários singelamente de “poço dos esquecidos”, já que ficava escondida dois subsolos abaixo do prédio principal.


Com algumas passadas avançou até o fim do corredor esverdeado até chegar numa grande porta cinza de aço reforçado, diferente de todas as outras que eram feitas apenas de madeira pesada. Sobre o portal, algum funcionário com senso de humor duvidoso tinha colocado uma pequena e feia placa escrita numa letra tosca com os dizeres “Lar, doce lar”. Ele olhou para aquilo e imaginou que deveria ser um jeito de aliviar o stress e tensão de trabalhar ali, escarnecendo dos moradores daquele inferno particular bancado precariamente pelo estado. No final não se importou, pois não era homem disso.


O médico tirou do cinto um pesado molho de chaves desgastado por feridas de ferrugem. O chaveiro que unia todas elas era uma espécie de cordão amarelo bem sujo e desbotado. O pesado conjunto era de mais de vinte chaves, o que fez o procedimento de abertura da porta mais demorado do que pensava. Após certo esforço ele escutou um baque metálico surdo da fechadura da porta, indicando sua abertura.


A pesada porta cinza deu certo trabalho para abrir, gemendo suas dobradiças secas no eco aparentemente interminável do grande corredor mal iluminado. A pintura da porta estava tão descascada e decadente como o resto do grande hospício, que em sua opinião deveria ter sido demolido vários anos atrás para dar lugar a algum novo hospital moderno. Para ele, lugares como aquele davam uma aura nefasta a sua profissão, como se ele e seus nobres colegas estivessem voltado a clinicar moribundos esquizofrênicos na idade das trevas.


O interior da sala estava escuro e sombrio, com apenas uma luz em curto onde estava sua paciente. Ele surpreendeu-se ao visualizar o cenário caótico. A única lâmpada do ambiente estava posicionada bem acima de algo que parecia ser uma mulher presa a uma pesada cadeira de madeira fincada no centro da sala. Ao entrar tirou uma pequena lanterna do bolso para visualizar melhor o local, foi então percebeu a situação precária de suas acomodações.

Era um quarto acolchoado por quase toda sua extensão, excluindo quase que apenas o lugar onde ela estava e a entrada do cômodo. Ali era uma acomodação bem mais ampla que todos os outros pacientes do hospital, e pelo visto também o lugar mais maltratado. Toda a proteção estava suja e rasgada, com grandes partes mofadas do que parecia um marrom morto cobrindo a maior parte das paredes que já foram brancas e macias algum dia. No teto e chão buracos revelavam o porções de cimento cru das paredes internas descascadas. O cheiro que dominava o local também não era dos melhores. Parecia uma estranha mistura de comida abafada, urina recente e odores genitais de dias. Ao ser abraçado pelo cheiro o psiquiatra teve que fazer um esforço extra para não colocar o almoço pra fora.


Ele ajeitou os óculos e cerrou os olhos enquanto procurava por algo parecido com uma cadeira no breu quase total do quarto. Com a lanterna em mãos achou uma jogada ao chão bem no fundo do cômodo, e certo esforço a arrastou para a frente da paciente. Ao lembrar da principal recomendação do hospital ele a colocou na distância de pelo menos um metro e meio dela. Em seguida tentou sem muito sucesso limpar o assento coberto de pó e mofo antes de se sentar. Contrariando sua higiene rotineira colocou sua maleta de couro espanhol no chão imundo ao lado da cadeira, em seguida ajeitou os grandes óculos novos, respirando fundo.

- Acho que podemos começar. - ele disse.

Graças à luz débil do ambiente o médico não havia visto o verdadeiro estado da paciente, e agora olhando de frente a seu rosto, sob um minucioso olhar ele percebeu que parte das histórias sobre ela pareciam ser de alguma forma verdadeiras. Ficou perplexo ao reparar todas as medidas de seguranças usadas para imobilizá-la.


