O sorriso do lobo - parte II



As sombras alongavam-se e encolhiam-se preguiçosamente à medida que a brisa embalava o candeeiro no interior da cabana de caça perdida em um canto remoto do parque. A luz amarelada deslizava sobre o corpo esguio e pálido da jovem ainda coberto por uma fina camada de tecido ordinário. A capa vermelha estava caída no chão aos seus pés. Ali, onde nem mesmo os olhos de Deus chegavam, ele se deleitava com o prazer que aquela visão lhe proporcionava. Há horas observava sua presa paralisada como se envolta por uma teia invisível.


Encontrara aquela menina simples e pueril quase que por acaso, enquanto caminhava pela região boêmia da cidade no início da noite. A pobre garota que trabalhava em um dos muitos cafés que se espalhavam por aquele lugar o olhara com interesse e fascinação convidando-o a se aproximar.


Enquanto ela lhe servia o café e tagarelava sobre sua vida sem graça, ele salivava sentindo o cheiro adocicado de seu sangue. Planejou segui-la mais tarde. Seria fácil atacá-la em qualquer lugar e se alimentar em um canto escuro, mas ele queria mais.


Há muito tempo havia aprendido a desfrutar da caça muito mais do que da caçada, não queria simplesmente se empanturrar de sangue e abandonar o corpo frio em um beco sujo. Aquele não era seu estilo. Acreditava que a morte exigia elegância, afinal, ele não era um animal qualquer. Era o predador que ocupava o topo da cadeia alimentar.


Ele desejara tudo que aquela menina que exalava o frescor da inocência podia lhe oferecer, mas sua caçada quase havia sido atrapalhada naquela noite de lua cheia quando o mundo se enchia daqueles seres ordinários que corriam insaciáveis, comendo e se acasalando como bestas selvagens.


Não esperava encontrar um deles tão próximo da cidade, mas conseguira despistá-lo e agora estava ali, a observá-la quase que em adoração, com um desejo que os humanos nunca poderiam compreender. Um desejo de carne e sangue, nascido da fome e da lascívia.

Naquele momento de intensa excitação, nem o mais tímido movimento da presa lhe escapava, nem mesmo o tênue tremor do seio esquerdo que pulsava sob o tecido fino fazendo-o questionar-se se ela sentia apenas medo ou também desejo?


Com um simples menear de cabeça ordenou que ela se despisse e, apesar do medo que aqueles olhos grandes e negros denunciavam, ela obedeceu. Com movimentos lentos desatou as fitas que prendiam o vestido fino às costas. O pano leve escorregou pelo corpo de menina deixando à mostra o ombro delicado, os seios pequenos e as clavículas acentuadas.


Após se libertar do vestido, ele ordenou que ela se aproximasse. Com seus longos dedos frios, ele prendeu uma grossa mecha de cabelo atrás da orelha pequena, fazendo-a arfar. Antes de saborear o sangue que o alimentaria, ele se deleitaria naquele corpo que parecia esculpido em mármore.

Obediente aos desejos que ele sequer precisava expressar, ela inclinou a cabeça para o lado, deixando à mostra o pescoço nu. Ele aspirou o cheiro suave e adocicado do sangue que corria pelas veias azuladas e naquele momento quase perdeu o controle.


Um manto de negra escuridão cobriu sua face enquanto ele sussurrava junto ao ouvido da menina que estremecia a cada palavra indizível que saia de sua boca acompanhada pelo bafo gélido da morte, aumentando o prazer que ele sentia.


Ele era, antes de tudo, um caçador e desejou vê-la sangrar. Sentia um prazer doentio quando o liquido vermelho escorria pela pele branca, então, com a unha do dedo anular traçou um corte reto e fino no pescoço liso.


Gotas de sangue brotaram da incisão perfeita e percorreram todo o corpo chegando até o ventre que ele lambeu com desejo e, ao perceber que a pele da menina se arrepiava respondendo ao toque de sua língua úmida, gargalhou com escarnio.


Não havia castidade nela e seu recato era mentira. Então, dominado pela bestialidade, tomou-a e a possui ao mesmo tempo em que cravou os dentes no pescoço branco para sugar cada gota de sangue daquele corpo frágil.


Perdido naquele momento de êxtase, único em que se tornava vulnerável, foi surpreendido pelo golpe que o derrubou no chão. Sem tempo para se defender, sentiu o inimigo ancestral de sua raça cravar os dentes em seu dorso e rasgar sua carne branca e fria expondo as vísceras que se derramaram para fora do corpo.


Com as patas fortes de garras afiadas, o animal tomado pelo ódio e pela fúria feriu seu rosto pálido, fazendo-o perder o discernimento por alguns instantes, porém, apesar da dor transcendente, aquilo não era uma estaca de madeira em seu peito.


Mesmo com o corpo estraçalhado, concentrou-se para retomar o controle de si. Num golpe rápido, agarrou o pescoço do monstro com as mãos e com sua força sobre humana estrangulou a fera fazendo sua força arrefecer. Por um breve momento, o lobo-homem afastou a enorme boca de sua presa dando-lhe tempo suficiente para escapar e alcançar a arma sempre preparada que trazia em seu casaco.


Com as mãos firmes e a destreza de quem nunca deixava de praticar, disparou um tiro certeiro entre os dois grandes olhos de pupilas dilatadas, perfurando o crânio do lobo-homem. Um uivo de dor cruzou a noite fazendo os pássaros que já dormitavam em seus ninhos levantar voo num farfalhar apavorante que ecoou pelo parque, antes da fera tombar inerte.


O homem pálido e banhado em seu próprio sangue, arfando pela dor, aproximou-se do animal, tocou-o com as pontas dos pés e após certificar-se de tê-lo abatido, sem sequer se lembrar da frágil menina que jazia no chão frio, caminhou em direção à floresta até ser engolido pela noite que nunca teria fim.


Alba foi encontrada após alguns dias, vagando por entre a mata densa do parque, tiritando de frio e enrolada em sua capa vermelha. A pobre menina parecia ter perdido a razão e em seu delírio apenas conseguia falar sobre o caçador que havia tentado matá-la e sobre o lobo que havia salvado sua vida.

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