O sorriso do lobo - final

A pobre mulher andava tão preocupada que sequer conseguia pregar os olhos durante a noite. Desde que sua neta havia desaparecido para ser encontrada após três dias vagando nua pelo bosque, coberta somente por sua capa vermelha, o mundo havia virado de cabeça para baixo e algo de muito estranho vinha acontecendo.

A menina, antes tão cheia de vida e energia, agora se tornara taciturna e calada. Nunca saia da pequena casa onde vivia com a avó, pouco falava, nada comia e, para piorar a situação, desde o incidente desenvolvera uma estranha alergia à luz do sol.

Não dormia e passava os dias reclusa, o que acabou por torná-la tão pálida quanto a morte. Mesmo naquelas noites quentes de dezembro, nada havia que pudesse aquecer seu corpo, seus olhos estavam sempre inquietos e suas pupilas extremamente dilatadas como se vivesse sob o efeito de alguma droga misteriosa ou, simplesmente, tivesse perdido sua alma.

Os vizinhos e amigos tentavam acalmar a mulher dizendo que aquilo passaria logo e que a menina apenas precisava de tempo para se recuperar do trauma que havia sofrido, no entanto, apesar de muito se especular, ninguém sabia dizer o que havia acontecido com a garota naqueles dias em que ela passara na floresta.

Alba, por sua vez, nunca mais falara sobre a noite em que havia desaparecido ou sobre os dias em que havia passado vagando sozinha em meio à mata, desde que tinha sido taxada de louca após contar sua história sobre o caçador e o homem-lobo.

Aquilo tudo era um grande mistério.

O alívio que a avó havia sentido ao ter a neta de volta ia, aos poucos, sendo substituído por uma preocupação que beirava o desespero. Sem a ajuda da neta, que se negara a voltar ao trabalho, a velha mulher precisou retomar seu antigo ofício: lavar roupas para as famílias abastadas. Assim, além de sofrer com a preocupação, a pobre senhora tinha agora que passar os dias com as costas curvadas, esfregando pilhas de roupas sem fim.

Naquela noite, após o sol mergulhar para além da borda do mundo, a escuridão surpreendeu a velha ainda agachada junto ao poço. A pele das mãos estava em carne viva, os dedos amortecidos pela água fria e as juntas endurecidas pelo esforço, porém, por mais que ela lamentasse o que o destino lhe reservara, não estava disposta a desistir.

Seus pensamentos foram subitamente interrompidos quando percebeu que alguém se aproximava. Assustada, ergueu os olhos rapidamente e surpreendeu-se ao constatar que era Alba caminhando em sua direção.

Ao ver a neta fora de casa pela primeira vez em muitos dias, a mulher animou-se cheia de esperança de que aquele fosse um sinal da recuperação tão desejada, porém, logo se deu conta de que havia algo de errado com a menina. Seus olhos estavam grandes demais e, enquanto ela caminhava de forma estranha, todos os ossos do seu corpo pareciam enrijecidos. Com movimentos descompassados, a menina movia a cabeça de um lado para outro, cheirando o ar como se estivesse farejando à procura de algo, seu nariz estava dilatado e, ao ver a avó, seus olhos se iluminaram como duas bolas de fogo.

Alba sorriu de uma maneira macabra deixando à vista os dentes enormes que brilharam na escuridão e aquela visão aterradora fez com que uma onda de medo percorresse a espinha da velha. A pobre mulher não teve forças nem tempo para fugir das presas pontiagudas que escapavam da boca de sua neta. Os olhos, a boca, os dentes, tudo era desproporcionalmente grande e aquela cena assustadora foi a última coisa que ela viu antes de ser atacada pela menina que cravou os dentes em seu pescoço e sugou cada gota de sangue de seu corpo magro e pequeno.

Terminado o banquete, a palidez do rosto de Alba contrastava com o vermelho vivo que tingia seus lábios e, após abandonar a carcaça ressequida no chão, a menina caminhou em direção à floresta até ser engolida pela noite eterna que, naquele momento, iniciava-se para ela.


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