Estava vestia uma camisa de força amarelada coberta por grandes manchas de sujeira, na qual era quase impossível enxergar o branco original da peça. A camisa no entanto não estava amarrada, mas seus membros permaneciam preso à cadeira por cintas de borracha preta de aparência resistente. Ele viu as tiras amarrando o pescoço, torso, pernas e cabeça. Rapidamente contou oito ao total. Na cabeça, uma máscara de couro marrom cobria a parte da frente do rosto da paciente, onde pequenos furos na base a deixavam respirar. Pelo visto ela tinha o péssimo hábito de morder pessoas, assim como se masturbar com certa frequência, pois ele também viu um cinto de castidade chamativo e bem apertado sobre a pélvis. O metal do cinto era a única coisa limpa e brilhava sob a luz indecisa do ambiente. O psiquiatra também observou que ela tinha uma venda escura cobrindo os olhos, o que o deixou um pouco intrigado, porém como não tivera tempo de ler integralmente os todos os relatórios ele apenas deu os ombros, guardando sua curiosidade por hora.


Sentado de frente da paciente o psiquiatra colocou maleta no colo e retirou ma grande soma de papéis. Com ajuda da lanterna viu diversos documentos como arquivos, fotos, relatórios, laudos, observações, anotações, exames e receitas médicas, tudo relacionado a ela. Inicialmente ficou impressionado com o volume, já que tinha recebido os dados as pressas junto da coordenação não tinha dado muita atenção ao real tamanho daquilo. Tentou de algum modo acomodar a volumosa documentação sobre as pernas cruzadas. Meio perdido entre tantos papéis decidiu começar por sua ficha de entrada.

- Bem, vamos lá. Meu nome é Fernando Campos, sou o psiquiatra que fará a avaliação antes de sua transferência. Irei fazer algumas perguntas simples e espero que responda como puder ok?

- ….. - dentro do quarto apenas sua voz ecoou, e após ela somente o silêncio encheu o lugar.

O médico olhou para a paciente sem reação e tentou mais uma vez:

- Seu nome é Isabella dos Anjos, tem vinte e sete anos e está internada aqui desde os dezoito. Está ciente disso?

- ….. - novamente nada.

- Isabella? - insistiu o profissional novamente.

- Você consegue me ouvir?

- Hunnn.. - ouviu um grunhido baixo e quase sem força por baixo do couro da mascara de aparência apertada.

Ele então imaginou se ela estava acordada, e contrariando as rígidas regras de segurança se levantou, chegando mais próximo dela. Com certo esforço ele tira máscara anti-mordidas e vê o rosto machucado de uma linda jovem vendada por baixo daquela proteção arcaica. Logo de cara percebeu que a garota estava fora do ar, pois um fio grosso de baba espessa se prolongava a partir de seu lábio seco até a parte baixa de seu queixo. Por curiosidade ele levantou de leve sua venda, levando um susto em seguida. Seu olho direito estava coberto por um grande curativo manchado, que de tão fundo indicava não ter olho algum atrás dele. A íris verde do outro olho estava remendo preguiçosamente em direção ao teto.

- Que ótimo, te deram muito sedativo. - disse, visivelmente decepcionado.

Ele foi ate a porta se preparando para voltar até a direção em busca de explicações quando a paciente pareceu reagir. Ao olhar de volta para ela o médico percebeu algo. Um som gutural que vinha do fundo da garganta de Isabella chamou sua atenção. A moça parecia estar engasgando aos poucos presa à cadeira, mostrando uma boca aberta virada para o teto e seu olho bom arregalado, girando e tremendo em sua orbita.

- Mas o que?! – falou, quase sussurrando ao levantar uma das sobrancelhas.

Não houve tempo de reação. Antes de Fernando pensar em fazer algo, ela cuspiu algo quase sobre o meio das pernas dele. Ao olhar para baixo ele viu três pequenos comprimidos coloridos envolvidos numa pequena poça de baba fétida e amarelada, tudo a centímetros de seus belos sapatos.

- Desculpe.. Não consigo ficar bem com isso em mim.. - Isabella falou, ainda com baba descendo queixo abaixo, num tipo de pequeno sorriso idiota.

- Sem problemas.. Desde que você esteja pronta para uma conversa. Você está bem? - a cara de espanto dele era mais do que obvia.

- Acho que sim, não quero dormir agora.

- Muito bem, acho que agora estamos prontos.

A paciente afirmou com um movimento lento de cabeça.

- Só preciso de um minuto. - disse o medico, novamente se acomodando na velha cadeira puída.

No meio da multidão de papeis Fernando voltou a folhear a ficha de Isabella, aparentemente cheia de observações de vários médicos diferentes. Tentando manter o profissionalismo acima de todas aquelas adversidades continuou seu discurso:

- Recapitulando, Seu nome é Isabella dos Anjos?

- Sim. - ela respondeu enquanto ele mexia em algumas folhas soltas.

- Estou vendo aqui que você está nessa instituição a nove anos, você tem ciência disso? - perguntou num tom frio.

- Tenho. - Isabella respondeu sem olhar nos olhos do psiquiatra.

- Isabela, você sabe que por que está aqui? - olhar dela parou por um instante se focando no médico. As pequenas cicatrizes vermelhas se destacavam no rosto pálido.

- Claro doutor, eu sou louca como todo mundo aqui. Acho que já devia saber disso, pelo menos é o que os outros malucos dizem. - disse com um sorriso um tanto jocoso.

- Outros malucos? Você esta falando dos outros pacientes?

- Não, estou falando de todos os outros.

- Que outros então?

- Pessoas como o senhor e todas as pessoas lá fora. Ainda existem pessoas lá fora não é? - seu rosto parecia curioso e bobo como de uma criança.

O médico continuou.

- Então você acha que todas as outras pessoas são loucas também? E sim, ainda existem pessoas lá fora..


- Minha finada mãezinha dizia que a loucura era algo que todo mundo partilhava, porém cada um tomava pra si em uma porção diferente.

- Pelas informações que tenho sua mãe morreu pouco tempo depois de entregá-la aos cuidados do orfanato de Santa Lúcia, quando você tinha apenas poucos meses.

Ela ficou estática por um momento como se deslumbrada com a lâmpada acima de sua cabeça. Parecia atraída pela luz, como um inseto. Mesmo assim respondeu.

- É, talvez seja isso, e eu seja bem mais pirada do que pareço. Não acha?

- Na verdade esse não é objetivo dessa pequena entrevista. Estou aqui para avaliar seu estado atual antes da sua eminente transferência. Não se preocupe, prometo que vai ser rápido. O medico riu um sorriso sem graça.

- Mudança? Aonde vamos?

- Infelizmente ainda não tenho essa informação. Quase todos os pacientes já foram transferidos, você deverá ser uma das últimas.

- Isso é bem chato, eu já tinha me acostumado aqui, mesmo não recebendo muitas visitas. Meus amigos irão?

- Sim, como eu falei todos os outros serão transferidos.

- Não estou falando deles.

- Então de quem está falando?

Isabella parou um instante e sorriu.

- Dos enfermeiros é claro. - a mulher soltou um risinho dissimulado no fim da frase.

- Entendo.

O medico avançou por algumas paginas amarelas com marcações vermelhas. Então percebeu o motivo do riso. Aquela era outra das recomendações mais importantes da administração antes que ele entrasse no quarto de Isabela. Cuidado extremo. Era exatamente isso que tinha faltado à alguns enfermeiros cerca de quase um ano atrás. Três mortes violentas e cerca de e vários membros quebrados fizeram a equipe medica a colocarem em privação de movimento quase o tempo todo. O médico porém não entendia como alguém aparentemente frágil podia feito tudo aquilo. As palavras “monstro” e “demônio” se repetiam diversas vezes nos depoimentos dos funcionários que tiveram contato com ela.

- Então você gostaria que eles fossem transferidos com você para sua nova casa?

- Claro que sim, nós adorávamos brincar com eles, mesmo que eles fossem frágeis demais às vezes.

- Quando você fala “nós” você está falando dos outros pacientes?

- Eu não falei nós, eu falei eu, só Isabella está aqui.

O médico achou estranho, mesmo assim continuou.

- Que tipo de brincadeira vocês brincavam?

- Alguns jogos.

- Que tipo de jogos?

- Jogos da carne.

O medico percebeu a mudança no olhar da mulher.

- Ainda não entendo Isabela.

- Eles.. eles me tocavam e brincavam, brincavam com nosso corpo.. Por anos, anos.. Entende? - a voz dela parecia outra agora, nervosa, quase chorosa - Eles brincavam dentro de nós, brincavam com nossa mente, sempre.. de novo e de novo, sem parar e sem pedir. Eu, ela sempre pedia socorro mas ninguém ouvia, ninguém vinha.. Eles machucaram nosso corpo. Nosso corpo puro..

- Isabella.. - o medico tentou dizer algo, mas ela continuou a falar, agora com uma voz mais incisiva e violenta.

- Eles mereceram aquilo que fizemos! sim, mereceram tudo que aconteceu depois!

- Você está afirmando que foi violentada pelos funcionários do sanatório?

- Alguns de nós até gostou, mas não se pode agradar a todos, não é doutor?

- Sua ficha também diz que você é uma mentirosa compulsiva.

- Foda-se essa ficha! Seu almofadinha de merda! Seu desgraçado fodido! Porra! Ela sofreu e nós sofremos com ela!


A garota gritou alto chegando ao ponto de babar, depois gargalhou no eco obscuro do lugar.

- Desculpe doutor alguns deles estão preocupados com coisas sentimentais, já eu sou alguém que prefere apenas um pouco de prazer doce e violento de vez em quando. Que tal um carinho aqui em baixo hein bonitão? - ela piscou seu único olho, mexendo a cintura o quanto pode, fazendo o metal do cadeado do cinto de castidade tilintar na meia luz.

O médico tossiu.

- Seria bom mantermos a postura nessa conversa não é Isabella?

- É uma pena doutor, no momento a garota foi passear e nos deixou cuidando da casa. - a voz dela estava estranhamente calma.

- E com quem estou falando?

- Isso não importa. O que importa é o que temos pra falar com você.


- Não estou entendendo.

- Então cale a porra da boca e escute.

Fernando ficou intrigado. Ao que parece Isabela tinha múltiplas personalidades bem distintas dentro de si.

- Sabe os carcereiros desse inferno? Eles já fazem o que querem com a garota há tempos, mas os velhotes da administração fazem vista grossa aqui em baixo, principalmente nesse quarto. Você parece esperto e deve estar se perguntando o porquê, não é? A resposta é que nossa garotinha aqui é uma bastarda bem importante. O senhor governador que o diga.

- O governador?

- Sim. Aquele matusalém escroto é o papai dela. Ele era um maldito político em ascensão com uma grande e feliz família, mas achou divertido se meter entre as pernas da criadagem. Uma pena pra mãe, nunca se soube aonde aquele miserável jogou o corpo dela. Mas por alguma estranha razão teve pena da garota e a mandou para um orfanato. A questão era que o tempo ia passando e sua influencia política ia aumentando muito, por isso garota ainda poderia ser um problema no futuro. Então ele finalmente resolveu enfiá-la nesse buraco esquecido, o qual tem muita influencia por ser um grande e bom patrocinador. Fazer com que certos funcionários da alta casta desse chiqueiro a diagnosticaram como esquizofrênica foi um pulo.

O psiquiatra tentou argumentar, mas foi impedido por uma súbita falta de energia. Tudo então foi engolido pela escuridão.

- Quer saber como perdemos um olho doutor Fernando? - a voz era calma e clara no meio do breu.

- Eu...

- A ultima vez que os enfermeiros vieram aqui estavam putos por termos quebrado alguns pescoços depois da brincadeira sádica do dia. Sim, eles estavam bem putos. Então um deles achou uma boa ideia roubar um bisturi lá de cima e vir se vingar devagar. Para nossa sorte o cara estava um pouco chapado, e depois de rir a beça enquanto nos mostrava nosso olho pendurado nas mãos não teve como se defender da cabeçada certeira que lhe daria uma passagem só de ia pra fora daqui. Naquela época pensamos que ela iria morrer, mas aqui estamos, com menos órgãos mas ainda no jogo.

- E que jogo é esse? - falou a temerosa voz de Fernando em meio as sombras.

- Vingança, é claro.

- Vingança contra o governador?

No meio da escuridão densa do quarto um barulho ecoou.

- Sim senhor. Pode acreditar em nós. Vingança contra ele e qualquer um que estiver no nosso caminho.

Novamente o som estranho. Algo se partindo.

- Acho que você precisa ser medicada agora.

Fernando levantou-se com pressa e foi até a porta do quarto para sair dali. Nervoso, derrubou o pesado molho de chaves no chão. No meio daquela sujeira o molho pareceu desaparecer.O som continuou, agora mais rápido, parecia borracha, borracha sendo cortada.

- Chega de remédios doutor.

- disse a voz, agora parecida com a primeira de Isabella.

Passos rápidos foram ouvidos pelo médico enquanto tateava o chão com a pequena lanterna em busca das chaves. A luz voltou abruptamente e Isabella apareceu na frente dele quase como se tivesse sido teletransportada. O pequeno bisturi brilhoso que carregava na mão direita estava a poucos centímetros da pele macia entre seus olhos. Mesmo depois de ter cortado todas as tiras da cadeira ele parecia excessivamente afiado.

- Não se mexa bom homem da medicina, vamos levar essa moça para um lindo encontro de família. Não seja estraga prazeres e nos entregue essas chaves, por favor. - a voz parecia assustadoramente calma agora. O médico tremeu dos pés a cabeça.

- Por favor, não me machuque. Eu.. eu posso ajudá-la. - disse ele, levantando as chaves com a mão trêmula.

- Quem dera. Mas não se preocupe, estamos indo atrás de quem pode.


O som da cena seguinte é o tilintar múltiplo do molho de chaves e da agonia metálica da pesada porta do quarto sendo fechada.





...






A casa era grande e estava fincada próximo a um belo lago. Seu dono era um homem inteligente que vinha de gerações de políticos poderosos e empresários muito bem sucedidos. Era um imóvel imponente abrigando dezenas de quartos e cômodos em seu interior espaçoso. Mesmo assim a mansão se mantinha silenciosa com seu dono sozinho, longe dos filhos no exterior e da esposa em compras na capital. Sentando em sua cadeira de rodas confortável o governador assistia sua grande TV da sala. Em sua mão um grosso copo de uísque caro o acompanhava.


Passou por rapidamente por diversos canais, mas não encontrou nada o que realmente lhe agradasse. Por fim desistiu e desligou o aparelho, tomando um bom gole da bebida em seguida. Se tivesse procurado por mais alguns segundos teria visto a noticia sobre um incêndio criminoso que destruíra sanatório mais velho do estado, deixando alguns pacientes e um psiquiatra mortos.


De repente porta da sala tremeu com uma batida forte e molhada. O homem assustou-se na hora, mas decidiu verificar, manobrando a cadeira elétrica até a grande porta da frente. Ele a abriu devagar, e para sua surpresa viu uma cabeça humana rolando os degraus de madeira da entrada com sangue ainda saindo do pescoço. Horrorizado, percebeu que aquele homem era um dos seguranças que guardava sua propriedade.


O velho olhou alguns metros à frente e viu uma figura esguia saindo da beira escura do lago, aproximando-se da casa em meio à escuridão noturna. A figura chegou mais perto e ele pode ver uma jovem mulher caolha, suja de lama e molhada dos pés a cabeça. As mãos estavam cobertas de sangue escuro e numa delas um grande facão brilhava, pingando em vermelho vivo. Ela então avançou vagarosamente na direção do homem em pânico, que por alguma razão apenas tremia sem conseguir sair do lugar. Seu rosto era de alguém que via o próprio demônio em pessoa. A mulher passou pela cabeça, subindo sem pressa os degraus até ficar em frente ao homem.

- Oi papai, desculpe a demora, mas nós estávamos loucos pra conhecê-lo...











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